A vida médica em uma UTI Neonatal

médico Coordenador da unidade na Santa Casa,médico conta o dia adiado trabalho e também das horas de lazer. Foto: Claudinho/JP.

Antônio Ananias Filho, 54 anos, é médico pediatra, coordenador UTI Neo/Pediátrica (Unidade de Terapia Intensiva) da Santa Casa de Piracicaba. Formado em medicina pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), em 1993, fez residência médica em pediatria e especialização em neonatologia. É casado com Margarete Conceição Ananias, pai do também médico pediatra Felipe Conceição Ananias, 27, e da estudante de medicina Monique Conceição Ananias, 25. O piracicabano nascido em 18 de junho de 1964 é oriundo de escola pública e batalhou por três anos em cursinhos pré-vestibulares para conquistar um sonho de criança: ser médico. De acordo com ele foi um caminho árduo e cheio de entraves econômicos, mas apesar das inúmeras dificuldades a recompensa por não desistir do sonho é contemplada até os dias atuais. Após passar por todas as áreas médicas ele optou pela pediatria, definida por ele como uma área complexa e árdua, mas ao mesmo tempo intrigante e cheia de motivações, pois trabalha com emoções, desafios, e, além de tudo com o ser humano em formação. O médico pediatra trabalha na UTI neonatal da Santa Casa há 24 anos, cuidando de bebês dos mais variados tamanhos e patologias, auxiliado por uma equipe de médicos 24h por dia, em revezamento de plantões de 12h, 365 dias por ano. Ainda dentro dos compromissos diários, arrumou espaço na agenda para conceder a reportagem ao Jornal de Piracicaba a entrevista para a seção Persona.

Quando e porque decidiu cursar medicina? Foi algo que sempre quis fazer?
A escolha pelo curso de medicina era um sonho antigo que vem desde criança. Não tive nenhuma influência, pois quando mais jovem, não tinha parentes médicos na época. O caminho foi longo e árduo com vários entraves econômicos e emocionais, mas a recompensa por não desistir dele foi atingida. Por isso incentivo a todos que sonham com um futuro melhor para sua vida a nunca desistir de seus sonhos.

Como entrou na universidade?
Sempre estudei em escola pública, fiz o primário e ginásio no Mello Cotrim, na Paulicéia, e o colegial no Sud Mennucci. Foram bons tempos onde fiz muitos amigos e acumulei ótimas lembranças. Nos encontros remanescentes dessa época damos boas risadas. Após esse período, servi serviço militar (tiro de guerra) aqui mesmo na cidade. Na época, tentar prestar medicina sem fazer cursinho era muito difícil, portanto fiz cursinho ao longo de três anos, aprendi muito com essa longa jornada nos bancos escolares, mas foi muito gratificante, pois, consegui entrar na Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Botucatu. Passei na segunda chamada em uma terça feira de carnaval em fevereiro de 1984, uma data inesquecível para mim. Durante o período do cursinho cheguei a trabalhar durante o dia e estudava a noite, só no ultimo ano de cursinho que passei a estudar durante o dia. Morar fora em uma cidade diferente para quem nunca tinha saído de casa
foi um grande desafio, foram seis longos anos de curso de graduação e três de residência. Ao todo nove anos de formação mesmo assim continuo a estudar sempre.

Porque o senhor escolheu a pediatria dentro das áreas de medicina?
A escolha pelo curso de pediatria foi feita no sexto ano após passar por todas as áreas médicas, não foi uma escolha fácil. Pediatria é uma área complexa, árdua, mas ao mesmo tempo intrigante e cheia de motivações, trabalha com emoções, desafios, mas além de tudo trabalha com o ser humano em formação, ao qual temos a oportunidade de ajudar a ser moldado para vida. No dia a dia trabalhamos com as mais variedades de idades, desde o período neonatal ainda no ventre materno até a vida adulta onde o jovem pode ter uma perspectiva do futuro a sua frente. Nós pediatras participamos ativamente dessa formação.

