A presença feminina na história da arte

Ao visitarmos museus de arte no Brasil ou no exterior podemos perceber que as obras expostas, quase em sua totalidade, foram executadas por homens. A história da arte nos mostra que a figura feminina foi imensuravelmente retratada através de pinturas e esculturas, em diferentes períodos, fato que nos leva a compreender como a mulher era vista e interpretada pelos valores sociais de cada época.

Na idade média, os pintores e escultores normalmente se formavam e atuavam através das oficinas familiares ou Guildas (comunidades de artistas e artesãos). Era necessário conhecer o corpo humano e sua anatomia para desenvolver-se no ofício, sendo inaceitável que uma mulher tivesse acesso ao uso de modelos vivos que não fossem de sua família. Diante de tantas restrições, somente as filhas de pintores ou mulheres que pertenciam à nobreza conseguiam desenvolver seu potencial artístico e, ainda assim, apenas lhes era permitido explorarem temas familiares, introspectivos ou naturezas mortas.

No decorrer dos anos, no entanto, mulheres dotadas de extrema capacidade, determinação e excepcionais talentos conseguiram seu “lugar ao sol” neste universo da arte até então predominantemente masculino.

Artemisia Gentileschi (1593-1656) foi a primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes de Florença (Itália), no século 17. Em uma época que a mulher só poderia ser esposa, dona de casa ou freira, Artemisia ousou ser pintora. Aprendeu o ofício com seu pai, Orazio Gentileschi. Apesar dos temas tradicionais, suas composições eram extremamente naturais pois ela resistia submeter-se ao estilo idealizador praticado na época e foi assim que sua pintura passou a ganhar admiração e reconhecimento. Foi uma mulher à frente de seu tempo pois não hesitava em ser modelo de suas próprias telas, o que era considerado um escândalo, tinha consciência de seu valor e ainda negociava pessoalmente as encomendas que recebia das pessoas mais importantes das cidades onde viveu.

A francesa Berthe Morisot (1841-1895) e a americana Mary Cassatt (1844-1926) foram figuras importantes do impressionismo, respeitadas no ambiente artístico da época. A primeira foi uma das fundadoras do grupo dos impressionistas e Cassat foi a única americana a ter telas exibidas junto as de seus colegas homens.

Camille Claudel (1864-1943), uma das maiores escultoras em todos os tempos, foi convidada por Rodin (1840-1917) para trabalhar como sua assistente, a única mulher entre o grupo de artistas contratados para auxiliá-lo em uma de suas maiores obras “Os Burgueses de Calais”. Em certo momento teve seu talento ofuscado por Rodin, com quem veio a ter um conturbado relacionamento, e pelo machismo vigente que impedia que a mulher pudesse ser vista como grande artista. Após 100 anos de sua morte o governo francês inaugurou o “Museu Camille Claudel” em sua cidade natal próxima à Paris.

No Brasil, celeiro de excepcionais mulheres artistas que se destacam internacionalmente, podemos citar 3 nomes do passado que marcaram nossa história da arte: Tarsila do Amaral (1886-1973) é sem dúvida uma das figuras mais fortes do movimento modernista brasileiro. Suas obras fazem parte dos acervos dos mais importantes museus do mundo, sendo as mais famosas “Abaporu” (1928) e “Operários” (1933). Anita Malfatti (1889-1964), cuja pintura foi o estopim da vanguarda do modernismo brasileiro, teve sua primeira mostra individual em 1917, com seus mais arrojados trabalhos que chocaram a acadêmica São Paulo. Um cruel artigo de Monteiro Lobato que comparava o trabalho de Anita aos “desenhos dos internos dos manicômios”, resultou na devolução da maioria das obras vendidas durante a exposição. Em torno dela começou então um agrupamento de jovens artistas e poetas, culminando com a Semana de Arte Moderna de 1922. Tomie Ohtake (1913-2015) veio do Japão aos 23 anos e estabeleceu-se em São Paulo, naturalizando-se brasileira. Sua reconhecida produção artística foi marcada também pela realização vários painéis e esculturas em locais públicos no Brasil. Pela sua carreira consagrada foi considerada a dama do abstracionismo brasileiro.

Atualmente é natural abordar e conhecer as obras de mulheres artistas, mas quando olhamos para o passado mais difícil se torna encontrar a presença feminina na arte. Poucas foram citadas entre listas intermináveis de nomes masculinos e, quando lembradas, acabaram colocadas como coadjuvantes dos homens. Porém, existe um movimento cada vez maior para resgatar a importância da mulher na História da Arte e algumas delas já foram mundialmente reconhecidas e admiradas nesse universo.