7 DE SETEMBRO X

 

“É o homem, dentro de circunstâncias que não escolheu, que constrói seu futuro”. (Josep Fontana A história dos homens)

Sem dúvida, as circunstâncias têm enorme peso em nossas vidas. O homem é ele e as circunstâncias, ou seja, dependendo delas, mesmo um gênio pode ter uma vida apagada ou, de uma hora para outra, tanto triunfar gloriosamente como fracassar completamente.

Nossa história está repleta de exemplos; um deles é a nossa independência atrelada às guerras napoleônicas.

Napoleão Bonaparte, ao assumir o governo, após a Revolução Francesa que havia colocado no poder a burguesia, viu-se envolvido em contínuas guerras.

Para a Inglaterra, embalada pela Revolução Industrial, não interessava nem a concorrência, nem os ideais republicanos. Para tanto, era fundamental repor no poder a dinastia Bourbon, tirando-o da burguesia francesa ávida de desenvolver a industrialização.

Estes dois motivos provocaram sete coligações de países europeus contra a França. Napoleão, bafejado pela sorte de ter ao seu lado um pugilo de hábeis generais e de soldados intimoratos, além dele ser exímio estrategista, derrotou-as uma por uma,em batalhas, como em Wagran e Austerlitz.

O continente ficou à sua mercê; a ilha Britânica não. A esquadra que preparou para invadi-la foi derrotada pelo almirante Nelson na batalha naval de Trafalgar.

Sua alternativa foi decretar o Bloqueio Continental proibiu a todos os países, do continente, europeu comerciarem com os ingleses. Com sua economia afetada os ingleses seriam obrigados a um acordo favorável à França, acreditava.

Portugal não podia aceitar tão absurda intervenção econômica, além de significar um rompimento com sua histórica aliada.

A solução de D. João VI foi fugir com a corte para o Brasil, ato de extrema lucidez política. Outro ato seu digno de admiração foi o de ter transportado consigo uma extraordinária biblioteca.

O Brasil, de colônia, transformou-se em sede do governo. Criaram-se estruturas tais que, após a derrota de Napoleão e a expulsão dos franceses de Portugal, D. João VI, ao retornar para lá, não tinha mais condição de reduzir o Brasil à condição de colônia novamente. Nossa independência tornou-se inevitável.

As comemorações do dia, estipulado como marco de nosso desligamento de Portugal 7 de setembro de 1822, estão ligadas às simplificações, ufanismos e exaltações heróicas, como o quadro de Pedro Américo e o hino da independência.

Não foi um ato realizado a partir de um plano preconcebido por motivações nativistas, mas fruto de circunstâncias que, ao mesmo tempo em que evitou sérios confrontos sanguinolentos e possíveis desmembramentos territoriais, excluiu a participação popular.

Foi uma realização das elites temerosas de levantes populares a exigirem direitos democráticos, como na França de 1789.

As circunstâncias históricas determinaram os campos de ação, as opções como as possibilidades perdidas de se conseguir uma real independência econômica, e mesmo política. Foi conquistada pelo absolutismo imperial, não por inspiração liberal. Não tivemos uma república, mas uma monarquia hereditária.

Ter governantes avessos ao povo, convictos de que são ungidos pelo destino a dirigirem de acordo com suas convicções, cercados de “amigos” e alheios aos reclamos dos governados, é um dos nossos legados históricos. Outro é o fato de nosso operariado ser vítima de um viés de submissão, oriundo do escravagismo e suas seqüelas. Mesmo após o aprendizado com as conquistas trabalhistas de seus colegas europeus e norte americanos, não conseguiu líderes capazes de escaparem de manipulações ou intimidações governamentais. Ter líderes em cargos de mando não significa hoje, para os operários, ganhos sociais, aliás, vivem sob a contínua ameaça de desemprego e até de perder o direito de greve. O trabalho é considerado custo, não mais valia…

O povo, como não teve um aprendizado democrático, contenta-se com migalhas populistas, financiadas por impostos absurdos, e não percebe que estamos ficando atrás na corrida para o desenvolvimento.

(José Faganello)