Amores antigos

Assim como os humanos, os animais que atingem a longevidade precisam de cuidados especiais, mesmo porque muitos deles também adquirem problemas de saúde. E para cuidar do bichano vale tudo, até mudar a rotina da família. Confira as histórias de tutores que cuidam e amam seus animais, além das dicas de veterinários sobre os principais cuidados quando seu animal se torna um idoso.

Mônica tem 24 anos. É, provavelmente, uma das gatas sem raça definida mais idosa de Piracicaba. Um dos principais problemas desta felina toda longeva é a memória, conta a tutora da Mônica, Olivia Zinsly, 36, secretária, que confessa: “eu mudei minha rotina diária”. Mônica tem ‘Alzheimer’ e, às vezes, vaga pela casa na madrugada. Olivia, preocupada com o estresse, entrou em contra-ataque com todo amor: “então, eu passo as madrugadas com ela, abraçada e fazendo carinho”. Olivia conta que Mônica, às vezes, se esquece dela, entretanto: “esquece de mim, mas do carinho ela não esquece”.
Não é fácil ter um animal de estimação em idade avançada. Problemas de saúde e a ameaça iminente de que partam de repente se tornam uma constante. Cuidados veterinários específicos e, como faz Olivia com Mônica, muito amor podem ser a melhor fórmula para ter cães e gatos mais tempo por perto.
E são muitas emoções! Jennifer Doni, 27, assistente de planejamento e controle da operação em logística, é tutora de Nina, a pequena Dachshund, de 16 anos. Nina já passou por gravidez psicológica, entrou em cirurgia para retirada de um tumor, entretanto, 2015 foi um ano marcante para tutora e tutorada. A parceira Pitucha, uma cocker, partiu e deixou muitas saudades.
“A Nina ficou muito abalada. No dia anterior, permaneceu o dia todo com a cabeça em cima da Pitucha. E quando a Pitucha não voltou mais (do veterinário), ela ficou muito triste. Não comia. Não brincava. Ficou sem comer uns dois dias. Achei até que ia perder ela também. A Pitucha foi sacrificada porque um rim parou de funcionar e do outro só restaram 25%. Foi a decisão mais difícil que tomei na vida. Só penso que se for o caso com a Nina, não vou conseguir de novo”, desabafa Jeniffer.
Ambas as tutoras, Jeniffer e Olivia, mudaram os móveis de casa para evitar acidentes – a Nina também tem disfunção cognitiva. As senhoras canina e felina têm também em comum doença renal. “Mudamos a ração logo após descobrir algumas alterações. Em casa, era costume dar tudo que comemos para o cachorro, como pipoca, pão, bolacha. Agora, ela come a ração específica que o veterinário recomendou. E eu procuro dar apenas biscoito próprio para cachorros. Mas, às vezes, é complicado fazê-la comer. Então, misturo um pouco de carne moída na ração. Mas tudo dentro do recomendado pelo veterinário”, conta Jeniffer.
A felina Mônica ainda dribla a vida com dores crônicas e sem alguns dentes: aos 17 anos teve que tirar os do fundo por causa da cárie. No fim de outubro, quando a reportagem da Arraso conversava com Olívia, Mônica passou por dias difíceis, mas o suporte veterinário veio a tempo e salvou a gatinha. “Já falei para o meu filho que ela vai em breve, que vai virar estrelinha. Mas nem eu aceito”, comenta Olivia.
Mas porque nós, humanos, cedemos e repartimos nossa vida com estes pequenos, que passam tão rápido por nossos caminhos? Jeniffer resume assim: “adoro animais, é a melhor forma que Deus criou para que o ser humano aprenda o verdadeiro sentido de amor incondicional”. Sobre a fase difícil, com a idade avançada, Olivia dá a dica: “com amor, nós podemos prolongar a vida dos nossos pets”.
Nota da reportagem: durante a semana da entrevista com a Olívia, a Momô partiu. No finalzinho de outubro, a felina de 24 anos foi internada e, apesar de dar sinais de recuperação, acabou não resistindo. E este não é o fim da história. “Deus levou um e mandou quatro.” Uma semana após a despedida, Olívia, que tinha acabado de perder sua amiga – mas nunca o amor antigo, do fundo do peito – estava confortada com o resgate de uma ninhada. A Arraso optou por manter a entrevista redigida quando Momô ainda estava com Olívia, uma forma de homenagear a dedicação da tutora aos animais e dividir uma história de amor com o leitor.

