Adriana Eliza Brasil Nogueira: “Sinto que a minha missão é servir”

Médica revela que desde pequena pensa no coletivo e como alcançou o sonho de inaugurar um hospital (Foto: Amanda Vieira/JP) Médica revela que desde pequena pensa no coletivo e como alcançou o sonho de inaugurar um hospital (Foto: Amanda Vieira/JP)

Quando criança a santista Adriana Eliza Moreira dos Santos já revelava uma tendência para o coletivo. A menina cresceu, estudou e decidiu se manter longe do individualismo ou o restrito. Ela abraçou a carreira de médica, se especializou e hoje é uma cirurgiã de cabeça e pescoço referência no tratamento de câncer. Filha do casal Jane Moreira e César Brasil Moreira, ela é irmã do advogado Gaspar Otávio Brasil Moreira. Nas horas vagas, a mãe de Maria Clara (14) e Zahara (5), gosta de viajar, meditar, fazer pilates e atividades ao ar livre. Às vésperas de inaugurar um hospital para tratamento e prevenção do câncer – um dos seus sonhos realizados – a médica recebeu a reportagem do JP para falar ao Persona.

Por que a escolha pela carreira em medicina?

Desde criança, me sentia em dívida com a humanidade, queria retribuir tantas bênçãos que tive, – de alguma maneira – essa oportunidade de viver, então sempre me senti na obrigação de servir. Trabalhos comunitários, sempre fiz, desde muito pequena, desde os 12, 13 anos e sempre no coletivo. Na medicina, me inspirei nos grandes médicos, mas antes de fazer o curso eu pensava em fazer direito. No entanto, no direito você tem de julgar e de alguma maneira fazer diferença entre as pessoas, já a medicina me deu a liberdade de tratar todos da mesma maneira, sem juízo de valor. É uma profissão livre, desde que você esteja a serviço de alguém e sempre em primeiro lugar o paciente, seja lá ele quem for.

Por que a senhora decidiu vir para Piracicaba?

Eu terminei o curso de cirurgia de cabeça e pescoço no Hospital do Câncer e na época, tive um convite do Perci Zilli Bertolini para trabalhar em um ambulatório do SUS (Sistema Único de Saúde) para pacientes carentes da cidade, na cirurgia de cabeça e pescoço e que na época não tinha muitos especialistas na cidade. Adorei Piracicaba o rio, e essa oportunidade de estar próxima desses pacientes que eu queria ajudar. Na época montamos um ambulatório que atendia a noite, me lembro que todos achavam uma loucura. São pacientes alcoolistas, tabagistas, são pacientes que trabalham então eu pensava que pra eles seria mais fácil à noite. Então trabalhávamos das 19h às 23h. Assim, consegui montar uma equipe multidisciplinar. Era um ambulatório muito bom e conseguimos excelentes resultados, nível de excelência SUS. Foi uma grande escola e sou muito grata ao Centro de Especialidades, que me abriu essa oportunidade quando cheguei aqui.

Dando um salto no tempo, hoje a senhora é referência no tratamento de câncer de pescoço e cabeça em Piracicaba, já havia esse plano ou ele foi surgiu de acordo com suas experiências e vivências na cidade?

Gosto de parafrasear o Rubem Alves que ele fala assim: “Eu só cheguei até aqui porque tudo que eu planejei deu errado” (risos). na verdade eu fui formada na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) para fazer medicina e depois cirurgia, é uma situação super restrita da área de conhecimento, eu me especializei, gosto muito. Digo que a cirurgia é onde eu relaxo, porque faço de olhos fechados pode cortar minha cabeça, que as coisas saem da mesma maneira. Hoje o desafio é oferecer o tratamento do câncer para todos da forma como eu e a comunidade científica inteira concebemos e com aquilo que melhor pode ser feito por um ser humano, tirando dele, a sua melhor versão. Ao longo desse tempo criei meu grupo de cirurgia de cabeça e pescoço, mas ao mesmo tempo pensando que a realidade do câncer e principalmente na área de cirurgia de cabeça e pescoço era muito precário, no sentido que muitos pacientes chegavam e estágio muito avançado. Então, muito pouco eu poderia oferecer a eles. Até que em 2009, conheci o Hospital do Câncer de Barretos, por conta de uma aula que fui dar e encontrei um hospital 100% SUS com corpo clínico altamente qualificado, excelência no tratamento, humanização. Sempre gostei de abraçar, beijar os pacientes, de ter uma longa conversa. O oncologista não deve tratar o câncer e sim a pessoa, porque atrás da manifestação daquele tumor existe algum sentimento, existe algo a ser trabalhado. Então, fui atrás do Henrique Prata – que é o gestor do Hospital do Câncer de Barretos até hoje transforma aquilo numa grande ilha de excelência no Brasil -, e contei a ele desse sonho que eu tinha de oferecer às pessoas uma oportunidade de elas terem um salto consciente apor meio da doença. Ele falou: “eu vou te ajudar, acho que vejo seu coração. É genuíno e legítimo e eu vou te ensinar tudo o que eu sei”.

