2020, como vai estar o Brasil?

Era fim dos anos 1980. Rita Lee foi visitar Cazuza, que já havia contraído o vírus HIV em uma época ainda de descobertas sobre a aids. Eles trocaram sorrisos, beijos, abraços e muito papo. Falaram sobre vários assuntos, mas em um deles Cazuza e Rita pensaram sobre o futuro e se perguntaram: quantos anos a gente vai ter no ano 2020? Ele teria 62, 63 anos. Rita fez aniversário neste 31 de dezembro de 2019, completando 72 anos.

 

Rita lembra que, mesmo com a morte batendo à porta, Cazuza só pensava no futuro. Durante essa conversa, ele mostrou para ela uma letra que fez inspirado nos seus cabelos vermelhos, com o nome Perto do Fogo. Ela leu, adorou, saiu dali e acabou musicando os versos do poeta. Cazuza foi o primeiro a gravar a canção no álbum Burguesia, seu último registro musical, lançado em 1989. Perto do Fogo saiu como um blues rasgado, bem ao seu estilo.

 

Rita também havia selecionado a música para o repertório do seu próximo disco da época. Ela gravou a parceria bem no dia em que Cazuza morreu, 7 de julho de 1990, sem saber que ele tinha morrido. Na sua versão, mais romântica e lírica, lançada no álbum Rita e Roberto, de 1990, Rita inseriu o trecho de sua conversa com Cazuza: “eu tava aqui pensando (…) no ano 2020 eu vou ter o que? 72, 73 anos…”.

 

No ano seguinte, Rita saiu em turnê pelo Brasil e pelo mundo com o show Bossa’n Roll, considerado o primeiro “acústico” brasileiro, onde ela revisitou sua carreira com versões em “voz e violão”. Ela não deixou de lado a parceria com Cazuza. No registro, lançado em 1991, Rita diz que na bateria, no baixo e na guitarra estava o poeta, como se tocasse do céu, acompanhando ela e seu violão. Durante a canção, ela fala novamente sobre 2020, mas agora com um série de questionamentos que parecem ser premonitórios:

 

“Eu tava aqui pensando, pensando… no ano 2020 como será que vai estar o Brasil?

Será que vai ter floresta, pelo menos uma?

Será que ainda vai ter um índio, dois, uma tribuzinha?

Será que vão sobreviver, hein gente?

Será que a gente aguenta?

De repente os trombadinhas crescem e viram políticos, né?…

Que pena. É, o Brasil é tão bonito, né, grande!

País doido este…

Vai ser tudo igual…”

 

Chegamos! Estamos em 2020. As dúvidas de Rita, questionadas há quase 30 anos, são mais atuais do que nunca. As florestas estão sendo destruídas sem controle algum. São poucas as “tribuzinhas” sobreviventes e as que sobraram lutam contra o tempo e a ganância para continuarem existindo. A política brasileira é um antro de trombadinhas de colarinho branco em todas as suas esferas.

 

O Brasil também segue grande e bonito, mas menos potente e com sua beleza sendo apagada pela destruição. Será que vamos sobreviver? Será que a gente aguenta? Essas perguntas seguem no ar…

 

Rita sempre foi à frente do seu tempo. Na época dos Mutantes, cantava sobre 2001. Nos anos 1970, falava sobre a Miss Brasil 2000. Na virada do milênio, projetava o ano 3001. Para ela, deve ser um pesadelo assistir seu país não sair do lugar. O Brasil 2020, três décadas depois daquele Perto do Fogo, parece ser ainda pior, retrocedendo a cada dia.

 

Rita também dizia sempre achar que nos 2000 “estaríamos mais para Jetsons do que para Flintstones”. Já deu para perceber que não há naves pelo céu, mas muitos dinossauros seguem empurrando rodas de pedra. Já Rita continua genial!