A poesia inexplicável da Vida

Quem conseguirá, num primeiro instante, penetrar funda e profundamente a palavra de quem procura, sem jamais se cansar, novas e novas formas de revelar o instante e a vida?

Se pudesse, aqui, por sua generosidade para comigo, faria uma braçada de poemas para distribui-los em versos aos leitores, sem fingir na dor lida, a dor que deveras sinto. Foi com Alberto Caeiro, o mestre, que aprendi a ver com olhos, mais longe e melhor, além de minha altura.

Ao pensar no leitor, trato de vasculhar a memória para entender este instante em que estamos juntos como celebração. Oração e missa. Rezemos, pois. O mantra formado de tantas lembranças, a litania recitada, não cabem aqui. Juntas, no entanto, nossas almas.

Por vezes, parece impossível penetrar a magia da inspiração, a possibilidade de envolver-se na manifestação sobrenatural recebida da leitura de texto a que desencantamos. Em cada bom texto, a senha da vida.

Eu, do que li, tenho, de modo fragmentado, os poemas que guardo. Se os tenho na memória, o que ficou deles em mim? O que me ficou da inquestionável presença do poeta com quem, na leitura, divido da celebração inicial à comunhão final?

Dos poemas que a memória guardou, intatos muitos deles, já não posso falar verso por verso, dos que supunha meus, de dentro de mim, dando-me luz para entender e suportar a vida. Se a lembrança provoca um primeiro verso, de pronto, os demais se atropelam uns sobre os outros insistindo numa intertextualidade nem sempre factível.

Falta-me força na voz ou luz na extensão da alma para que a comunhão se manifeste em tom real e místico. Esta sensação me aniquila porque a mim me parece ter perdido a essência da revelação. Não detecto seu âmbito de energia, na leitura feita, nem na repetição de agora. Instala-se distância tal incapaz de produzir a recriação que me faça sentir a transubstanciação do poeta.

Quando tomo assento na bancada de leitura para ler algum texto sempre me encanto diante da grandeza do verbo. Hoje, procuro fazer isso com quem a escola não soube respeitar, roubando-lhes a chance de entender. Na divisão de saberes, poucos professores reconhecem no silêncio, na solidão do instante a possibilidade de dividir. Por vezes, horas e dias não retiram o véu do texto que manifesta o prazer da revelação poética. O poema se aninha, se esconde, demora a eclodir diante dos olhos e da vida para haver, entre leitor e texto, comunhão de verdade.  Momento de epifania, de manifestação reveladora.

Decido escrever sobre isso, graças às últimas experiências tidas. Alguns leitores, entre tantos, lendo meu último texto, me escreveram de modo tão inusitado que acabaram por revelar, a palavra plena em todo seu sentido.

Também demorei a encontrar no texto de outros, poderes de revelação. Ao penetrá-los pude captar energia e recriá-los a meu favor. Sei bem que não é o duplo exato do escrito pelo poeta. Mas se não é idêntico quanto a isto e aquilo, é idêntico quanto ao próprio ato da criação. Ao recriar o texto o leitor cria-se a si próprio. Mágico isto!