A importância da qualidade da literatura infanto-juvenil

Faleceu na noite de 17 de abril passado um dos escritores mais importantes da literatura infanto-juvenil nacional dos últimos 50 anos. João Carlos Marinho, que tinha 83 anos, foi autor de “O Gênio do Crime”, um marco da literatura infanto-juvenil, tendo alcançado números verdadeiramente expressivos para o mercado editorial nacional. Foram 60 edições e 14 reimpressões, com vendas de cerca de 1,2 milhão de exemplares, segundo cálculos do escritor.

Para Marinho a literatura infanto-juvenil diferencia-se da literatura infantil por introduzir experiências da vida real ao público pré-adolescente e adolescente a partir de cerca de 12 anos de idade. Marinho era formado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e tinha larga experiência como advogado. Com base na sua sólida formação e vivência no mundo jurídico, criou o universo do detetive Bolacha e sua turma, a conhecida “Turma do Gordo”. O livro de 1969 conta a aventura de garotos que ajudaram a desvendar o mistério do criminoso que falsificava figurinhas de futebol, ameaçando destruir os negócios do Seu Tomé, o dono da verdadeira fábrica de figurinhas que os garotos colecionavam.



Assim, Marinho levou jovens de muitas gerações a mergulhar no universo da narrativa e solução de crimes e, com isso, na análise de problemática relevante da atualidade, como as questões absolutamente atuais envolvendo a falsificação de ideias e produtos, bem como seu impacto nocivo a empreendedores, criadores e produtores originais. Instigou adolescentes a aplicarem raciocínio lógico-dedutivo no seu próprio universo com estórias envolvendo o seu hobby predileto (coleção de figurinhas), com muita criatividade e imaginação, captando a dinâmica das amizades e da influência do grupinho de convivência de garotos e garotas. Escreveu diversas obras com a mesma turma de personagens, como “O Caneco de Prata” (1971), “Berenice Detetive” (1987) e “O Fantasma da Alameda Santos” (2015). Foi vencedor do Prêmio Jabuti com o livro “Sangue Fresco” (1982).

Como se sabe, o hábito da leitura é um dos pilares da boa educação e do desenvolvimento intelectual saudável de crianças e jovens. A perda de um autor nacional genial da envergadura de João Carlos Marinho requer a reflexão de educadores e professores sobre a leitura que hoje é introduzida e fomentada entre as crianças e adolescentes brasileiros. Ao mesmo tempo em que as opções de leitura aumentaram com maior variedade e acesso a obras, inclusive as redigidas por autores internacionais e traduzidas – nem sempre adequadamente – de outros idiomas, é sabido que muitas crianças e adolescentes têm menos acesso e estímulo à leitura de obras apropriadas e com linguagem e conteúdo adequados à sua faixa etária.

O mundo virtual e das redes sociais massificou o acesso a conteúdos de qualidade questionável. Muitos dos livros populares entre os jovens de hoje não passam de manuaizinhos compactados que compilam informações em português de baixa qualidade, conteúdo “divertido” mas pouco analítico, deixando de instigar e explorar as competências linguísticas e intelectuais que devem ser desenvolvidas pelos jovens. A leitura não deve se limitar a ser fácil, fútil e de pouca complexidade. Deve fomentar a reflexão, introduzir temáticas relevantes, e desafiar os jovens a aprimorarem suas habilidades.

Boa Páscoa a todos!