Agosto. A gosto?

O nascer ou o caminhar do sol? Quem faz agosto tão quente? A alvorada, o poente, quem toca foco entre o nascer e o caminhar do sol? De Deus por certo não vem este calor infernal. Agosto é meio caminho numa estação hibernal, com temperaturas nobres, entre friagens bravias e brandos aquecimentos. O céu em azul turquesa nos seus florescentes dias, claros desde o instante em que a estrela da manhã surge como estrela-guia, evidencia a clara missão de agosto: isolar-se de mosquitos e preparar primavera.

Se agosto pede chuva entre seus dias, é para que o ipê floresça, já passado tanto tempo de sua última cria. Se pede por outra chuva, é por sentir manacás preparando-se para tempo mais feliz. Do que agosto não gosta é de mosquitos, em tempos de ipês florindo, primeiros botões de rosa, manacás e resedás.

Semana passada, assustou-me saber que o aedes aegypti, amaldiçoado mosquito, vai-se assenhoreando e impondo seus malefícios. Descobriu Iara, das tantas crianças que vieram para encantar-me a vida, a que me embala os dias de forma suave. Dia sim, o outro também, sua mãe me envia histórias que dão a este velho coração, vigor novo ao revelar-me como Iara descobre o mundo nos anos que conta.

Delicio-me com suas peripécias. Dia destes, por exemplo, graças à tecnologia, chegou-me, quase de imediato, parte de seus folguedos infantis. Com suas amiguinhas, domina a cena e lidera os jogos que só mesmo crianças muito amadas ainda fazem. Jamais me veio notícias de que anda aboletada a celulares ou em jogos que tiram da infância o gosto bom. Ela, pelo que acompanho aqui, passa horas em torno do melhor que a vida oferece, divertindo-se com bicicletas, bolas, canções, num quintal onde as árvores desenham sombras.

Cada vez que me envolvo com suas aventuras, lembro-me com saudade da minha infância, acaipirada, repetindo imprevistos que pareciam mesmo só existir com Emília, Pedrinho e Narizinho capazes, com suas estripulias, de despertar cheiro das plantas em torno da casa, o piar das aves, o cantar distante do galo desenhando a manhã e a enlouquecida corrida feita por Catito em busca da mamadeira nas mãos de minha mãe quando, naquele quintal enorme, se aproximava de seu cercado para alimentá-lo e oferecer-lhe carinho.

Neste agosto, lhe conto, minha pequenina foi vítima da maldição espalhada pelo aedes, senhor absoluto das Américas. Não bastasse a malfeitoria que andam fazendo muitos dos governantes, dentre tantas, o descuido com o saneamento básico, o desrespeito por seu povo no dever que o cargo impõe, deram ao mosquito, originário do Egito, chance para que se ocupasse de adultos e crianças, roubando daqueles, o ânimo e destas o prazer da infância, seus folguedos e suas alegrias .

O monstrinho, gigante na sua maldade, levou minha menina para o hospital e desassossegando pais e este seu velho amigo no dia mesmo em que me deliciara, pela manhã, ao vê-la debruçada sobre folhas de papel desenhando a mais não poder e revelando talento que não supunha tivesse de forma tão evidente.

Como pode um mosquito tirar-me o prazer de ter meus dias de agosto mais a gosto que os demais, fazendo minha pequena, com febre alta, dores pelo corpo e plaquetas baixíssimas, cumprir pena demasiado grande para sua pouca idade?