‘A velha política morreu em praça pública’

Economista liberal, Paulo Guedes não é neófito em campanhas políticas, mas faz tempo que não chega perto de uma. Contribuiu com Guilherme Afif Domingos em 1989 e, depois, foi fazer fortuna no mercado financeiro. Ex-sócio do Pactual (hoje BTG) e do IBMEC, instituições que ajudou a fundar, e atual sócio da Bozano Investimentos, aceitou desta vez formular um programa econômico para Jair Bolsonaro (PSL). Por quê? “Ele foi o único que me pediu”. Sua motivação é contribuir com o País, diz. “Estou tentando ajudar o caos”, afirma, referindo-se à situação econômica do Brasil.

Para ele, o velho sistema político está “morrendo em praça pública” e é o momento de um novo modelo, baseado numa aliança de centro-direita em apoio a um programa liberal na economia. Ele defende privatizações amplas e aceleradas, recompra da dívida pública para reduzir gastos com juros e um novo modelo de Previdência, entre outras medidas. Guedes diz acreditar nas intenções de Bolsonaro, apesar do histórico do deputado de defender posições estatizantes e intervencionistas. “Para que ele ia me pedir um programa liberal se não quisesse?”

Quais seriam as medidas prioritárias do governo Bolsonaro?

A mudança de regime fiscal e a reforma do Estado foram as grandes omissões dos últimos 30 anos. Políticos inebriados, economistas inexperientes e uma sequência de planos malsucedidos. Havia um aparelho modelado pelo regime militar e entrou uma democracia emergente com outra camada de prioridades. Como atender a essas prioridades sem reformar o antigo, sem eliminar privilégios? Mas estamos aprendendo. Estou otimista.

Por qual razão?

Não tem a ver com candidatos específicos. É o fenômeno da dinâmica da sociedade aberta. Com o impeachment de Collor, veio a independência do legislativo. Agora, com as condenações da classe política na esteira da Lava Jato, veio a do judiciário. Estou confiante que vamos chegar lá. A governabilidade virá em novos eixos.

Por quê?

A velha política está morrendo em praça pública. O mais popular líder brasileiro foi para a cadeia. Seguramente não era um homem mal intencionado. Seguramente tinha grandes sonhos. Se foi parar na cadeia é porque tem algo muito errado nesse modelo. Esse modelo social-democrata, intervencionista. O excesso de gasto do governo corrompeu a democracia, derrubou o crescimento. É indissociável a degeneração da política desse modelo dirigista, onde as estatais são os braços usados para fazer governabilidade. Da mesma forma, a concentração de recursos no governo federal. O futuro é feito em novos eixos, em cima do pacto federativo e de princípios republicanos. As propostas encaminhadas devem ser aprovadas por uma aliança de centro-direita em apoio a um programa econômico liberal. Vai ter “toma lá dá cá”? Não.

O que garante isso?

Primeira coisa: em vez de 40 ministérios para agraciar partidos, cai para dez ou doze. Segundo, o acordo é em torno de programas. O programa é liberal. Quem quiser apoiar esse programa está dentro. Quem não quiser, está fora. E não tem problema nenhum.

O problema é a necessidade de aprovar medidas no Congresso.

Se o presidente não propuser uma reforma política, ele está onde? No mundo da lua? Nossa sugestão é uma cláusula de fidelidade programática. Votação em bloco do partido. E acaba com compra do voto no varejo, o voto mercenário. É combinar o chamado fechamento de questão com fidelidade partidária. Queremos valorizar os partidos. Hoje não valem nada, são legendas de aluguel.

Isso resolve o problema?

É a nova política. Como você vai comprar voto se fez um programa? O programa é liberal. Se votar contra, não está na base.

Como enfrentar a questão das contas públicas?

O plano é gastar menos e melhor. Por que privatizar? Quero baixar as despesas de juros, que são um absurdo. É o cultivo do rentismo, arma de destruição em massa de empreendedores. Mas tem de fazer com consistência fiscal. Não adianta baixar juro artificialmente, como Dilma fez, porque a inflação volta logo. Esse foi meu argumento com Bolsonaro para ele entender que precisa de Banco Central independente.

Como os juros baixarão?

Privatizando vou matando dívida. Pretendíamos ter resgate de dívida no primeiro ano. Amortizar uns R$ 400 bilhões logo no início do governo.

