A caixinha de som

Lembro-me de estar dormindo, sonhando que estava voando, como sempre sonho, e de repente, do alto do céu, começam a cair pacotes imensos de presentes em minha direção. Acordo assustado com um som alto saindo de algum canto da casa, “um pacotinho, dois pacotinhos, Mil Pacotinhos Pra Jesus…”, com aquele grave estourando a caixa de som e a voz de crianças berrantes gritando a música como se fosse o fim do mundo. Era minha mãe gravando fitas e mais fitas K7 de música infantil religiosa para os projetos dela envolvendo crianças, pacotinhos e Cristo. Essa introdução “flashback” é para lembrar que talvez seja daí que venha meu trauma pelo assunto que vamos tratar hoje nesta coluna.

Antigamente, a gente ouvia discos de vinil em casa e o som nem era tão alto porque aquele sistema de som, que incluía um cabeçote, o próprio aparelho de vinil, toca fitas e velhas caixas de madeira, não tinha lá muita potência. Mas logo começaram a produzir os mini-systems, sem o vinil, mas com CD e K7. Outros aparelhos mais potentes foram surgindo, mas todos eram ligados na tomada ou carregados com aquelas pilhonas enormes que custavam uma fortuna e deixava o mecanismo funcionando por no máximo uma hora.

O tempo foi passando e os cientistas, ao invés de estudarem como podemos popularizar as viagens espaciais ou se há vida extraterrestre, resolveram criar tecnologia para que caixas de som ficassem cada vez mais potentes em tamanhos acessíveis para se levar onde quiser e com carregamento por bateria que dura horas.

E surgiram, enfim, as caixinhas de som portáteis para então o sossego do mundo acabar com um tubo com 360 graus cheios de furinhos, de onde sai um som poderoso, tocando qualquer tipo de porcaria que se possa imaginar bem do seu lado.

Eu adoro música, amo escutar o que gosto e não ligo de compartilhar ideias e informações musicais, sejam elas exploradas em uma festa animada ou em uma reunião entre amigos. Mas a caixinha de som vai além. Ela dita ao seu redor o que seus ouvidos vão captar sem te pedir permissão. É uma espécie de ditadura do “ouça o que eu gosto”.

Alguém já viu um outro alguém perguntando: “boa tarde, o senhor se importa se eu ligar minha caixinha de som para tocar um psy-trance no volume 100 ao seu lado enquanto o senhor descansa na areia dessa praia linda e deserta?”.

Certa vez, sentei em uma mesa de bar, onde havia lá um som ambiente ignorável, e, do nada, um som alto começa a tocar, assustando quem estava ao redor. Era alguém que, no alto de sua compreensão de mundo, achou por bem ligar seu pagode no último volume.

Praia? Pffff… esqueça o barulho das ondas do mar, das conchinhas tilintando conforme a onda bate na areia, do sapateado do siri andando de lado para cá e para lá. Praia agora é sinônimo de festa a todo momento. Cada guarda-sol é mais um ambiente, com uma variedade de estilos inacreditável que nem o organizador do Rock in Rio poderia imaginar em ter.

Nem em parques é possível sentar e ler um livro, sempre haverá de ter um troglodita ligando sua caixinha de som para espalhar sua curadoria musical vento afora.

E é por isso que hoje, neste dia 13 de setembro de 2019, quero exaltar Nathaniel Baldwin. Você provavelmente nunca ouviu falar dele. Eu nunca ouvi falar dele até dar um Google há um segundo atrás para escrever esse texto. Mas é ele, esse deuso sensato, esse muso da tecnologia, esse papa do bom senso, ele mesmo, o inventor dos fones de ouvido. Viva!