A lei de Gérson

Na década de 1970, uma frase se tornou célebre por causa de uma propaganda de cigarro que passou a traduzir o caráter do brasileiro. “O importante é levar vantagem em tudo, certo?”, frase atribuída ao meio-campista Gérson, na propaganda do cigarro Vila Rica. A partir dai, essa frase foi usada à exaustão para definir o jeitinho criativo do brasileiro, mas no sentido depreciativo. E também para simbolizar as maracutaias orquestradas por políticos corruptos.
 
E esse famoso jeitinho brasileiro também está em evidência em Piracicaba nos últimos tempos. É que pessoas contempladas com apartamentos do programa federal Minha Casa, Minha Vida, estariam alugando os imóveis de forma descarada até mesmo em sites de locação e em jornais. E os valores cobrados dos “inquilinos” são o dobro ou o triplo do preço pago de prestação pela casa.
 
Além de ser ilegal, o aluguel e até mesmo a venda do imóvel por contrato de gaveta é imoral, em todos os aspectos. Além de levar vantagens sobre imóveis financiados com dinheiro público, as pessoas que assinaram contratos ainda ganham uma vantagem indevida em cima.
 
A locação descarada desses imóveis está sendo apurada pela Emdhap (Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Piracicaba), que, até agora, apurou que seis dos 18 imóveis denunciados foram locados. Mas as pessoas na fila de espera dizem que são centenas de pessoas se aproveitando da deficiência da fiscalização para burlar a lei. Agora o procedimento seguiu para a Caixa, que é quem determina a devolução do imóvel locado de forma irregular e a cessão para os primeiros colocados na fila de espera.
 
E o assunto deve esquentar semana que vem, em audiência pública, na terça-feira, na prefeitura, porque as pessoas que estão na fila de espera por casas – alguns deles há décadas – vão colocar mais lenha na fogueira e denunciar mais casos de mutuários que alugaram esses imóveis, que têm, na verdade, uma função social. 
 
De qualquer forma, tais atitudes contribuem para desmoralizar o programa federal. Os contemplados, na verdade, contam com a lentidão da fiscalização para levar vantagens. Agora fica a pergunta no ar: se os mutuários locam ou vendem as casas ou se têm moradia própria e se inscreveram para levar vantagem ou utilizar os recursos obtidos ilegalmente para habitar em moradias melhores?
 
Enquanto isso, famílias como da dona Eliana Cezário e da desempregada Daiane Cristina do Nascimento Silva contam os dias para realizar o sonho – que parece tão distante – de um dia ter um lar para chamar de seu. (Claudete Campos)