Alimentação: de saudável à patológica

Ao falarmos de hábitos alimentares, podemos traduzir como um aspecto marcante para estabelecer diferenças e semelhanças culturais entre os povos. Estando relacionado aos recursos ambientais e econômicos, mas também aos fatores nutricionais. Desta forma, as permanências de muitos hábitos alimentares apresentam influência cultural, que foram passadas por meio dos núcleos familiares e das comunidades. 
 
Nos dias atuais muitos dos nossos hábitos sofrem influência da mídia e da agroindústria. A história da comida é essencial para o homem desde sempre e é a partir desta história alimentar que ele retira os nutrientes necessários para sua sobrevivência. A cultura influencia na alimentação de um povo, e os hábitos alimentares coletivos instituídos em uma sociedade proporcionam uma identificação entre os indivíduos, como se fosse uma comunhão de cuidados que irá cooperar para o bem-estar individual e que resultará na contemplação do bem-estar coletivo.
 
Se alimentar também é um ato de comunicação, proporciona uma mensagem de compartilhar, de satisfação que vai muito além dos aspectos nutricionais, porque pode te tornar pertencente a um meio que lhe proporciona aceitação. Meio esse que sofreu mudanças com o passar dos tempos, pois em algum momento do passado as mulheres rechonchudas já foram consideradas musas. No entanto, na atualidade e pela influência da mídia, o ideal de beleza é a magreza.
 
As fábricas de imagem como cinema, televisão, revistas têm contribuído para que as pessoas se dediquem a ter um corpo excessivamente magro para enquadrar-se a padrões estéticos que a mídia estampa, podendo gerar os chamados transtornos alimentares. Pessoas deixam de se alimentar pelo alimento não proporcionar satisfação. Enquanto outras se alimentam em demasia, alcançando proporções aumentadas, sem realmente se nutrir.
 
Atualmente, as concepções de beleza e estética do corpo é a magreza e, para assumirem criações fantasiosas de perfeição, as pessoas se desvinculam da importância de uma boa nutrição para serem aceitas. Desta forma, na tentativa de evitar o aumento de casos de transtornos alimentares é necessária a consciência de que a imagem corporal e magreza que estão instituídas pela sociedade como fator de suma importância para a felicidade, pode, ao invés do esperado, trazer tamanho sofrimento, tornando-se patológico.
 
Precisamos, enquanto pais e educadores, inserir na vida de nossas crianças, nos lares e escolas programas que diminuam a necessidade de realizar dieta e aumentar a ênfase na boa nutrição e padrões saudáveis de alimentação, que vão contribuir diretamente na regulação emocional do processo de desenvolvimento desses indivíduos e, consequentemente, para a saúde global da população.
 
Nesse processo, a autoimagem é a chave, a base da estrutura psíquica e começa quando um bebê se reconhece como um ser desvinculado ao corpo da mãe. A partir desse reconhecimento nasce à possibilidade de relações e interações afetivas, onde a autoimagem começará a ser estruturada. Assim, se o bebe e a mãe estabelecerem uma relação saudável, consequentemente a autoimagem será fortalecida, caso contrário, a autoimagem será enfraquecida.
 
A partir da autoimagem será possível construir o autoconceito, que é a percepção que o indivíduo tem de si próprio e da importância em considerar o outro sem anular a si mesmo. E como a autoestima depende da somatória da autoimagem e do autoconceito, essa junção deve ser satisfatória para que o indivíduo tenha uma vida equilibrada e autoconfiante e não fraquejar diante das massificações impostas pela mídia ou por um grupo.
 
 
Ana Carolina Carvalho Pascoalete é psicóloga e psicanalista clínica