Adeus a um contador de histórias

Eu sempre tive meus ídolos no jornalismo brasileiro que me inspiraram a querer ser um jornalista. Mas muito além daqueles que estampam os grandes jornais e os telejornais, os jornalistas da minha terra ou que escolheram atuar nela sempre tiveram mais relevância.

Desde sempre meu pai assina o Jornal de Piracicaba e ainda moleque adorava acordar e já ler as páginas do matutino. Segui lendo na universidade e me inspirando para a profissão que exerceria logo depois. E lá me debruçava com os textos maravilhosos e muito bem produzidos da nata do jornalismo piracicabano, entre eles Marcela Benvegnu, Daniele Ricci, Ude Valentini, Eleni Destro, Marcelo Rocha, Iuri Botão… mas um me chamava mais a atenção: Ronaldo Victoria.

Os textos de Ronaldo eram encantadores. Seu lead (o primeiro parágrafo que tem como missão chamar a atenção para se ler até o fim) era um raio. Não dava para parar de ler. Ele assinava uma coluna sobre cinema e devorava todos os filmes lançados, de comédias a tragédias, de dramas a blockbusters, de cults a puro entretenimento. E do outro lado daquelas páginas era eu quem devorava suas resenhas. Chegava a invejar tamanho repertório para escrever com tanta propriedade, sensibilidade e uma paixão arrebatadora. Ronaldo era, de longe, o maior cinéfilo de Piracicaba.

Um belo dia, em meados de 2011, adentrei à redação do JP com meu bloquinho de notas na mão, um frio na barriga e não sabendo exatamente o que ia acontecer dali pra frente. Por lá estavam todos aqueles meus heróis. Entre eles, Ronaldo Victoria.

Dividi o Caderno de Domingo com ele, onde seguia esbanjando seu texto literário e cativante. Foi por pouco tempo e logo ele já desbaratinou para uma vida fora do estressante cotidiano de uma redação. Fez bem! Já carregava nas costas seu imenso legado. Eu fiquei por lá mais seis anos e acabei me afastando um pouco dele.

Voltei a acompanhar seu trabalho recentemente via internet onde ele fazia questão de botar seu texto em dia, sempre com muita inteligência e humor. Foi uma felicidade para mim reencontrá-lo. Com a liberdade da internet, Ronaldo criava seus próprios “quadros” como “os cinemas da minha vida”, o qual relembrava as salas de reprodução que costumava frequentar. Divertia-se com os memes internéticos e sempre levantava a bola das cantoras brasileiras de quem era apaixonado: Bethânia, Rita Lee, Marina… Também tinha seus momentos reflexivos e as impagáveis (e irônicas) “pérolas de autoajuda”.

Criticava o noticiário das celebridades e da política brasileira como ninguém, com cutucadas mais ácidas que a baba do Alien, o Predador. Ah, e falando em cinema, as dicas de filme seguiam infalíveis. No último Carnaval, ele disse que passou todo o feriadão trancado em casa assistindo dezenas de filmes. Saiu da “caverna” publicando textos e mais textos de tudo o que havia visto.
Ler novamente Ronaldo todos os dias me fazia um bem danado. Queria ter dito isso a ele, mas não deu tempo. Jamais imaginei que se despediria da gente tão cedo. Nunca estamos preparados para quem vai assim. E em um ano de tanta imbecilidade, burrice e pieguice, perder a luz de Ronaldo Victoria é cruel demais.

Tomei a liberdade de deixar aqui um trechinho do que ele escrevia por suas redes. “Os fascistas saíram do armário. Os machistas, os racistas, os homofóbicos… Isso é apenas ruim? Não consegue ver o lado bom? Tem tanta roupa suja saindo, pra ser descartada. Hora de fazer faxina. ‘Hoje joguei tanta coisa fora, a casa fica bem melhor assim’, dizia a canção dos Paralamas. Jogue gente fora, às vezes é preciso. A alma fica bem melhor assim.”
Gênio!