O que te fez seguir para o ramo da neonatologia e qual é a diferença entre pediatria e neonatologia?
A neonatologia foi um ramo da pediatria que me conquistou durante o período da residência de pediatria, influenciado pelos exímios professores ao qual tenho uma gratidão eterna. Não só aos neonatologistas, mas a todo departamento de pediatria da Unesp Botucatu. A neonatologia trata de uma faixa etária da pediatria que muitos têm um medo enorme de cuidar: os recém-nascidos (pequenos ou muito pequenos).

Até quantos dias de vida um bebê é considerado recém-nascido?
É considerado um bebê prematuro, todo bebê com idade gestacional menor que 37 semanas e seis dias, não importando o peso que pode oscilar desde 500g até 3kg aproximadamente.

O que faz um bebê necessitar dos cuidados de um pediatra neonatal e de uma UTI/NEO?
Os bebês que necessitaram de uma UTI Neo e consequentemente de um neonatologista são aqueles que nascem com desconforto respiratório, que podem necessitar de auxilio de ventilação mecânica ou não, com distúrbio metabólico como distúrbio de glicose que pode estar diminuída ou aumentada, além de bebês que nascem com más formações do sistema nervoso central, digestório, assim como cardiopatias congênitas.

Como é o trabalho realizado pelo senhor na UTI Neonatal da Santa Casa de Piracicaba?
Trabalho na UTI Neonatal da Santa Casa há 24 anos cuidando de bebês dos mais variados tamanhos e patologias, auxiliado por uma equipe de médicos 24 h por dia, em revezamento de plantões de 12h, 365 dias por ano. No inicio da UTI Neonatal, há 24 anos, a tarefa era muito mais difícil, pois contávamos com profissionais de várias escolas médicas e com experiências diferentes. Essas diferenças nos fizeram crescer como equipe médica, aprendemos muito um com os outros. A equipe de enfermagem foi brilhante na formação da UTI Neo assim como os demais profissionais envolvidos no cuidado ao recém-nascido, como fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogas, serviço social e farmacêuticos.

Como é coordenar uma equipe de UTI Neonatal em que os cuidados devem ser 24 horas por dia?
Atualmente coordenar a equipe da UTI Neonatal é muito gratificante, pois envolve muito profissionalismo, dedicação e responsabilidade por parte de toda equipe, pois envolve seres humanos comprometidos com um trabalho de altíssimo desempenho profissional.

Como se avalia a necessidade de internação na UTI Neo? Pode ser na hora do nascimento ou dá para ser avaliado ainda no pré-natal?
Durante o parto do bebê é feito uma avaliação de estado clínico da criança chamada Apgar onde são analisados alguns parâmetros como respiração, batimento cardíaco, cor da pele, movimentação da criança e tônus durante os primeiros minutos de vida, que pode auxiliar na indicação para UTI neonatal.

Na UTI Neo o recém-nascido conta com acompanhamento feito por uma equipe multidisciplinar, que envolve neonatologista, fisioterapeuta, enfermeiro, fonoaudiólogo, entre outros profissionais, certo? Como o senhor coordena as ações para que todos esses profissionais ‘falem a mesma linguagem‘?
Nós conseguimos coordenar para que todos os profissionais envolvidos com o cuidar do prematuro falem a mesma linguagem através de reuniões semanais com todas as áreas envolvidas onde são discutidos todos os casos dos pacientes envolvidos assim como todos os assuntos pertinentes aos prematuros.

