A menina, a mulher e a violência

Gravidez não é doença, sabemos. Porém, qualquer mulher que já tenha ficado grávida pode confirmar que é um dos períodos mais revoltosos do nosso organismo e até da psiquê. Tudo muda, transmuta e assusta. Você vira mãe e isso amedronta demais, por que é uma responsabilidade imensa e para sempre. Espera-se que o homem apoie ou que pelo menos não atrapalhe. Afinal, gerar outra pessoa deveria ser o momento mais mágico de um casal, deveria… mas para uma mulher da Zona Rural de Piracicaba não é. Ela foi torturada, agredida e insultada pelo marido, um mecânico de 36 anos. Ele ainda tentou simular seu sequestro e a amarrou numa árvore. Grávida de oito semanas, a moça conseguiu fugir pulando no rio Piracicaba. Leia mais detalhes na matéria de Cristiani Azenha publicada na página A 4, onde também é possível conhecer outro episódio assustador da face humana. Uma menina de 14 anos teria sido abusada sexualmente por um amigo do pai, o vizinho.

São duas histórias tão trágicas que não parecem ser verdade, mas são a cara da violência contra a mulher escondida no seio das famílias e da sociedade. A menina teve medo de morrer e não contou para os pais, a mulher teve medo de morrer e pulou no rio.

Nós, mulheres, vivemos sob uma coluna de medo sobre nossas cabeças. Não são poucos que avisam: não viaje sozinha, não saia à noite sozinha, morar sozinha de jeito nenhum e, então, casamos, vivemos com amigos e parentes e somos covardemente violentadas física, emocional, sexual e/ou psicologicamente. É fato que o grande percentual de agressores está perto, às vezes, dentro de casa ou na família. Outra situação ultrajante é que com facilidade a vítima é colocada na posição de culpada.

Violência é violência. Não é confusão, não é brincadeira, não é intimidade e nem proteção. E sendo assim deve ser denunciada, apurada, culpabilizada e punida com as ferramentas que a legislação oferece. Mulheres não são propriedades, não são seres menores.

Os leitores sempre reclamam que os jornais adoram sangue, mas isso nada mais é que um olhar raso para a questão. Nós, jornalistas mulheres ou homens, temos asco de tudo isso. Escrevemos nossas matérias pensando em como ajudar a conscientizar a população, evitar casos semelhantes e indicar formas de buscar ajuda. Não somos uma casta, por isso não queremos para as filhas, irmãs, mães e esposas dos outros o que não queremos para nós mesmos. É por isso, que muitos dizem que jornalismo é mais que profissão, porque é preciso ter estômago e muita fé na humanidade para seguir em frente. Eu tenho!

São duas histórias tão trágicas que não parecem ser verdade, mas são a cara da violência contra a mulher escondida no seio das famílias e da sociedade.

( Alessandra Morgado)