A Igreja tem de acolher com bondade

Monsenhor Jorge como é conhecido pela comunidade, tem 91 anos e disse que não pensa em parar de trabalhar. (Foto: Amanda Vieira / JP)

O monsenhor Jorge Salim Miguel nasceu em Capivari, no dia 7 de maio de 1928. Filho do casal de libaneses Simão Miguel e Missora Abrahão que, além do religioso, teve outros oito filhos. Antes de falar em vocação religiosa, monsenhor Jorge prefere dizer que foi um escolhido por Deus para a missão de padre. Ele conta que foi o quarto dos irmãos a estudar em seminário católico, porém, o único a se formar padre, função que desempenha há 64 anos.

Aos 91 anos, ele fala do orgulho de ter presenciado o nascimento da Diocese de Piracicaba, em 1944, e da satisfação de ter trabalhado e ajudado todos os bispos que a dirigiram nestes 75 anos comemorados em 2019.

Apesar de pedir uma ‘matéria simples, sem muita coisa’, monsenhor Jorge aceitou ser o entrevistado desta semana do Persona. A entrevista com o religioso se justifica pelo jubileu de brilhante e por ele ser o padre mais idoso e experiente da Diocese piracicabana. Outro fato curioso e incomum é a vida religiosa do monsenhor Jorge que, desde a sua ordenação permaneceu na comunidade da Vila Rezende. Ele chegou ao bairro quando nomeado ministro de disciplina e professor no Seminário Diocesano de Piracicaba. A partir daí foi nomeado coadjutor e vigário auxiliar da Vila Rezende e, em 1960 foi nomeado pároco da Imaculada Conceição.

Nesta entrevista ele fala do aniversário da Diocese, dos desafios da Igreja Católica, da satisfação de servir em sua missão, e muito mais.

O senhor está há quanto tempo em Piracicaba?

Estou em Piracicaba desde 1956. Fui ordenado padre aqui em 1955 pelo primeiro bispo de Piracicaba D. Ernesto de Paula.

Após sua ordenação, o senhor ficou sempre em Piracicaba?

Depois de ordenado eu fiquei aqui na Vila (Rezende) onde estava situado o Seminário Diocesano, aqui nesse mesmo prédio (Paróquia Imaculada Conceição). Então eu fui nomeado, no começo do meu sacerdócio, professor de disciplina, depois o vigário da paróquia ficou doente e eu fiquei coadjutor dele, depois vigário auxiliar, na doença dele. Depois ele renunciou à paróquia, por doença, e eu assumi em 6 janeiro de 1960. Portanto, como pároco da Imaculada, eu estou há 64 anos. Eu fui aposentado como vigário em 1995, fiquei pároco hemérito e vigário paroquial.

Qual sua formação religiosa? Estudei o curso primário em Capivari e depois fui para Campinas, onde por seis anos fiz ginasial no Seminário Menor de Campinas, de lá fui para São Paulo, onde fiquei sete anos estudando filosofia e teologia. Depois disso fui ordenado sacerdote 13 anos depois.

A Diocese de Piracicaba completou 75 anos, como o senhor avalia os desafios, projetos da Diocese?

Quando eu fui para o seminário, eu pertencia à Diocese de Campinas. No meu segundo ano de seminário, o papa criou a Diocese de Piracicaba em 1944, então eu passei da Diocese de Campinas para a de Piracicaba e passei a pertencer aqui. Então, eu vi nascer a Diocese de Piracicaba porque o papa criou em fevereiro de 1944. Em junho daquele ano, o representante do papa, o Nuncio apostólico veio anunciar o funcionamento da Diocese, e em setembro, foi nomeado o primeiro bispo de Piracicaba, Dom Ernesto de Paula.

Então o senhor acompanhou todos os bispos que passarm pela Diocese?

Sim, eu acompanhei todos os bispos. Até agora, os cinco bispos. Eu fui vigário geral da Diocese por 33 anos. Quando Dom Moacyr Vitti foi transfertido para Curitiba, eu fui escolhido para ser o administrador diocesano. Fiquei um ano e um mês à frente da Diocese, como se fosse bispo. Depois desse tempo foi nomeado o atual bispo que é Dom Fernando Mason.

Como tem sido as comemorações do Jubileu?

Uma festa muito bonita, espetacular. Comemoração digna de Piracicaba. O representante do papa (Nuncio apostólico Giovani D’Aniello) é um diplomata, porque ele representa o Vaticano junto à Nação e mora justamente em Brasília. Ele chegou aqui com humildade e simplicidade e encantou a todos. Falou a nós padres, conversou, tirou fotos, no almoço, sentou em várias mesas para conversar com os padres. É de uma simplicidade sem precedentes. Nunca vi um Nuncio tão popular.

O papa Francisco também tem essa característica, a simplicidade, correto? Sim, ele é muito simples.

O senhor concorda com a postura do papa Francisco?

