Abuso sexual por líderes religiosos

 

Luiz Xavier

Quero aproveitar este momento em que se está comentando muito na mídia sobre o abusos sexuais cometidos por um líder religioso e, a título de reflexão, reproduzir uma parte da ótima reportagem da jornalista do Universa, Talyta Vespa, sobre as dificuldades das vítimas em denunciar o abusador. Acompanhem:

“É muito grande o medo de se pronunciar contra uma pessoa endeusada por parte da sociedade. O massacre das reações alheias é devastador. Há ainda o temor de ninguém acreditar na violência sofrida, afinal, o cara é Deus na Terra. Além disso, há o impacto nas relações familiares, a exposição pública, mensagens nas redes sociais e até processos jurídicos que o agressor pode mover contra a vítima, alegando que ela o está acusando injustamente‘, diz Luiz Felipe Pondé, filósofo e professor da Ciência da Religião.

Outra questão, pontuada pelo professor de antropologia e sociologia da ESPM Fred Lucio, é a aura quase mística que protege esses homens. Quando a fé no líder é grande, há uma confusão sobre o que ele pode ou não fazer e o que é errado. “As vítimas se questionam se aquilo realmente faz parte de um ritual de cura. Elas viajam horas para encontrar essa figura endeusada e acreditam que é um ser milagroso. Então, pensam: se esse cara faz o bem a tantas pessoas, não pode estar fazendo algo ruim agora”. Por isso, as vítimas não gritam nem buscam ajuda no momento em que o abuso acontece. Essas pessoas já estão fragilizadas quando vão ao encontro dos gurus. Algumas estão doentes, outras temem uma doença; há também as que precisam de ajuda financeira, psicológica. Sempre há um motivo e, por isso, elas se entregam. Quando percebem que foram violadas, acreditam que fizeram alguma coisa para despertar o lado mau de um ser tão bondoso.

Segundo Pondé, quem acredita nos milagres concedidos por guias religiosos teme que eles também tenham poderes para fazer o mal. Elas entram na paranoia de que se um homem tem o poder de curar o câncer, ele tem também o de colocar o câncer onde ele não existe. Lucio reitera que qualquer contato com seu grande guru religioso coloca a pessoa em uma situação que beira a submissão. “Ela faz o que ele mandar. É como se Deus mandasse; afinal, ele representa Deus aqui na Terra”.

O especialista garante que se o abusador fosse um político e, não, um líder religioso, as pessoas acreditariam com maior facilidade nas denúncias feitas. “Se fosse um político, como foi o caso do Bill Clinton, a sociedade acolheria a vítima com menos relutância”. Pondé continua: “Existe um contexto cultural que coloca os políticos numa posição de gente que ‘não presta’. Já os grandes gurus espirituais são deuses. E isso é tão impregnado na nossa cultura que, mesmo com as denúncias de abusos, as pessoas continuam relutantes”.

O que fazer para driblar o medo e denunciar? Segundo a psicóloga Ellen Senra, é importante que a vítima tenha apoio emocional. O primeiro passo deve ser procurar alguém de confiança e contar o que aconteceu. O apoio traz conforto rápido. Depois, ela deve buscar apoio institucional de ONGs ou organizações que trabalhem com casos de abuso sexual. Assim, terá suporte para formalizar a denúncia. Com esses órgãos por trás, se sentirá mais protegida. É preciso que ela consiga desconstruir a ideia de que é responsável pela violência que sofreu, e isso só é possível com apoio psicológico. São três vertentes que devem trabalhar juntas: a terapia, o apoio de uma pessoa querida e um apoio institucional.