A lição deixada por George Bush

Érica Gorga

A semana foi marcada pelo velório e enterro de George Bush, ex-presidente dos Estados Unidos que morreu aos 94 anos, deixando uma grande lição sobre os valores que devem prevalecer na condução política de uma nação.

Mesmo tendo sido duramente criticado pelo presidente Donald Trump em sua campanha política, George Bush, antes de falecer, deixou a orientação expressa de que Trump deveria ser convidado para o seu velório salientando que “a união do país é mais importante do que as brigas políticas.” Seu filho, o ex-presidente George W. Bush, cumpriu a vontade do pai e cumprimentou respeitosamente Trump na Catedral de Washington, onde o velório aconteceu.

Os Bush mostraram ao mundo que querelas pessoais não devem macular a conduta de homens de Estado. Se, por razões pessoais, tivessem deixado de convidar o presidente Trump para a cerimônia fúnebre na qual compareceram outros três ex-presidentes dos Estados Unidos – além de políticos importantes dos partidos Republicano e Democrata – corroborariam para alimentar o mal-estar e as revanches pessoais que certamente dificultam a composição política em torno de decisões relevantes para o país. Colocando de lado o ego e o orgulho pessoais feridos pelos ataques de Donald Trump, demonstraram que atitudes de civilidade, cortesia e respeito devem prevalecer nas interações sociais daqueles que agem em nome e em prol do Estado.

É uma importante lição particularmente para o Brasil de hoje. A eleição mais polarizada da história foi caracterizada não só por agressões pessoais entre protagonistas políticos que disputavam os cargos mais importantes, mas também entre eleitores que adotaram como prática banal e corriqueira o uso de xingamentos e palavras de baixíssimo calão nas redes sociais.

É uma contradição contarmos com acesso cada vez maior aos meios de comunicação sem incremento correspondente do diálogo, do entendimento recíproco e da construção de consensos. Os excessos nos meios de comunicação frequentemente exacerbam a divergência e o dissenso para a tomada de decisões importantes para o futuro das democracias ocidentais.

No Brasil, os egos e as vaidades pessoais de agentes de Estado movidos por seus próprios interesses têm ditado os rumos de decisões importantes, em detrimento dos interesses de longo prazo do país como um todo. As brigas e ambições pessoais se sobrepõem ao interesse público. Infelizmente, falta patriotismo à maioria dos membros dos três poderes da nação.

O evento fúnebre da família Bush relembra a todos sobre a serenidade, a cautela e a diplomacia necessárias, especialmente, no trato daqueles que conduzem o poder e que têm por dever zelar pela manutenção dos canais de comunicação que possibilitam a construção dos debates profícuos para o desenvolvimento da nossa sociedade e de um país melhor para as próximas gerações.

Érica Gorga é Doutora em Direito Comercial pela USP e advogada. Email: ericagorga@uol.com.br