Concordo com o papa, porque seja rigoroso ou não, ele é o papa e representa Deus aqui na terra, portando eu obedeço do jeito que for. Estou com o papa em qualquer circunstância.

Em 2014, 80% dos brasileiros eram católicos, atualmente são 61%. A que o senhor atribui essa diminuição de católicos no Brasil?

Uma vez eu estava conversando com um bispo que veio pregar retiro para nós – Dom Luciano Mendes de Almeida -, ele foi presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e me perguntou: monsenhor, o que o senhor acha dessa debandada de tantos católicos para outras religiões? Eu fiquei assustado, pois um arcebispo, presidente da CNBB perguntar para mim, um simples padre? Fiquei assim constrangido, mas falei humildemente que a coisa principal da igreja para conservar os católicos é a acolhida. A gente precisa acolher a todos com bondade, com humildade, com satisfação, com alegria e nunca com rigorismo,, especialmente, a parte de batizado, casamento. O papa quer facilitar quanto mais, então acho que muita gente se afasta da igreja por causa do rigorismo de muitos padres.

Seria então muita burocracia na Igreja Católica? É.

E o senhor acha que o papa Francisco vai mudar essa situação e fazer a igreja mais acolhedora? Ele tem essa finalidade de atrair, fazer com que todos continuem na Igreja Católica e essa simplicidade e essa vontade é contestada, não pela maioria, uma minoria que contesta o papa, que que ele não saia da linha, então ele quer que todos se salvem. Consta que antes de ser papa, como arcebispo em Buenos Aires, ele era simples, andava de bonde, cozinhava e se dava com todos. Todo mundo fica encantado com um papa dessa maneira.

E o que a Igreja Católica tem feito para manter os católicos?

Eu acho que um dos pontos é acolher bem a todos, a gente pode dar uma negativa com um sorriso no rosto, acolher bem a pessoa mesmo que a gente não possa atender naquele momento. Temos que fazer com que quem nos procura se sinta acolhido e entenda que, em alguns casos, não está nas nossas mãos resolver aquele seu seu problema.

Os jovens têm demonstrado vocação para a carreira religiosa, a Igreja Católica tem se renovado? Os jovens de hoje estão mais conscientizados pela a igreja estar olhando melhor para eles, o que não se fazia antes. Antes se evangelizava de maneira geral, hoje, nós temos a evangelização de maneira particular. Os jovens têm retiro, têm aulas, lições de religião, então acho que hoje se dá mais atenção aos jovens do que antes.

Qual o maior desafio da Igreja Católica atualmente?

Olha, eu acho que embora sejam contestadores, eles são membros da igreja de Deus e sempre estiveram de boa fé que estão certos, como os protestantes. O protestante que era católico e passou para a igreja protestante, ele está de boa fé que a igreja protestante é a verdadeira, então ele pertence não ao corpo da igreja, pertence à alma da igreja.

O senhor é aposentado, e continua trabalhando, o senhor pensa em parar de trabalhar ou auxiliar a igreja?

Não, nunca pensei em parar, nunca. Eu acho que quando pensar, estarei morto (sorri).

O senhor é o único padre ou religioso dos irmãos. Por que eles não ficaram?

Porque acharam que não tinha vocação para o sacerdócio. No seminário a gente entra e lá estudamos a vocação. É isso que eu quero, é isso que eu devo ser? É isso que Deus quer de mim? Porque a vocação vem de Deus. Será que é isso que Deus quer? Às vezes eu penso o porquê de eu ser padre, Deus poderia ter escolhido uma pessoa melhor do que eu, mas fiquei padre porque Deus quis, se Ele não quisesse, eu não seria. Tenho meus outros três irmãos que entraram no seminário e não ficaram. Então eu vejo em tudo a vontade de Deus, sem a vontade de Dele, nem uma folha cai da árvore.

O senhor é um dos padres mais idosos da Diocese de Piracicaba? Tenho 91 anos, hoje sou o mais idoso e sou o único que viu nascer a Diocese de Piracicaba, nascer e funcionar.

Existem algumas denúncias contra as dioceses de Piracicaba e de Limeira. Como o senhor avalia essas questões? Eu não estou a par disso eu não sei o que se passa, eu não comento porque eu não sei onde está a verdade. Agora, a gente precisa rezar para que nada haja de mal em todas essas denúncias que elas sejam esclarecidas e sejam revogadas.

O senhor que acompanha a Diocese por todo esse tempo, se pudesse dar um presente pelos 75 anos, o que o senhor daria?

Se eu fosse o papa eu daria à Diocese um padre como o Núncio apostólico que esteve aqui: simples, humilde e acolhedor. Ele atrai o povo para si. Não que Dom Fernando (Mason) não seja acolhedor, mas é que realmente o Núncio trouxe um grande exemplo para nós, de humildade de simplicidade. Ele é um diplomata e se fez pequeno.

 

Beto Silva

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