A vida e os chapéus

Nas próximas semanas, de forma alternada, vou dividir com vocês alguns contos interessantes da psicóloga, terapeuta sexual e colega querida Vera Vaccari. Divirtam-se:

Em menina, ganhei uma coleção de mitos e contos de diferentes locais do mundo. Nunca me esqueci de um mito africano, encantador. Passei a usá-lo em consultório, pois uma boa história pode ser melhor do que muitos discursos explicativos. E às vezes, na minha vida, também me pergunto se estou olhando direito para aquele chapéu.

O mito fala de um príncipe muito poderoso, depois considerado um dos orixás das religiões de matriz africana. Poderoso e protetor, mas também muito vingativo, quando não se sentia valorizado. Entendo que tinha muitas qualidades, assim como muitas pessoas, mas precisava de atenção intensiva.

O príncipe protegia dois lavradores, muito amigos, que lhe prestavam homenagens e que trabalhavam em fazendas, uma de cada lado de uma estrada. Um dia, o príncipe passou, vestido com roupas comuns e não com suas roupas luxuosas de sempre. Os dois lavradores mal olharam para ele e continuaram seu trabalho na terra. Depois, quando pararam para descansar, perguntaram um ao outro quem seria aquele homem que tinha passado por ali. Nenhum dos dois sabia quem era e esqueceram o assunto.

Eles esqueceram, mas Exu não. Profundamente ofendido, resolveu se vingar, ensinando aos dois homens uma lição: que deviam cumprimentar a quem passasse e homenagear a quem de direito.

No dia seguinte, o príncipe, com roupas luxuosas, passou novamente pela estrada. Mas não dava para ver seu rosto, encoberto por um chapéu enorme, chamativo. Cumprimentou a um dos homens, de um lado da estrada, e depois ao vizinho, do outro lado, e seguiu seu caminho.

Aquele luxo chamou a atenção dos dois lavradores, que se aproximaram da cerca para trocar ideias sobre quem seria aquele homem que acabava de passar, com roupas tão destacadas e um chapéu como nunca tinham visto. Concordaram que deveria ser um príncipe de muita importância.

Um dos amigos elogiou a beleza do chapéu vermelho que o homem usava. O outro discordou: o chapéu era sim maravilhoso, mas azul. Vermelho, dizia um, tenho certeza do que vi. Azul, gritava o outro, você acha que não sei distinguir cor? De grito em grito, enfurecidos, partiram para a luta corporal. Só pararam de se socar quando estavam com as roupas rasgadas, e sentiam doer o corpo todo.

Ao longe, o príncipe observava o que acontecia, tendo em mãos seu belíssimo chapéu bicolor. Vermelho de um lado e azul do outro. Cada um dos lavradores só tinha visto um lado. Ambos lutaram entre si porque os dois estavam corretos.

Às vezes, nem preciso dizer nada depois de contar sobre o chapéu do príncipe e os dois lavradores. Quem ouve em geral já afirma que as pessoas fazem isso muitas vezes. Os casais, os familiares, os amigos, os partidários de ideias…

Esquecem-se de que o diálogo é de mão dupla: falar, mas também ouvir. Colocar-se no lugar do outro, para entender.

Há pessoas que pensam muito diferente de nós. Às vezes, dá para conviver com a diferença, que é boa, quando é possível trocar ideias, uma ouvir a outra, ambas aproveitando a oportunidade de crescer. Outras vezes, não dá. São ideias, expectativas, modos de ver o mundo que podem impossibilitar a convivência cotidiana. Nesse caso, é preciso escolher. A vida está repleta de escolhas assim.