A mágoa

“A mágoa altera as estações e as horas de repouso, / Fazendo da noite dia e do dia noite.” (Sheakespeare, Ricardo III, Ato I)

Como o imperador romano Tito, ele também, todas as noites, mesmo tomado pelo cansaço, costumava fazer uma análise, um balanço, de como tinha sido seu dia.
Mudou este hábito. Confidenciou a seu amigo, que não sabia por quê. Atualmente costuma relembrar seu passado como um todo e compará-lo ao presente.

Consegue lembrar-se com muita nitidez de fatos que ocorreram a partir de seus cinco anos e teme o momento em que começará a esquecer-se dos acontecimentos mais próximos, prenúncio da velhice.

Em seus setenta anos, recorda-se de sua infância e juventude com grande saudade. Foi o período em que aproveitou, até a exaustão, dos folguedos. Foi também nele que construiu e consolidou seu caráter. Teve a felicidade de ser uma pessoa que se deixou moldar pelos pais e professores. Sempre otimista, sonhou muito em conseguir ser um reformador. Suas aspirações e ideais eram repletos de utopias. Os arroubos da juventude, no entanto, não permitiam que ele vislumbrasse a impossibilidade de consegui-las.

Lutou sempre para ser correto em suas atitudes e contestar, sem medo, aquilo que acreditava errado. Brigava por seus princípios e ideias. Jamais, entretanto, teve ódio a quem dele discordava.
Em seus desabafos confessa sentir-se um derrotado. Não consegue, porém, descobrir no que errou.

Eficiente profissional, nunca foi devidamente valorizado por seus colegas de serviço. Embora não cite nomes, conta que se cansou de ver, medíocres serem elogiados e tidos como sumidades.
Afirma que invejava as rodas de amigos onde notava calorosos congraçamentos. Não se considera tímido, arredio ou presunçoso, mesmo assim, poucas vezes conseguiu externar arrebatamentos.
Seu sonho era o de ter uma família unida, como aquelas que se reúnem todos os anos e chegando às centenas de participantes. A dele, afirma, nem irmãos visitam-no. Filho tem apenas um. Investiu em sua educação sem medir custos. Não conseguiu, no entanto, que ele sequer terminasse o curso superior. E, hoje, o vê revoltado contra ele e a culpá-lo por isso.

Com a esposa viveu bem. Sem dúvida ela o amava muito. Arrepende-se por não ter dedicado a ela maior tempo e maiores atenções. Na ânsia de amealhar para ambos um futuro abonado, dedicou-se muito ao trabalho, mas o futuro não chegou para ela.

Sozinho, passa seus dias a ler e jogar cartas com alguns poucos colegas que não ousa chamar de amigos.

Aos que o aconselham a casar-se novamente responde que não vale a pena. Com certeza irá ouvir: “preferes o futebol a mim, o jornal a mim, o baralho a mim”, sem ter o direito de dizer que sim e, se dizer não, não ser acreditado.

E ele, que sempre foi um sonhador, um otimista, ao ser aconselhado a procurar uma nova companheira, costuma citar Moritz Rosenthal: “um homem é jovem se uma mulher pode fazê-lo feliz ou infeliz. Entra na meia idade quando uma mulher ainda pode fazê-lo feliz, mas não infeliz. Está velho e acabado quando uma mulher não o pode mais fazer feliz nem infeliz”.

Recordando alegrias e tristezas passadas, seus monótonos dias, sem nada mais a esperar, a não ser o inevitável fim; tem de se conformar ser um ente sem par.

( José Faganello)