Amizade líquida

A obra Amor Líquido, de Zygmunt Bauman, é o livro de cabeceira dos millenials, essa geração mais líquida que o próprio amor e que água buricada. A tal liquidez do mundo moderno que nos faz virar os olhinhos. A máxima “nada dura para sempre”, ironicamente, esteve sempre aí. É tema das canções mais românticas de sofrimento amoroso. Mas pós-2000 podemos reescrevê-la como “nada dura até amanhã”. Ou seria até daqui uma hora? Um segundo?

Bauman mostra que nossa sociedade é hoje mais frágil e cada vez mais individualizada, o que resultaria nessa rapidez do início e do fim de qualquer vínculo afetivo, seja de amizade ou amor. A ligação com o outro é facilmente conectada e desconectada, segundo Bauman, como um cabo que se tira da parede. Assim, é possível ter milhares de amigos nas redes sociais. Se der alguma mancada, é só desconectar. Simples como um interruptor.

Esses dias um amigo de um amigo meu deletou o amigo do meu amigo do seu rol de amigos do Facebook. E conversando a respeito, começamos filosofar sobre o assunto. Como uma ferramenta virtual acaba com que dando uma história de amizade como encerrada. Oras, por mais que a amizade não seja a mesma de anos atrás, aquela ferramenta mantinha os dois unidos de alguma forma. Quando há o rompimento desse vínculo afetivo virtual, o resto parece desmoronar.

Pensemos sobre antigamente. Aquele seu melhor amigo que você conheceu na primeira série. Estudaram anos juntos e o colégio acabou. Cada um foi para um lado. Anos depois, há um reencontro. A amizade parece a mesma, mas com aspectos mais frios, traços de não reconhecimento um do outro. Apertam as mãos e vão embora. “Seja feliz…”. Ninguém clicou no botão de desfazer a amizade. Ela apenas fluiu. Um próximo encontro poderá acontecer. Mas não houve o rompimento final.

Bauman fala ainda sobre o nível dos relacionamentos. Para ele, falta de qualidade é recompensada com quantidade. Assim, os aplicativos de paquera rendem muitos encontros, mas quantos foram de fato importantes? As redes sociais permitem você ter mil amigos, mas você sabe sobre a vida deles, seus anseios, desejos, angústias, alegrias?

As nossas relações no mundo virtual acabam por liquidando até mesmo aquelas que tenham nascido antes dele. No caso do amigo de um amigo que é amigo do meu amigo, eles se conheceram fora da internet, tiveram uma amizade duradoura e a distância os afastou, mantendo-os vinculados pela rede mundial de computadores. Daí pergunto: o quanto um botão de unfollow pode causar na vida de duas pessoas reais? O que poderá acontecer com a realidade após a vida virtual ter sido destruída por um clique no mouse? Será que eles vão se cumprimentar na rua? E se pegarem o mesmo elevador? Um vai perguntar ao outro o motivo pelo qual ele o deletou?

Não sei se tudo isso é uma forma de entender a apocalíptica era virtual em nossas vidas, analisando os contextos das relações humanas em uma era líquida como a que Bauman nos faz refletir. Ou é apenas uma curiosidade. Afinal, porque será que o amigo de um amigo meu deletou o amigo do meu amigo? Alguém tá sabendo dessa fofoca?