E como foi esse processo de aprendizado?

Durante dois anos fiquei com o Henrique Prata em todas as incursões dele de gestão, sempre operando, sempre tocando minha clínica, que é o Espaço Brasil, mas em paralelo aprendendo como fazer um sistema que funcionasse e que tivesse sustentabilidade. Ele foi meu grande professor. Em 2008, fundei a Associação Ilumina e me associei a uma série de pessoas acerca da causa e dessa luta. E assim foram os cinco primeiro anos. De forma bem amadora, nos fundos da minha clínica, atendendo os pacientes gratuitamente, contando na época com a ajuda do saudoso cirugião torácico Álvaro Pinto, que morreu há quatro anos, do Rodrigo Reis e de outras pessoas que ajudaram na época. De lá pra cá a gente se profissionalizou, fiz FGV, gestão em saúde, me aprofundei nessa parte (que não estava no script), mas tive que desenvolver uma forma de as pessoas enxergarem do que eu tinha certeza: que era possível transformar por meio da doença e que a doença não precisa ser um estigma ou um fardo, e sim uma possibilidade de transformação, de mudança, de ressignificação.

Sempre escuto dos meus pacientes: “hoje eu sou muito melhor do que eu era antes do câncer”. Falo que tenho essa bênção de Deus, de ter encontrado pessoas melhores do que eu que me ensinaram muito e continuam ensinando. Nosso sonho ganou corpo, aumentaram os voluntários, – devo muito aos nossos voluntários -, e agora nos últimos três anos tivemos a oportunidade de submeter o projeto de um hospital de prevenção aos moldes das unidades do Hospital de Barretos, que são oito no Brasil, e nós somos a 9ª unidade, só que com gestão própria como se fosse uma franquia mesmo, com toda excelência e expertise e todos os protocolos de prevenção. É um projeto maravilhoso que se chama rastreamento ativo organizado do câncer, que usa unidades móveis que chegam aos bairros fazendo a procura por pacientes que não têm sintomas.

E quando houve a definição quanto a construção do hospital?

Em 2017 fomos agraciados com A verba de R$ 27,8 milhões para a construção desse programa de rastreamento ativo organizado, que é constituído da unidade fixa do hospital mais a carreta que faz esse rastreio organizado. Em outubro do ano passado a carreta chegou e agora no primeiro semestre vamos inaugurar o hospital que vai drenar toda essa parte de conclusão de diagnóstico. Lembrando que esses pacientes são encaminhados no fluxo normal da linha de cuidado de câncer para as unidades de alta complexidade que são o Ceon e o Cecan aqui em Piracicaba.

A história de perseverança e luta é muito bonita contada pela senhora mas, em algum momento houve dificuldades?

Ainda bem que na minha natureza, não consegui enxergar dificuldade, pois tinha 100% de certeza que isso ia acontecer. Também atribuo isso a uma obra de Deus, porque Ele estava capacitando as pessoas, o grupo e – principalmente – estava me capacitando para esse momento glorioso. Ainda temos o segundo projeto, que é a integração em saúde, que faz parte de um projeto maior, de uma mudança de comportamento entre a população. Se nós temos uma previsão para 2050 que metade da população vai ter câncer, não adianta só a gente construir ilhas de excelência para o tratamento de câncer. Considerando que 80% dos tumores são evitáveis porque estão relacionados a fatores de risco, temos que criar uma linha de prevenção para que as pessoas não tenham o câncer, ou os tenham em estágio bem inicial, o que confere 95% de cura em estágio 1 e 2. Se uma criança aprende a ser sedentária e obesa ela pode aprender a ser saudável e esportista. Foi ai que descobrimos que só a saúde não será a solução para que esse objetivo seja alcançado. Então, abrimos o segundo pilar da fundação, que é a educação.

E como inserir a educação nesse projeto de saúde?

A coordenadora que implantou toda a educação em saúde em Barretos veio conhecer nossos serviços e nos ajudar. Hoje, a coordenadora de educação de Barretos atua há um ano com uma verba de incentivo da Caterpillar, que fez com que a gente entrasse não só na educação em saúde, mas na educação de escolares. Antes da carreta ir para determinado bairro, a educação entra nas escolas e sensibiliza as crianças, que chegam em casa e sensibilizam os adultos para que aceitem ir à carreta fazer os exames. Não, o câncer não depende dessa abordagem para aparecer, ele aparece de qualquer maneira. Conforme desenvolvemos esse raciocínio, percebemos que, como o homem é um ser social, teríamos de mexer nos outros pilares. Então, a partir do segundo semestre iremos atuar também noss pilares ensino/pesquisa, meio ambiente, esporte, cultura e comunicação, com programas de televisão.

Beto Silva