A UTI Neo da Santa Casa possui, além do tratamento com equipe especializada, vários projetos de humanização para fortalecer o vínculo entre a família e o bebê e família e hospital. Fale um pouco como funcionam os projetos mamãe canguru, filhos valentes e o polvo?
Na UTI Neonatal desenvolvemos vários projetos a fim de fortalecer o vinculo entre pais filhos como o Mãe Canguru onde pais (mãe e pai) são incentivados ao contato pele a pele com seus filhos. Os pais seguram seus filhos abraçados ao corpo o maior tempo possível. O projeto polvo é um acessório confeccionado de material não alergênico que pode ser esterilizado, esse acessório fica junto ao corpo da criança proporcionando conforto e sensação de segurança. Filhos valentes é um projeto onde as pessoas envolvidas proporcionam um entrosamento entre os pacientes e a equipe multidisciplinar.

O senhor é piracicabano e neste ano recebeu da Câmara de Vereadores título de reconhecimento de Cidadão Praeclarus. Como foi ser homenageado e receber esse reconhecimento?
Ser homenageado com titulo de cidadão piracicabano Praeclarus pela Câmara de Vereadores foi uma emoção forte e surpreendente e receber esse premio será uma enorme satisfação.

Além de médico, coordenador da UTI Neonatal da Santa Casa, marido e pai de dois filhos, quando o senhor encontra um espaço livre para fazer o que gosta? Qual seu passatempo?
Nas horas vagas depois de tantos afazeres domésticos e profissionais gosto de ouvir música, praticar esporte (caminhada) e ver um bom filme de ação, além de conversar com amigos compartilhando os poucos momentos de lazer que nos resta.

Para o senhor, qual é a coisa mais importante na vida?
A coisa mais importante na minha vida é a família.

Como é a rotina de um médico pediatra?
A rotina de um pediatra é muito corrida. Começo muito cedo, após sair de casa e de tomar café da manhã, passo no hospital para ver os pacientes internados, discutir os casos complicados com outras especialidades, ouvir os pais, examinar e prescrever as condutas, pedir exames quando necessário e após tudo isso vou para consultório onde permaneço até horário do almoço. No consultório a rotina é atender vários pacientes com as mais variadas queixas e dúvidas procurando na maioria das vezes resolver as questões apresentadas. Nem sempre conseguimos, mas tentamos. Paro para um almoço rápido e parto para o período da tarde mantendo a mesma rotina do período da manhã. Nesse período tem que haver um tempinho para atender os representantes de laboratórios, que vem semanalmente nos apresentar novidades terapêuticas das mais variadas possíveis. No final do dia vejo exames deixados no consultório e retorno assim que possível para os pacientes. Em alguns dias da semana essa rotina se estende um pouco mais com os plantões noturnos de 12h, nos pronto-socorro ou na UTI Neo.
Nos prontos-socorros sejam eles particulares ou públicos a rotina é semelhante, os casos que aparecem são os mais variados possíveis, entre eles: febre, dor abdominal, traumas pequenos, tosse, vômitos, diarréia. O fluxo maior vai até meia noite, após esse período o volume de atendimento diminui muito, mas não deixam de aparecer. No final da noite dormir um pouco quando consigo. No dia seguinte passo no hospital e volto para o consultório. A rotina para quem faz plantão em UTI também pode ficar bem cansativa, diante de todos aqueles aparelhos todos apitando, pacientes com inúmeras patologias que podem ser graves ou não. Algumas vezes fico a noite toda sobre um paciente, e no dia seguinte vou para o consultório. Quando não estou atendendo no consultório estou nos postos de saúde onde atendo casos diversos de patologias, e muitas questões sociais.

O tempo vai passando e os antigos pacientes pediátricos começam a aparecer no consultório para trazer seus filhos. Como é esse reencontro?
Durante o período que atendemos os pacientes muitos crescem, ficam adultos, se casam e retornam com seus filhos para serem atendidos, isso é muito emocionante. Quando os pacientes que foram atendidos por mim ainda pequenos, retornam na época de adolescência, me fazem sentir com a sensação de dever cumprido por ver que aquela criança cresceu. Isso me trás uma satisfação muito grande.

