A memória do sol

Olho para o meu corpo e vejo nele as marcas do sol que tomei no verão passado. Um tênue bronzeado resiste, mostrando que há uma memória solar nas células da minha pele, à espera, talvez, de mais um verão que logo estaremos vivendo, depois da Primavera que se aproxima.

Gosto de prestar atenção no tempo, nas estações que se sucedem, cíclicas e cheias de mistério. Sou uma pessoa solar. Preciso do sol, da luz luminosa das manhãs, das brisas que sopram ao entardecer e assim vou entretendo minha alma, que não cessa de sonhar.

Delícia é tomar um banho perfumado, passar creme nos cabelos e secá-los no vento de uma manhã onde o sol beija cada milímetro do meu quintal. Ali, rezo, clareio os cabelos com “Biondina” (quem conhece?), faço alguns alongamentos necessários à coluna, tomo minha meia hora de sol e garanto um pouco mais de vitamina D para meu corpo.

O corpo guarda a memória do sol. Da viagem à praia, de um mar que continua lá me chamando. Ele diz meu nome todos os dias e penso nele. Quero voltar ao abraço de cada onda, me entregar à sensualidade das palavras marinhas que meu coração ouve em êxtase.

Sinto no tempo os murmúrios de cada coisa criada. Tudo tem uma função na sua existência, tudo cumpre um destino e tem uma razão de ser. Nada é por acaso, dizem os mais espiritualistas. O acaso poderia ser diferente do que é? Há uma lei indiana muito bonita sobre isso. O que aconteceu, tinha de acontecer. Tudo é exatamente como tinha de ser. Pensando assim, não há o que lamentar. Mas seria diferente se tivéssemos agido assim ou assado numa determinada época da nossa vida? Então, essa lei da existência dirá que teria sido o que era para ser.

Ou seja, cada coisa está no seu devido lugar, porque existiria uma determinação cósmica para cada ato ou decisão de nossa parte. O sofrimento sempre existirá à nossa volta e não estou filosofando. A alegria também existe, graças a Deus. São os contrapontos da vida que nos fazem prosseguir. Há outro jeito? Se alguém encontrar uma fórmula melhor, que anuncie. Não vejo outra maneira de me conduzir na vida, a não ser me comportando na reta intenção da minha consciência, dando o melhor de mim em tudo, fazendo o bem sem olhar a quem.

Todas as vezes que transgredi esta conduta, senti na pele a dor da ferida exposta. Vejo pessoas que são verdadeiras fraturas ambulantes. Remam contra a maré, arrogantes, resistentes a obedecer a regras simples que são acatadas pela maioria. Tento entender a alma destas pessoas e o impacto do orgulho em suas vidas. Tão bom o convívio pacífico! Tão bela a amizade entre as pessoas, parentes, amigos!

A memória do sol é como a memória do amor. Se já amamos um dia, saberemos como é amar de novo, como é ter o coração disparando, as pernas tremendo, e aquela sensação de que a vida é curta demais para ser desperdiçada. Há um ditado que diz: “Nada fazer é fazer mal”. Então, ocupo-me sempre. Tarefas diárias cumpridas com carinho. Toco violão, canto, gravo as músicas e mando aos amigos. Preencho a vida com o sonho. Que o corpo sonhe ao sol!