A força feminina para 2020

(foto: Amanda Vieira/JP)

Os tempos em que uma mulher ter destaque na política era um fato raro definitivamente ficaram para trás em Piracicaba. Segundo sondagem feita pelo Jornal de Piracicaba, pela primeira vez em seus 252 anos de história existe a real possibilidade de uma mulher chegar à Prefeitura nas eleições de 2020. De acordo com essa sondagem, cinco nomes foram lembrados pelos participantes como possíveis candidatas para o pleito do ano que vem: a vereadora Adriana Cristina Sgrigneiro Nunes (CID), conhecida como Coronel Adriana; a deputada federal pelo Partido Novo, Érica Gorga; a deputada estadual pelo PT Maria Izabel Azevedo Noronha, conhecida como Professora Bebel; a vereadora Nancy Thame (PSDB); e a secretária municipal de Turismo e Ação Cultural, Rosângela Camolese.
A primeira vez em que uma mulher foi candidata a prefeitura anteriormente foi em 1996, quando Esther Sylvestre Rocha, então vereadora pelo PT, decidiu tentar ocupar o Paço, mas perdeu as eleições para o candidato Antonio Carlos de Mendes Thame, do PSDB. Apesar do pioneirismo, Esther já era bem conhecida dos piracicabanos por sua atuação frente à Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), tendo liderado greves de professores ainda durante o período da ditadura militar (1964-1985) e também por sua atuação como vereadora, cargo para o qual havia sido eleita em 1992.
Aos 81 anos, Esther afastou-se da atuação política há quatro anos, mas faz questão de manter-se atualizada em relação ao assunto. Professora de História, em 2001 ela também foi a primeira mulher a assumir o posto de Chefia de Gabinete na cidade, no segundo governo do prefeito José Machado (2001/2004), do PT. Há 21 anos a presença feminina na política ainda era tímida, o que não impediu Esther de tentar chegar ao Paço. “Eu já era conhecida na cidade pela minha atividade política na Apeoesp, quando liderei as greves ainda na época da ditadura, correndo riscos e sendo vigiada. Talvez isso até tenha ajudado minha eleição para a Câmara. Por isso, não tive nenhum problema ao tentar o cargo de prefeita”, afirma.
Esther é categórica ao contar que nunca se sentiu preconceito pelo fato de ser mulher na briga pelo mais alto cargo político da cidade. “Eu já tinha uma história política, sempre fui muito respeitada por todos, mesmo a oposição. Talvez isso tenha ocorrido por tudo que eu já havia vivenciado e feito pela cidade, não somente como vereadora, mas como representante dos professores. Aliás, eu tive muito apoio masculino, inclusive dentro de casa.”
A ex-vereadora avalia o crescimento do número de mulheres em todas as esferas políticas como bastante positivo. “Hoje elas estão buscando seu espaço, seja em partidos de esquerda ou direita e isso é muito bom para a sociedade”.

Perfis

As mulheres citadas na sondagem foram convidadas pelo Jornal de Piracicaba a responderem três perguntas sobre a possibilidade de suas candidaturas. Nenhuma delas efetivamente confirmou sua candidatura ao cargo. Nancy Thame e Rosângela Camolese são do mesmo partido do atual prefeito Barjas Negri e também foram convidadas a participar dessa matéria. A candidatura de Barjas a uma possível reeleição em 2020 depende ainda de processos judiciais que estão em andamento. Conheça agora os perfis de cada uma:

Coronel Adriana

O que você acha que seu nome ter surgido como uma provável candidata à Prefeitura da cidade?

Fico lisonjeada, pois creio que isso se deve à credibilidade do meu trabalho como policial militar e agora como vereadora e também às ações que desenvolvi e que proporcionaram a expressiva votação do presidente Jair Bolsonaro (PSL) em nossa cidade. Isso permitiu que seus eleitores também me conhecessem e vissem meu alinhamento com os ideais da direita, que pregam o conservadorismo nos costumes e o liberalismo na economia, valores pelos quais sempre lutei, pois acredito que todos os cidadãos têm capacidade de se autodeterminar e buscar melhores caminhos sem um Estado que fique, explicitamente e implicitamente, dizendo que ele é dependente e incapaz como ocorre hoje, bem como tutelando comportamentos incompatíveis com a vida em sociedade.

Se fosse eleita, qual sua prioridade para o crescimento do município?

Eu sempre estudei muito. Minhas ações tanto na PM quanto agora na Câmara sempre se basearam na lei e em planos estrategicamente elaborados, de forma a reduzir ao mínimo as possibilidades de erro. Se concorrer ao cargo estudarei as minúcias de cada secretaria para identificar as principais necessidades do município. Como vereadora recebo muitas demandas das áreas de saúde, saneamento e segurança e, por conta da minha linha de ação, que não é a de simplesmente cobrar e sim propor soluções, tenho identificado problemas de gestão que, se solucionados, reduziriam o custeio da máquina pública. Creio ser a melhoria da gestão pública a prioridade, por meio da utilização de instrumentos públicos e legais existentes, visando dar a todos uma cidade boa para se viver.