E de onde vem esse dinheiro?

Começam a chegar as privatizações. Vamos derrubar permanentemente a taxa de juros com política fiscal. O coração do programa é fiscal. Se somar três anos de juros, dá R$ 1 trilhão. É um absurdo essa conta. Na hora que você fala: “vou privatizar, vou botar para crescer, vou reduzir imposto”, o País começa a andar, os juros desabam. Daqui a pouco tem gente aceitando 1% de juro, pedindo pelo amor de Deus. Tem de mostrar que o Estado não vai precisar de financiamento. Não precisa seguir com essa conta absurda de juros. O cara fez o Cruzado e devia ter vergonha. Aí volta, faz o Real, coloca o juro na lua e diz que fez algo extraordinário (uma referência aos economistas Persio Arida e André Lara Resende, que participaram da elaboração dos dois planos). Não, cara, você endividou o País, quebrou as empresas. Só que as pessoas nem percebem. Ninguém entende nada, é o caos. Estou tentando ajudar o caos. As pessoas acham que é o caos o Bolsonaro andar por aí. Não é o caos. O caos já está aí há muito tempo.

O que mais além de privatizar?

Outro canhão estará virado para a Previdência. O Brasil está novinho e já quebrou a Previdência. Falei para o Bolsonaro: se aprovar isso aí agora (reforma proposta por Temer) o avião não cai na sua cabeça e segue mais dez, 15 anos. Se não aprovar, vai cair na sua cabeça e na minha. Não acho legal. Ele me disse: “Pô, Paulo, você faz o que quiser depois, mas se eu fizer isso, nem chego lá. O Lula está falando que vai mexer na Previdência? O Alckmin? Acredito em você, mas não posso”. O meu papel é apresentar uma reforma liberal. Se ele quiser, aprova. Se não aprovar, não vou. Não preciso do poder. Mas não gosto do caminho para onde o Brasil está indo. Não gosto da mídia achar normal uma pessoa que solta bomba e achar bandido um cara que entrou na academia militar.

Quem diz que ele é bandido?

O tratamento é esse, é diferente. Lembro do tratamento que recebi quando voltei de Chicago (Universidade de Chicago, onde fez doutorado). Sei o que é ser discriminado. O que nos aproximou foi um pouco isso.

Bolsonaro votou diversas vezes contra reformas. Acredita que ele se tornou um liberal?

Você acredita que Persio Arida (coordenador do programa de Geraldo Alckmin) é liberal? Acredita que Alckmin é liberal? Tenho de acreditar que Bolsonaro está mais próximo (de ser liberal). Ele não é idiota, né? Vai pedir o que não quer?

O sr. não teve curiosidade de entender essa guinada?

Acho que ele está progredindo à taxa mais rápida do que a dos economistas brasileiros. Continua dizendo que gostaria que tivesse um ministério só, com comando único, e nessa direção. Se o Persio Arida acredita no Alckmin, acho que posso acreditar no Bolsonaro. Quero melhorar meu País, que as pessoas tomem o remédio certo.

O sr. defende o sistema de capitalização na Previdência. Como viabilizar esse modelo?

A ideia é oferecer uma alternativa. Não quero nossos filhos e netos condenados. É covardia. Temos um plano interessantíssimo, mas não posso falar.

Há dinheiro de privatização suficiente para dar conta do rombo da Previdência e da dívida?

Por exemplo, sim. Você não vai comprar a dívida toda num dia só. As privatizações renderiam de R$ 500 bilhões a R$ 800 bilhões em números atuais. Então, vai ser próximo de R$ 1 trilhão, porque com programa pró-economia de mercado, os ativos vão subir de preço.

Há espaço para programas sociais em seu programa?

Evidentemente. Programas sociais de transferência de renda são inteiramente louváveis. Os liberais compreendem e criaram as mais potentes ferramentas para erradicação da miséria. Estamos examinando um programa de renda mínima. Mas não adianta só incluir os pobres no orçamento. A verdadeira inclusão social é o emprego. O sujeito que tem emprego cuida dele mesmo.

O sr. deseja participar de um eventual governo Bolsonaro?

Nunca quis me associar a partido político. A única vez que considerei ir – e teria ido – foi quando fiz o plano para Guilherme Afif Domingos. Agora parece ser uma situação semelhante. Não sabemos ainda, estamos em conversa.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.