GUIA VETERINÁRIO: como é a velhice para um pet?
Os veterinários Fabiana Barbosa Silva de Oliveira e Leandro Henrique Nogueira Cunha de Oliveira, da Pet Planet, respondem algumas das principais dúvidas sobre a terceira idade de cães e gatos.
Com qual idade o pet é considerado idoso?
Os gatos de sete a 10 anos são considerados maduros, dos 10 aos 14 anos são sêniors e, acima de 14, geriatras. Cães de pequeno e médio portes entram na velhice a partir de 10 anos e, os de porte grande, a partir de oito anos.
Quais os sinais mais comuns da idade avançada e principais problemas de saúde?
Entre os felinos, os principais sinais observados no envelhecimento são alteração no comportamento e relação com dono e outros pets, diminuição da atividade. Gatos têm perda de peso e massa magra a partir dos 14 anos, apetite mais seletivo e diminuição da auto-higienização (pela lambedura). Os principais problemas de saúde são diabetes, hipertireoidismo, doença renal crônica, doença articular degenerativa, câncer, doença periodontal, hipertensão e disfunção cognitiva.
Nos cães há também sinais de alteração de comportamento, tornando-se mais sedentários e com menor tolerância a exercícios. As principais doenças são periodontal (boca), disfunção cognitiva, doença renal crônica, osteoartrose, problemas oftálmicos, disfunções cardíacas, tumores, hipertensão arterial e doenças hormonais.
Com qual frequência deve acontecer a consulta com o veterinário?
Para cães e gatos adultos, a visita ao veterinário deve ser anual. Com a idade, esta periodicidade muda. Para gatos a partir dos 10 anos, e caso tenha diagnóstico de alguma anormalidade, essa frequência passa a ser semestral. Devem ser semestrais também para cães com idade acima de oito anos (entre os de porte grande) e a partir de 10 anos (portes pequeno e médio).
Por que o tutor deve se preocupar com as visitas ao médico veterinário?
Não importa se cães e gatos, as consultas de rotina com o veterinário garantem o exame físico, vacinação e vermifugação. Aproveitamos para fazer os exames de rotina integrantes do check-up. Por meio dos exames físicos e complementares muitas doenças podem ser diagnosticadas precocemente. Esta condição melhora a resposta ao tratamento e diminui custos aos proprietários. O fundamental é que ganhamos em chances de cura e proporcionamos qualidade de vida com incremento à longevidade do animal.
De quais exames necessitam um pet idoso?
Para gatos, o check-up inclui hemograma, função renal e hepática, glicemia, exame de urina, pressão arterial, dosagem do hormônio da tireóide e ultrassom abdominal. Para cães idosos, hemograma, função renal e hepática, glicemia, exame de urina, pressão arterial, ecocardiograma, eletrocardiograma e ultrassom abdominal.
Qual é a atenção que se deve dar à vacinação na idade sênior?
Cães e gatos têm o sistema imunológico mais deficiente e, portanto, fica mais difícil combater infecções e ficam mais susceptíveis. Sendo assim, a vacinação deve estar sempre atualizada.
Sobre a alimentação, o que indica ser mais adequado e o que deve ser evitado para a idade avançada?
Os felinos, com o passar da idade, ficam com a digestibilidade dos alimentos diminuída e, por isso, a alimentação deve ser de alta qualidade para melhor aproveitamento dos nutrientes da dieta. Muitos pacientes vão preferir a dieta úmida pela maior palatabilidade e facilidade de mastigação devido às doenças periodontais comuns nessa idade. A mesma dieta de alta digestibilidade adequada à idade vale para os cães.
Como fica a questão da saúde bucal? Ocorre na maioria dos pets idosos?
Para os dois animais, o tratamento periodontal deve ser sempre realizado independente da idade. A doença periodontal causa dor e consequente diminuição do apetite, além ser uma fonte de infecção ao organismo. E sim acontece com a maioria dos cães e gatos.
Qual são os principais problemas? Dá para escovar e higienizar a boca deles em casa?
Entre os gatos são mais comuns a gengivite, estomatite, tártaro e perda dos dentes. Para cachorros, gengivite, tártaro e perda dos dentes. A limpeza pode ser feita com escovação diária e pasta para animais. Use escovas de dente pequenas ou dedais de silicone. Invista também no uso de periódico de antissépticos bucais. O processo de limpeza, mesmo antes de a idade avançada chegar, garante em algum grau a redução ou ausência de problemas no futuro. É fato que a higienização bucal realizada desde o início facilita a aceitação do paciente e previne problemas futuros.
Como deve ser o ambiente ideal para o animal idoso?
Os gatos ficam com mais frio devido à perda de peso, massa magra e gordura corporal, portanto, disponibilize um local aquecido e protegido. E, como a maioria vai apresentar doença articular degenerativa, recomenda-se o uso de rampas e escadas para facilitar as subidas e descidas. O alimento e água sempre disponíveis e próximos ao gatinho, assim como as caixas sanitárias. Para cães é bom pensar também em um ambiente protegido, aquecido, com piso antiderrapante, evitando escadas. Dê atenção à água e à comida, que devem estar sempre frescas e à disposição.
Eles devem ser estimulados às brincadeiras com o tutor e com brinquedos interativos mesmo sendo velhinho?
Os tipos e duração das brincadeiras dos gatos deverão ser estabelecidos pelo próprio animal, nunca forçando as brincadeiras. Evite muito estímulos, principalmente relacionado aos saltos. Os cães podem ser incentivados, respeitando as limitações de cada um. No caso dos passeios com o cachorro, evite caminhadas longas e em horas quentes do dia.

A demência típica da idade avançada (doença neurológica) também acomete os pets? Que tipos de comportamentos podem ser enquadrados e são típicos desta fase?
A disfunção cognitiva é muito comum nos pacientes felinos com idade acima de 14 anos e, para cães, a partir dos 12. Esta disfunção é uma doença degenerativa que acomete o sistema nervoso central. Tanto para cães e gatos, podemos perceber alterações no comportamento, que vai da agitação e agressividade à prostração e apatia. Também aparece a vocalização excessiva e alterações no ritmo de vigília e sono e do apetite. Pode ser percebida alguma diferença de comportamento em relação aos donos e aos outros pets do convívio.