A tragédia campineira

Um analista de sistemas de 49 anos arrumou uma pistola com munição e foi a Catedral de Campinas, ontem no início da tarde, onde parece ter esperado a missa acabar. Depois, com as armas carregadas e, provavelmente, o coração em algum tipo de sofrimento devastador, ele começou a atirar nas pessoas que tinham ido se alimentar de algo, que só a espiritualidade pode nos dar. Mas, ele parecia não ter. Seis pessoas morreram, inclusive o atirador que parece ter acabado com a própria vida. Quem eram e o que faziam, nossos colegas campineiros vão mostrar para o mundo. O que moveu o agora assassino, que ontem de manhã era só mais um cara considerado depressivo que passava por uma crise, não saia de casa, mas nem de longe era um suspeito da polícia, não vamos nunca saber de verdade.

As famílias dos mortos estão sofrendo, mas também sofre a família do autor dos disparos. O sofrimento não escolhe lado num momento desses. Leia a matéria de Cristiani Azanha publicada na página A 4 desta edição.

Nós, brasileiros, nos acostumamos a ver os tiroterios e massacres em outras terras e com outras línguas, aqui isso parece coisa de cinema. Como se tivêssemos mais equilíbrio emocional que o resto do mundo, mas não temos. Mas, quando a morte vem de um lugar considerado santo, como uma igreja independente da religião, algo nos assusta. Não é lá a casa de Deus, por que ele deixou isso acontecer? Por que não tocou o coração do atirador ou fez falhar as armas, ou protegeu os seus fieis. Queremos encontrar respostas e formulamos milhões de suposições que serão sempre isso mesmo, suposições. E os valentões já dão um passo a frente para dizer: “Se eu estivesse lá… se todos tivessem armas…se a polícia funcionasse… se a Justiça funcionasse…”. Os discursos são sempre pasteurizados e nenhuma explicação, por mais científica que seja, é suficiente.

Que modelo de vida e de sociedade são esses que não identificam indivíduos em situações limítrofes como essa, ou afinal, que tipo de seres somos nós? Tragédias como a de nossa vizinha Campinas expõem nossas fragilidades, que vão além dos recursos financeiros, são tragédias da alma. A única justificativa para a atitude do atirador, até agora, era a depressão… mas, se todos os depressivos saíssem atirando por aí… a gente ia ter que importar pessoas para povoar essa nação novamente. Como profetizava Hamlet, personagem de Willian Shakespeare: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, para para falar das inúmeras traições e homicídios que ocorriam ao longo da história fictícia. Nós, os seres reais também podemos dizer: há algo de pobre no reino dos homens e parece que o mau cheio vem mesmo dos donos da casa.

Os discursos são sempre pasteurizados e nenhuma explicação, por mais científica que seja é suficiente.

(Alessandra Morgado)