2017: um ano para ser esquecido

Não queremos fazer um balanço do ano de 2017. Primeiro, porque não haveria o menor sentido: o que já passou, morto está. Depois, porque nada de bom pode ser extraído desse ano; assim, qualquer balanço seria gastar vela boa com um defunto ruim. Talvez seja melhor olharmos para frente, porque este ano já se foi. 
 
Numa das reuniões mensais organizadas pela Acipi, um empresário piracicabano, bastante vivido, me perguntou: “e como está a crise para o Jornal de Piracicaba?”. Ele nem sequer me deixou responder e, de pronto, já formulou sua conclusão: “Não tem crise, porque notícia sempre vai existir”. Fiquei aprisionado por alguns segundos pela resposta certeira, mas totalmente equivocada. O que deveria eu dizer a este senhor? Deveria lançar mão dos números sempre decrescentes de nossa atividade? Deveria lembrá-lo que o sol nasce (e morre a cada dia) para todos? Mas logo percebi que a realidade é apercebida de modo diferente para cada um de nós. E apenas respondi: “É, notícia nunca nos falta, mas ela não paga a conta no final do mês”. 
 
Em julho de 1999, 86 dos 97 jornais filiados à ANJ (Associação Nacional de Jornais) reduziram o formato do jornal standard em 1 polegada (2,54 centímetros). A medida foi tomada como um meio de economia de custos com o chamado “papel de imprensa”, cujos preços já estavam em ascensão. Apenas 30% (ou menos) do papel jornal é produzido pelo país, o restante tem que ser importado. Como a gasolina, o papel jornal é uma commodity cotada em dólar. Naquele ano de 1999, o Jornal de Piracicaba estava entre os 86 jornais do país que acompanhou essa mudança. Dez anos depois foi a vez do The New York Times reduzir seu tamanho, mas em 1,5 polegadas. 
 
Mas isso não se mostrou suficiente e a partir dos anos de 2013 a 2017 vários jornais brasileiros passaram por novas mudanças, ora reduzindo alguns centímetros do formato standard padrão, ora mudando completamente o formato, passando para Berliner (adotado na Europa), como foi o caso do jornal O Liberal, da cidade de Americana. Mas isso ainda não bastou. Praticamente todos os jornais brasileiros reduziram seus cadernos e as páginas impressas de suas edições. Outros jornais, infelizmente, não sobreviveram ao processo de mudanças e tiveram que fechar suas portas, como o Jornal de Limeira.
 
Isso não se deu apenas com os jornais impressos. Muitas revistas nacionais importantes, tais como Veja, Época, Isto é, aos poucos foram reduzindo o número de páginas das edições semanais. Algumas ficaram tão finas quanto irreconhecíveis. Gurus no mundo todo decretaram a morte dos jornais, a morte dos veículos de imprensa. Mas ainda não deram uma data para que isso vá ocorrer. Pela primeira vez na história do jornalismo, todos os jornais, em maior ou menor grau, passam pela mesmo funil: não há quem não preveja sua morte. 
 
Alguns leitores dão datas precisas: dia tal do mês qual. Outros concluem que será no fim de certo mês ou no fim do ano. Às vezes até fazem um bolão de aposta. Contudo, o que mais se tem ouvido nas ruas é: “Ah, com certeza, não passa de 2017!”. O jornal A Cidade, de Ribeirão Preto, cansou de ouvir isso pelas ruas da sua cidade e há um mês estampou em suas páginas com letras garrafais: “O jornal A Cidade vai fechar”. Pronto, estava dito a todos. Mas vai fechar quando? Vai fechar o quê? E a resposta vinha logo em seguida: “vai fechar um compromisso com o leitor de continuar a publicar tudo o que acontecer, doa a quem doer”. Quando? “todos os dias”. 
 
Diante disso, surge-nos outra pergunta: por que as pessoas querem (e precisam) prever o que irá acontecer no futuro? Pior do que prever o que não se sabe é rejubilar-se com a desgraça alheia. Não é segredo que muitas empresas piracicabanas fecharam suas portas em 2017. Outras estão ainda no mercado, mas deficitárias, lutando, quase moribundas, para sobreviver nessa crise econômica sem precedentes. Não há vergonha nisso, ao contrário, há coragem. Coragem de quem ainda não desistiu de lutar; de quem precisa, todos os dias, fazer escolhas difíceis: qual ou quais contas hoje vão ficar sem pagar. 
 
É chegado o momento de pararmos de perguntar sobre o que vai acontecer no futuro. Ao contrário, devemos voltar os olhos ao presente e procurar responder essa questão: “como iremos nos reinventar para continuar a viver?”. Biologicamente todos nós temos um imperativo atávico de sobrevivência. É a hora de usarmos isso a nosso favor. 
 
Talvez 2017 não deva ser completamente esquecido, pois guardamos dele a sofrida lição e o aprendizado difícil. Se a morte está por vir, aliás, para todos nós que estamos sob o mesmo sol, ela é justamente o que dá sentido à nossa vida hoje. O futuro não é como o curso de um rio que observamos sua nascente e podemos prever onde ele vai chegar. O futuro está aberto e o construímos a cada dia. Não sucumbiremos aos falsos gurus ou aos arautos de nossa morte, pois como diria o sábio Mestre Yoda (sim, aquele sujeito verdinho de Star Wars), “o futuro? Difícil prever, pois em movimento ele sempre está”. 
 
Se puder deixar uma mensagem para o ano de 2018 a todos leitores e clientes que, como nós, sobreviveram nessa extenuante crise de 2017, ela seria aquela que o cineasta Akira Kurosawa colocou em seu último filme. Um velho professor reúne-se com seus ex-alunos todos os anos para comemorar o aniversário; na oportunidade, eles perguntam ao velho mestre: “Maadakai?” (Está pronto? [para morrer]). E ele responde, todos os anos, com convicção: “Madadayo” (Ainda não).