Adair Rainha – Fazer o bem, sem olhar a quem!

Foto: Amanda Vieira/JP Foto: Amanda Vieira/JP

Presidir a Conferência Santa Clara e ser vicentina fez de Adair Rainha, 80, ser conhecida pelo trabalho de kits de enxovais de bebês, produzidos e montados na Santa Casa de Piracicaba, destinados para mães com menor poder aquisitivo que dão a luz no local, bem como às mães nas mesmas condições atendidas pelo HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana) ou cadastradas na Sociedade dos Vicentinos em Piracicaba. Dona Adair, como é conhecida, está há 10 anos na presidência da Conferência, da qual é fundadora, juntamente com Maria Balbino Cortozi, 89, e Amábile Fileti, 87. Nascida em Salto, Adair mudou-se com pais ainda criança para Piracicaba. Ela é casada com comerciante aposentado Antônio Rainha Sobrinho, 82, com quem teve os filhos Angela, 61, Marcos Antonio, 58, Luciana, 55, e Valéria, 49, além de cinco netos. Durante a entrevista, dona Adair esteve acompanhada das amigas e membros da Conferência Santa Clara, Maria Lúcia Rossi Borges, 69, vice-presidente, e Maria José Romano Jarussi, 70, tesoureira, que há mais de 30 anos atuam juntas. Acompanhe a entrevista.

Como surgiu a Conferência e qual a função dela?

A Conferência foi formada em 1978. A gente dava alimentação para os pobres, visitava favelas. Depois, uma pessoa nos acolheu aqui na Santa Casa, que era o provedor na época, o comendador Antônio Romano. Ele prestigiou nosso trabalho e aqui começamos a fazer enxovais. Os vários provedores da Santa Casa participaram da mesma maneira que o comendador Romano, mas depois que ele faleceu o trabalho continuou. Tivemos o prestígio de todos os provedores.

A senhora sempre fez trabalho voluntário?

Não, não. Aos 14 anos, fui trabalhar na fábrica Boyes, onde trabalhei até eu me casar. Depois que saí da fábrica, só trabelhei em casa. Quando minha filha mais nova estava com 12 anos, prestei concurso no Estado, passei e fui trabalhar para o Governo. Sempre fui atrevida, essa é a minha personalidade. O serviço voluntário tem que gostar, fazer algo com amor. Meu marido sempre diz: “o que você faz com sua mão esquerda, a direita não precisa saber. Essa é uma lógica que aprendi com minha avó, que morreu com 94 anos. Ela era evangélica e eu a acompanhava, desde criança, participava de cultos e atividades. Acho que foi uma semente que minha avó plantou.

Como era a produção inicial de enxovais e o que mudou ao longo das décadas?

Começamos com pouquíssimos enxovais, uns cinco. Depois foi aumentando: 10, 20, 30… hoje, fazemos uma base de 180 a 200 enxovais por ano, para entregar na Santa Casa e até no Hospital dos Fornecedores de Cana. Mas começamos em sala pequenina, atrás do antigo velório, com apenas uma máquina. Hoje, temos umas 20 máquinas, entre reta e overloque. A gente fazia enxovaizinhos e dava para os vicentinos entregarem aos necessitados. No início, a gente fazia lençóis e até pijamas para pacientes da Santa Casa, depois que começamos com os enxovaizinhos, em uma sala maior a fazer mais enxovais. Nós nos reunimos e achamos que seria interessante fazer enxovaizinhos para entregar na Santa Casa para as mães carentes. Naquela época, a Santa Casa recebia muita gente sem condições que não tinha nem roupa para levar as crianças embora para casa. E nós começamos a fazer. Hoje, além de atender a demanda da Santa Casa, ajudamos o Hospital dos Fornecedores de Cana e damos enxovais para os vicentinos, que acolhem famílias carentes.

De onde vinha e de onde vem até hoje, os tecidos para produção dos enxovais?

Tecidos e tudo o que nós temos aqui é uma luta nossa. Eu mesma enviei muitos pedidos para firmas para nos ajudar, mas não tivemos retorno. Trabalhamos e pagamos o nosso trabalho. Cada uma de nós, somos mais ou menos em 20 pessoas, contribui com um valor mensal, para comprar os materiais. Já chegamos a ter mais de 35 pessoas, mas com o passar dos anos, umas se vão, outras saem. Colocamos uma taxa mínima, de 15 reais, para cada uma contribuir. Fazemos bingos, rifas. Ganhamos retalhos de tecidos para fazer toalhas de mesa, aventais, de um empresário, para colocarmos nas rifas, bingos, para gerar renda. Também ganhamos fraldas da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), algumas mantas que as pessoas trazem como doações.

O que motivou a senhora a realizar um trabalho voluntário?

Quando eu me tornei vicentina, já entrei na Conferência. Achei bonito o trabalho. Naquela época, trabalhávamos mais com os pobres, fazíamos cestas e levávamos os mantimentos nas favelas. Achava bonito e comecei a acompanhar, inclusive uma das fundadoras da Conferência, me incentivou. Mas começou a ficar difícil para levar os mantimentos, por questões de segurança, e após conversarmos na Igreja dos Frades, fomos orientadas a falar com o provedor na época, o Antônio Romano, para fazermos o trabalho dentro da Santa Casa.

No início, além das atividades da Conferência, a senhora trabalhava em outro lugar?

Eu sempre fui dona de casa. Depois, trabalhei 12 anos para o Governo do Estado, era atendente de portaria na Escola Sud Mennucci. Trabalhei 12 anos, então, não vinha seguidamente aqui (na Santa Casa), mas nos dias em que eu tinha folgas. Após me aposentar, fiquei efetiva com elas na Conferência. Naquela época, meus filhos já eram crescidos e só a mais nova me acompanhava nas atividades. Acompanhar meu trabalho, fez meus filhos serem mais caridosos.

