A escalada dos crimes de ódio

O massacre na Escola Estadual Raul Brasil em Suzano chocou o país com o cruel assassinato aleatório de estudantes e funcionárias. Tudo ocorreu justamente na escola, que deveria ser lugar de aprimoramento humano e desenvolvimento físico e intelectual. Não houve contexto de roubo ou sequestro, ou seja, os atiradores não visavam obter nenhum ganho financeiro de suas vítimas. Também não se tratou de crime passional, já que os assassinos não tinham ódio particular ou planejavam vingança específica contra aqueles que mataram.

É verdade que um deles assassinou o próprio tio. O jovem supostamente não gostou de conselhos que dele recebeu. Nesse caso, revela-se a possibilidade de vingança específica, mas que não se estende a todas as vítimas. Aponta-se que os assassinos faziam parte de um grupo de jogadores de videogames de guerra nas redes sociais e gastavam boa parte do seu tempo jogando em lan houses.

Já é o quinto caso desse tipo de crime no país e o terceiro no estado de São Paulo. Os dois casos anteriores foram o ataque do cinema do Shopping Morumbi e o ataque na Catedral de Campinas. Aparentemente, tudo indica que os assassinos querem apenas matar o maior número de pessoas possível e obter a maior repercussão pelo “feito”. Os próprios pais e os vizinhos não supunham que os jovens seriam capazes dessa monstruosidade. Um dos jovens era considerado muito calado, mas até aí a timidez é uma característica comum de jovens em geral.

Na teoria convencional, crimes comuns podem ser prevenidos quando se aumenta a probabilidade de captura e punição do criminoso, que passará a ter um desincentivo para praticá-los. Mas, quando os assassinos são também suicidas, os crimes tornam-se de mais difícil prevenção. O simples acesso às armas é o que basta para possibilitar a sua execução. Psiquiatras apontam que a estratégia preventiva mais adequada é a de adoção de politicas públicas de combate ao suicídio.

A propagação de informações sobre o crime, seja de maneira séria ou sensacionalista funciona como estímulo para outros ataques. Foi noticiado que os assassinos se inspiraram no massacre da escola de Columbine nos Estados Unidos, amplamente noticiado na internet e nas redes sociais. O massacre virou filme, o que pode ter estimulado ainda mais os jovens a repetirem a sua história. Acaba de ocorrer mais um massacre na Nova Zelândia, por um homem de menos de 30 anos, que assassinou 49 pessoas em duas mesquitas. O assassino gravou um vídeo de 17 minutos durante o ataque, sendo um dos registros mais perturbadores de violência praticada ao vivo para ampla difusão nas redes sociais.

Nesse contexto, as redes sociais trabalham a favor dos autores de massacres em massa, estimulando novos alvos. Infelizmente, é preciso reconhecer que nem os países mais avançados conseguiram implementar políticas públicas eficazes que inibam tais ataques. A internet, a internet profunda (deep web) e as redes sociais são ainda pouco reguladas, permitindo ampla liberdade de criminosos para planejamento e divulgação de crimes. A evolução tecnológica que facilitou a comunicação e a interação social é a mesma que dá acesso e estimula a operação dos grupos de ódio e terroristas.

Essa nova realidade desafia o futuro do arcabouço regulatório em todos os países para o combate efetivo aos crimes de ódio.