O pediatra cuida do maior patrimônio da espécie humana: nossos filhos. Qual é o sentimento de ter tamanha responsabilidade nas mãos?
Tratar o maior patrimônio dos pais, ou seja, seus filhos, é uma responsabilidade enorme sobre nossos ombros. Não é fácil não, pois embora todos sejam seres humanos como a gente, muitos são de formações familiares, ambientes sociais e econômicos diferentes, com conceitos e visões que nos deixam em situações muito conflitantes. Em algumas ocasiões, aquilo que pode parecer simples para uma pessoa ou família é muito complicado para outras; juntando a tudo isto tem o forte fator emocional, que pode estar envolvido em sentimentos de perdas, ausência, angustia ou culpa. Temos que ter uma força interior muito forte e pedir o auxílio de Deus para nos ajudar a suportar e a resolver tudo da melhor maneira possível. Muitas vezes saímos tão angustiados e destroçados por dentro, que demoramos um pouco para nos recuperarmos. Mas Deus está sempre junto de nós e com ajuda dele superamos tudo.

Você tem alguma história para partilhar de algum caso que tratou e que marcou muito a sua trajetória?
São tantos os casos que marcaram minha vida que não consigo escolher um caso somente. O que me marca sempre é a felicidade de reencontrar após algum tempo algumas pessoas e ser indagado por familiares ou até pelo próprio paciente que me pergunta ‘doutor o senhor lembra de mim?’. No caso mais recente um pai me contou uma história que se passou há aproximadamente 20 anos atrás, quando no início de carreira prestei atendimento à uma criança com complicações gastrointestinais. Estando na época a criança em estado muito crítico, ele me disse que o atendimento teve uma boa resolução e que atualmente sua filha, já na idade adulta pode se alimentar de tudo. Naquela época a criança tinha uma restrição alimentar muito grave. Fiquei muito feliz por ter colaborado na resolução do caso. Na vida de um pediatra há muitas situações em que nos vemos diante de tantas dúvidas e angustias, pois trabalhamos com seres humanos que, em algumas vezes não podem ou não conseguem dizer o que sentem e temos que através de seus acompanhantes decifrar seus sentimentos e anseios. Não é uma situação fácil, e nem sempre o que é passado para nós através de seus pais ou avós é o que realmente está acontecendo. O que é fundamental no atendimento pediátrico é a observação, ter paciência e não ter pressa de fechar um diagnóstico. Aprendemos isto com a vivência da vida medica. Como dizem nossos avós ‘o tempo é o melhor remédio’. Só nos damos conta disso quando já estamos bem “crescidos”. Ser médico é uma arte, ser pediatra é uma dádiva. Cabe a cada um de nós, pediatras, saber da melhor maneira possível utilizar essa habilidade que nos foi oferecida pelas mãos do Criador.

O que procura ensinar aos seus filhos?
Aos meus filhos procuro ensinar a honradez nas atitudes, perseverança nos objetivos e serenidade nas decisões.

Na sua trajetória como médico, do que você mais tem orgulho?
Na trajetória de médico o que mais me emociona e me orgulha é saber que sempre fiz o máximo que eu podia para proporcionar melhores condições de vida ao próximo. Outro acontecimento que marcou muito a minha vida foi o nascimento de meus filhos.

Quais são os seus planos de carreira daqui em diante?
Os planos de carreira daqui pra frente são diminuir um pouco o ritmo de trabalho

A criação de um dia comemorativo para a “Consciência Negra” é uma forma de lembrar e valorizar um povo que contribuiu para o desenvolvimento da cultura brasileira. Qual sua visão sobre esta data?
Em relação ao Dia da Consciência Negra comemorada no dia 20 de novembro tenho a dizer que essa data tem uma grande importância para a cultura brasileira, por lembrar a luta e bravura de um grande herói brasileiro, que foi durante muitos anos esquecido e menosprezado na historia do povo brasileiro. Um herói assim como outros que simboliza a luta e a dignidade de um povo que sofreu e ainda anseia por justiça social igualdade de direito.

(Raquel Soares)