Durante esses anos todos, seu marido sempre apoiou seu trabalho voluntário?

Sou casada vai fazer 62 anos, em setembro. Sou muito bem casada. Meu marido também trabalhava como voluntário. Ele trabalhava muito em cozinha, com equipe de cozinheiros e faziam almoços, jantares beneficentes. Ele também se doava e me apoia. Às vezes, falo que não vou fazer mais e ele fala: “vai sim, pode ir”. Ele me apoia muito, só não gosta que eu sai de final de semana e o deixe sozinho.

Como é a sua rotina de trabalho voluntário e seu dia a dia?

Faço os trabalhos na Conferência uma vez por semana, do meio-dia até umas cinco horas da tarde. Agradeço a Maria José, que é filha do comendador Antônio Romano e minha tesoureira, e a Maria Lúcia, minha vice-presidente, que são meus braços esquerdo e direito. Eu sou uma vassoura sem cabo sem elas. Se não fossem elas, que me ajudam em tudo, não sei o que eu iria fazer. Me pegam em casa, porque eu não dirijo mais, saem para comprar as coisas, às vezes, eu acompanho. Criamos uma amizade e a gente convive bem, porque necessita do apoio de uma a outra. Com as demais também. Tralhamos como em uma linha de produção, uma apoia e completa o trabalho da outra. Eu sei costurar alguma coisinha, mas nem sento nas máquinas. É só observar o que as outras estão fazendo e fazer o serviço: pregar botão, passar elástico, cortar. Tem vários afazeres, sempre vai ter alguma coisa que a pessoa vai saber fazer. Umas montam enxovais, outras costuram, tudo muito bem organizado. Graças a Deus, podemos falar que temos fartura. Temos muito apoio da Santa Casa, do provedor João Orlando Pavão, que nos ajuda no que a gente precisar resolver.

Quantos itens vão em cada kit de enxoval? Como é feita a entrega?

Independente da época do ano, cada kit tem um pacote de fraldas, um cobertor, três fraldas de tecido, um casaquinho, um lençolzinho com fronha, uma mantinha, dois sapatinhos, duas meias, um paletozinho de lã, um mijãozinho de flanela ou de malha, um casaquinho de flanela, um macacão e uma toalha. Normalmente, entregamos os kits para a assistente social da Santa Casa, que faz a triagem para entregar para as mães. Nós sabemos quem recebe. Quando vem um vicentino buscar, ele traz um papel com a relação de mães que precisam dos enxovais. Não temos contato com as gestantes. Também entregamos, todo mês, um kit de higiene para as mães, na maternidade do SUS (Sistema único de Saúde) da Santa Casa, contendo escova de dentes, pasta dental, absorvente, sabonete, shampoo. Isso foi um pedido do provedor doutor Pavão, porque o SUS não fornece. Faz uns 15 anos que damos esse kit. A gente compra o dinheiro arrecadado pela Conferência.

A senhora e as demais integrantes da Conferência se preocupam com a continuidade do trabalho que desenvolvem? Como atrair gente mais jovem?

Essa é a minha luta. As mulheres mais jovens não participam. E a gente se preocupa, tem uma senhora que está em casa, doente, e que foi durante muitos anos da presidência da Conferência, e ela fala: “gente, por favor, não deixa a sala (de costura) morrer”. Então, a nossa preocupação é essa, porque não sei do meu amanhã. A gente sempre convida pessoas para virem. Quando a gente percebe que tem poucas pessoas vindo, a gente pergunta entre as frequentadoras quem conhece alguém que pode fazer parte.

Além de ajudar quem precisa, qual a importância para quem faz esse tipo de trabalho?

Algumas pessoas que já vieram aqui na Conferência estavam com depressão e a gente começa a dar apoio, brincar, rezar muito, ler o evangelho do dia, e a situação muda. A gente reza por todos e consegue muitas coisas, graças a Deus e graças à Santa Clara, que é a nossa padroeira, e a São Vicente de Paulo.

A senhora atribui sua disposição física ao fato de fazer esse tipo de trabalho?

Isso faz muito bem, nos faz crescer! Sempre tenho na cabeça: eu tenho que fazer, que resolver, que ir atrás, porque já programei as coisas aqui. Minha missa de 50 anos de casamento foi aqui na sala, foi uma surpresa! Aqui é uma continuação da nossa casa. Me sinto feliz em coordenar os trabalhos, porque preenche a minha vida. Não sei por quanto tempo mais vou estar por aqui, então, eu prefiro trabalhar. Tem dia que até falo que não vou mais, mas sempre continuo. Todos nos conhecem, reconhecem nosso trabalho e cuidam da gente aqui na Santa Casa. No final de cada ano fazem festa em agradecimento para nós.

Como a senhora cuida da sua saúde, para ter essa vitalidade aos 80 anos de idade?

Eu sou hipertensa, tenho labirintite, tenho colite e tenho disposição. Às vezes, meu emocional fracassa, mas preencho isso com o trabalho voluntário. Sempre gostei muito de ler, acompanhar coisas boas, bonitas. Leio revistas, jornais, de cabo a rabo. Agora, então, vivo mais no WhatsApp. Vejo receitas na internet, acompanho a vida dos artistas. Gosto muito, quando estou eu casa, de estar na cozinha, fazer comida. Meu marido só come a comida que eu faço. Ele pode ir nos melhores restaurantes, que ele gosta mesmo é da minha comida. Só tenho uma faxineira a cada 15 dias e eu mesma cuido de tudo. De manhã, faço uma caminhada, bato papo. Como de tudo! Sempre fui elétrica. Sou geminiana, não paro nunca.

Eliana Teixeira