Hoje, o que é o pior e o melhor da cidade?

O melhor de Piracicaba é a sua população acolhedora, engajada, que abraça as causas da cidade e dela se orgulha. O pior é o crescimento desordenado pelo qual a cidade passa, o que faz com que os investimentos nunca sejam suficientes e redundem, por exemplo, em transporte público caro em razão das distâncias aumentadas desnecessariamente; bairros criados sem estrutura de escoamento de águas pluviais e que passam por problemas de alagamento quando as áreas ao seu redor são urbanizadas e impermeabilizadas; criação de núcleos populacionais ilegais em áreas urbanas e rurais, o que ocasiona problemas ambientais como criação de pequenos lixões às margens das vicinais, assoreamento e degradação de nascentes, além da deposição de esgotos em APP (área de preservação permanente).

Érica Gorga

foto: Amanda Vieira/JP

O que você acha de seu nome ter surgido como uma provável candidata à Prefeitura da cidade?

Embora ainda esteja analisando as possibilidades, sinto-me muito honrada pelo fato do meu nome estar sendo cogitado e lembrado por muitos eleitores e apoiadores. Percebo que existe um desejo muito grande das pessoas por renovação política efetiva em Piracicaba, pois é chegado o momento de alternância na administração. Os piracicabanos não querem mais do mesmo, e muitos estão me incentivando a realizar novas propostas para a cidade e o seu futuro. Sinto-me feliz pelo reconhecimento do trabalho que realizamos nas eleições passadas.

Se fosse eleita, qual sua prioridade para o crescimento do município?

Bom, eu ainda não resolvi me candidatar, pois tenho consciência do grande desafio que é administrar uma cidade como Piracicaba, uma das joias da coroa do estado de São Paulo. Como professora universitária e advogada, minhas prioridades seriam a educação (nível municipal) e o trabalho de adequação das leis municipais para atração de investimentos e geração de empregos em Piracicaba. Nossa cidade precisa se consolidar como um dos maiores polos de tecnologia do agronegócio brasileiro. Fiz parte do meu doutoramento trabalhando no Silicon Valley americano, e sei que para desenvolvimento de um centro tecnológico é preciso leis municipais apropriadas.

Hoje o que é o pior e o melhor da cidade?

Há dois problemas graves na cidade hoje: a saúde pública e o abastecimento de água, como demonstrou toda a crise no Semae. Houve muitas falhas ao se pensar a gestão de recursos hídricos no município e nos repasses das verbas municipais para os hospitais. As universidades, certamente, são o melhor da cidade, pois gera-se muito conhecimento aqui, que, infelizmente, tem sido subaproveitado. Não existe política pública adequada para multiplicar o capital humano da nossa região. É preciso maior integração com as universidades, além de aprimoramentos na política educacional de formação de crianças e jovens piracicabanos.

Professora Bebel

foto: Amanda Vieira/JP

O que você acha do seu nome ter surgido como uma provável candidata à Prefeitura da cidade?

Fico bastante lisonjeada. Acredito que se deva ao fato de ter sido eleita deputada estadual ano passado, assim como por ser presidenta da Apeoesp, e principalmente pelo trabalho que temos realizado na Assembleia Legislativa, na defesa da educação pública de qualidade, pela melhoria da merenda servida nas escolas, em defesa das mulheres e da população mais sofrida, e também na busca por recursos para a saúde, através de emendas parlamentares que possam melhorar a estrutura dos nossos hospitais públicos. Em Piracicaba também lideramos o movimento contra os preços abusivos das tarifas de água e esgoto, o que, sem dúvida, acaba repercutindo na sociedade. Também já deixei claro que sou contrária à privatização das rodovias, como colocação de novas praças de pedágios.

Se fosse eleita, qual sua prioridade para o crescimento do município?

Caso venha a ser candidata, o que neste momento não está colocado, apresentarei propostas voltadas à melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento sustentável, com incentivos aos micro, pequenos e médios empresários, visando a geração de emprego, além de um programa voltado à área social, com incentivos a entidades para que possam abrigar e dar perspectivas às pessoas que estão vivendo nas ruas. A educação de qualidade e para todos será uma das prioridades, assim como devolver ao povo o Semae. O transporte público precisa ser humanizado, com redução no valor das tarifas. A saúde básica precisa de mais investimento, acabando com as longas filas de espera. Precisamos investir mais no turismo, uma vez que Piracicaba tem suas belezas naturais.

