A única certeza da vida é a mudança

por Marcelo Batuíra

Nossa cultura ocidental nos afastou de um conceito da vida muito importante: a impermanência das coisas. Heráclito já nos ensinava: “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Um conceito muito simples, pois no segundo banho, a água já correu e se transformou em “outro rio”. Esse também é um princípio do budismo, a impermanência (ou anicca), a única característica permanente do universo.

Nos últimos anos fomos testemunha oculares de mudanças sem precedentes. O mundo digital (ou virtual, se preferirem o termo) está se tornando a nossa nova realidade. Ele provocou e tem provocado inúmeras mudanças, mas elas são tão rápidas que mal temos tempo para compreendê-las. Isso dificulta fazer projeções, previsões ou planejamentos. Nos últimos anos temos tomado decisões no calor do momento, no apressado da hora. Isso porque os problemas que se apresentam hoje demandam soluções imediatas.

Mas essas mudanças estão acima do bem e do mal, acima do certo e do errado, pois a elas não se aplica qualquer julgamento de valores. Elas apenas nos reforçam o conceito da impermanência das coisas: nada no universo perdura para sempre, tudo se transforma continuamente. E depois, caminha para a própria dissolução.

Bem parece que eu estou contando a história do papel impresso. Desde a invenção de Johannes Gutenberg (1400-1468), em 1439, o mundo das palavras impressas numa folha de papel tem se modificado, mas nada se compara com os dias atuais. Adoramos o livro, o papel jornal e o cheiro da impressão recém saída da máquina. Contudo, tudo isso está fadado à extinção. Só não sabemos ainda quando ela vai ocorrer. Porém, esse fato nos lembra que não devemos nos apegar às coisas, pois todas elas são temporárias.

Mais do que a extinção do papel como meio de transmissão das palavras, ideias e informações, também se transformou o leitor. Sim, o leitor não é mais o mesmo de dez anos atrás. Há o leitor do papel impresso, leitor diário e há o leitor das notícias rápidas, online, horárias. Há o leitor que quer refletir (sobre o que lê) e há aquele que apenas quer retransmitir, ou seja, ele quer ser o propagador (o transmissor) das últimas notícias. O importante é saber o que está acontecendo no mundo em seu redor naquele momento, a todo momento.

Qual é o futuro da imprensa? Qual é o futuro da notícia? São perguntas ainda sem respostas claras. Há muitos caminhos, muitas possibilidades de escolha, porém todas elas esbarram numa questão crucial: naquela velha lição do economista Milton Friedman: “there’s no free lunch” (não há almoço grátis). Tudo da vida tem um custo. E o cerne da maior crise que o Brasil tem vivido desde 2014 é o custeio: as pessoas cada vez mais querem bens, serviços, publicidade, promoção, divulgação e informação grátis. Não querem pagar por isso. Mas o fato é que tudo isso tem um custo. E alguém paga por ele, sempre. E como resolver essa equação de custeio é o grande desafio para os próximos tempos.

Mas até que se resolva esse enigma, até que alguém consiga encaixar todas as peças desse quebra cabeças que se originou com o advento da internet e do mundo digital, é preciso dar um passo de cada vez. Um sábio escritor japonês já havia dito que estamos sempre prensados entre os antigos e a nova geração, mas precisamos nos mover em frente, senão morreremos. E ele completa: “ainda que um passo de cada vez”.

Não é chegada (ainda) a hora de largarmos o antigo e abraçarmos o novo. É preciso andar pelo meio fio. É preciso equilibrar-se entre dois mundos: o impresso e o digital. Nesse momento vale como nunca a lição de Charles Darwin: adaptar-se.

Adaptação é uma condição imprescindível para a sobrevivência num mundo em perpétua mudança. Pois é a adaptação que nos impulsiona a seguir em frente. E é a mudança que nos permite viver. Se o Jornal de Piracicaba se apresenta hoje com novos trajes e uma nova cara, é porque acreditamos que a lição de Heráclito de Éfeso (535 a.C.- 475 a.C.) é mais atual do que nunca: “tudo flui, nada permanece”.