A princesa sobre o altar

O leitor pode imaginar que me reporte à monarquia inglesa. Os que sabem ter conhecido, nestas minhas andanças pelo mundo, alguns herdeiros de coroa, tão iguais a nós mesmos e, muitas vezes até mais calorosos no trato, podem supor que deles escrevo. Nada disso. Conheci, é verdade, os três infantes da coroa espanhola. Felipe, hoje rei, grande no porte, gentil e elegante no trato. As infantas, Cristina e Helena, de uma singeleza admirável. O que aconteceu depois pouco me importa. Não sou espanhol e nada do que ocorre no ambiente palaciano me diz respeito. 
 
Em Maputo, na inauguração da embaixada da Suécia, pude saber da rainha Sílvia, soberana no estar, no dirigir-se ao outro, na fala medida, tão nossa, tão agradável, próxima da minha cidade, onde fez surgir centro de recuperação para deficientes físicos de dar inveja a grandes polos de saúde pública. Para os que não sabem, Sua Alteza Real tem sua origem em São Paulo, com passagens por Rio Claro e Araras, e pisou nossas terras muito antes de tornar-se rainha da Suécia.
 
Nenhuma figura real me traz lembrança mais carinhosa que a Princesa Diana, a quem conheci em Angola durante os tempos em que fui peregrinar naquelas terras, preparando a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa para sua institucionalização. Ela, num gigantesco trabalho humanitário, foi para das minas terrestres ameaçando civis por todo o território. Conhecer não é conversar, estar junto. Tão somente um cumprimento, ouvir a fala que revelou a dimensão humana da personagem. Beleza, inteligência e carisma misturados numa figura elegante e vivaz. Tenho por seus filhos admiração, por saber que são seus filhos e fazem valer muito do que veio dela. 
 
A Princesa de Gales soube destruir, com louvor, protocolos que regem o comportamento de figuras reais no exercício da maternidade. Soube ser mãe, sobretudo. Sua nora parece seguir seus passos. Impossível não recordar suas aparições públicas como mãe até chegar, com emoção, às flores brancas sobre seu caixão com o cartão do filho, menino ainda, manifestando a dor de sua ausência. 
 
Há quem me peça para contar estas e outras histórias juntadas ao longo dos caminhos. Gosto mesmo do demorado encontro com Dalai Lama, do contato com artistas plásticos, músicos, poetas, escritores quando, a serviço do Brasil e de seu povo, pude estar com eles.
 
Minha formação deu-me a certeza de que nenhuma estratificação social impõe diferença. Minha mãe, valendo-se da derivação de sentido, dizia que os príncipes nascem feitos, ao apresentar alguém com elegância no trato.
 
Estou certo de que meus leitores, tão simpáticos comigo na última crônica, ao recuperar lembranças de Catito, o bichinho amado, devem supor pelo título, tratar-se do casamento do Príncipe Harry com Meghan Markle, a princesa escolhida. Nada disso. Semana passada, Ingrid Borges Bistaco, a quem conheço desde seu nascimento, me avisa que maio chegando, abrirá, com seu consorte, Lucas, os portões da histórica fazenda Dona Catarina, onde nasceu Prudente de Moraes, para sua união, garantindo, por Deus, a certeza do amor. 
 
Para mim, a princesa sobe o altar.