Hoje, o que é o pior e o melhor da cidade?

O melhor de Piracicaba, com certeza, é a nossa população trabalhadora, digna, sempre gentil, acolhedora, assim como as nossas universidades, que atraem jovens de todo país, além do nosso belo Rio Piracicaba, que ainda continua sendo castigado mas tem uma beleza invejável, e que precisa ser recuperado, com o tratamento do esgoto pelas cidades à montante, e voltado ao turismo. O pior de Piracicaba, infelizmente, é a questão da saúde, que continua bastante precária, com a população sofrendo muito para conseguir atendimento, seja na rede básica de saúde, seja quando precisa de internações. O grande número de pessoas vivendo nas ruas da cidade é uma questão que também precisa ser resolvida, com programas sociais de acolhimento e que dê perspectivas futuras a elas e aos jovens.

Nancy Thame

O que acha do seu nome ter surgido como provável candidata à Prefeitura da cidade?

Recebo com alegria a lembrança do meu nome, pois significa o reconhecimento do trabalho que estamos desenvolvendo, sempre com muito respeito pela cidade de Piracicaba e sua população, embora nossa meta, no momento, seja cumprir esse mandato da melhor forma, deixando algum legado positivo para a sociedade piracicabana e para a democratização das relações de poder.

Se fosse eleita, qual sua prioridade para o crescimento da cidade?

Penso que qualquer pessoa que venha a ocupar o cargo de chefe do Executivo deve levar em consideração as necessidades apontadas pela própria sociedade, que representam a melhoria da qualidade de vida, com relações sociais democráticas, educação, cultura e lazer, saúde, trabalho e renda, mobilidade urbana e acessibilidade, segurança pública e prevenção à violência, preservação do meio ambiente, estímulo à agricultura familiar e a agroecologia, definição das diretrizes para o desenvolvimento urbano e rural, dentre outros aspectos.

Hoje, o que é pior e melhor na cidade?

Considero que uma das grandes dificuldades para a administração pública é o planejamento das ações e o equilíbrio orçamentário, a definição das prioridades e tomada de decisões que sejam assertivas e que beneficiem a toda a coletividade. Piracicaba é um município com grande potencial econômico, cultural e turístico, além de ser uma referência nacional e internacional para a produção de conhecimento agronômico. Sobretudo, somos uma população que preserva e valoriza a história e as tradições culturais e que ama a cidade e essa é, sem dúvida, uma das maiores forças para transformar e superar os desafios.

Rosângela Camolese

O que você acha de seu nome ter surgido como uma provável candidata à Prefeitura da cidade?

Fico lisonjeada, é claro, mas meu candidato é o prefeito Barjas Negri, um grande gestor público, um estadista. Talvez meu nome tenha surgido como resultado do trabalho que lidero, junto com a minha equipe, à frente da SemacTur. Já fui aprovada nas urnas em 2008, quando me elegi vereadora com 2.853 votos, mas não exerci o mandato porque aceitei o desafio proposto pelo prefeito Barjas, e compreendi que naquela época minha participação no governo seria mais necessária do que na Câmara de Vereadores.

Se fosse eleita, qual sua prioridade para o crescimento do município?

Piracicaba se tornou um grande município graças ao trabalho dos sucessivos governos, cada qual deu a sua contribuição, considerando todas as limitações de suas épocas. Hoje Piracicaba figura entre os melhores municípios paulistas e até mesmo do Brasil, com índices sociais e de desenvolvimento que saltam aos olhos. Mas se um dia eu pudesse escolher como entraria para a história, eu diria que meu sonho é ampliar o acesso das pessoas às atividades culturais, criando novos espaços em todos os bairros da cidade, como também, buscar novas alternativas para geração de emprego e renda, ampliar a rede pública de ensino em período integral com ampla grade de atividades artísticas, culturais e ambientais.

Hoje, o que é o pior e o melhor da cidade?

Sou uma pessoa otimista por natureza, mas reconheço que Piracicaba também tem suas fragilidades, como todo município brasileiro. A qualidade do asfalto é um desses pontos negativos da cidade, assim como o trânsito, que nos horários de pico chega a ser caótico. Talvez se tivéssemos um sistema de transporte público mais moderno e eficaz a cidade não precisasse de tantos carros circulando pelas ruas, mas isso faz parte da cultura do brasileiro, que é apaixonado por carro. O melhor da cidade é a própria cidade. Piracicaba é riquíssima em cultura, tradição, o seu rio, o amor sofrido pelo XV, a Rua do Porto, a moda de viola… A gente vive em uma cidade que se ampara nas suas raízes e se projeta para o futuro, tornando-se o Vale do Agronegócio e do conhecimento científico.

Andrea Mesquita
Especial para o JP