Ana Amstalden: O mundo deve desculpas à Africa

Foto:Claudinho Coradini/JP

A piracicabana Ana Amstalden deixou a carreira de pedagoga e passou a participar de projetos do Rotary. Há um ano, cruzou o oceano e chegou ao continente africano. Desde então, passou a se dedicar à mobilização para ajudar a África, mais especificamente Moçambique, onde desenvolve projetos em aldeias em que água e comida são artigos de luxo.

Ana é filha do casal Joana da Rocha e Pedro Antonio Amstalden, e mãe de João Pedro, 25, que atua na área administrativa e de Ana Carolina, 20, que estuda Educação Física a na UEL (Universidade Estadual de Londrina).

Pedagoga com especialização em educação especial e pedagogia hospitalar, Ana também trabalhou por 18 anos na área administrativa da empresa da família, e atuou por quatro anos como professora concursada do município. Deixou a carreira no serviço público para se dedicar à família e trabalhos voluntários.

Nas horas vagas, ela prefere ficar em família, correr e pedalar. Momentos para preparar e fortalecer a mente e o corpo para, assim, ajudar comunidades que sobrevivem com muito pouco ou quase nada.

Nesta entrevista ao Persona, Ana Amstalden conta da sua experiência vivida na África, primeiro como turista e depois, como voluntária no terceiro maior continente da Terra.

Qual foi e quando ocorreu o seu primeiro contato com a África?

Estive na África do Sul pela primeira vez em julho do ano passado onde permaneci 30 dias. Tive a oportunidade fazer uma viagem internacional eu sempre quis conhecer continente africano e eu resolvi começar pelo lado mais desenvolvido da África do Sul. Conheci três clubes rotarianos, pois sou rotariana do Rotay Clube de Saltinho, e desenvolvi um trabalho voluntário em duas escolas, uma que é mantida pelo Clube de Sipoint, que é de educação infantil e outra que também atende adolescentes em uma área de risco. Nesta, eu desenvolvi um trabalho como voluntária e me encantei pela África e pelas pessoas que vivem lá. A África tem uma beleza natural incrível, maravilhosa, as praias são muito lindas.

Por que você escolheu fazer um trabalho voluntário na África?

Na verdade,quando eu tive a oportunidade de conhecer a África, primeiramente escolhi a África do Sul, pois gostaria de começar pela parte mais desenvolvida. Nesta viagem fiz algumas observações muito interessantes, pois mesmo nessa parte desenvolvida, ela traz a crueldade que foi feita com os africanos. Você vai na parte turística da África do Sul, visita as vinícolas maravilhosas em que os proprietários são franceses, holandeses, ingleses.

O guia turístico vai contando sobre o local e fala que ali os holandeses chegaram, tomaram as terras dos africanos e construíram essa maravilhosa vinícola usando a mão de obra escrava dos próprios africanos, que eram proprietários e até hoje eles continuam trabalhando como serviçais. Tem lugares, por exemplo, que você vai e não tem africanos, não tem negros, só tem holandeses franceses. Eu fui a uma praia totalmente elitizada que não tinha nenhuma negro, ou melhor, tinha como garçom, olhando os carros, essas coisas. Isso é lamentável, é muito triste, uma história que você não tem vontade de ouvir, quando a guia turística está contando.

O que você pretende fazer nas aldeias africanas?

A princípio visitamos 12 aldeias e nelas nós estamos com três projetos em andamento: um é a para construção de poços de água, para levar água limpa à essas comunidades; o segundo projeto é a construção de um centro de educação e cultura na aldeia de Pharani. Estamos montando em parceria com um brasileiro, que é agricultor e está lá há seis anos. A princípio vamos atender crianças de três a seis anos de idade, 40 crianças e para essa aldeia também iremos levar água limpa, alimento, educação, material escolar e de higiene.

De 3 a 16 de outubro, partiremos novamente para a aldeia e levaremos conosco uma equipe multiprofissional composta por médico, dentista, psicólogos, professores. Vamos tentar levar para essas aldeias, essa equipe, que seria assistencialismo no momento, mas a princípio, não tem como iniciar um projeto de sustentabilidade sem o atendimento dessa equipe
de saúde.

Nesses locais existem carências urgentes de médicos e dentistas. Para falar a verdade há carência de tudo. Então, vamos agora em outubro para conhecer as necessidades dessas aldeias e, no futuro, montarmos outros centros de educação, levando oportunidades e esperança de uma vida melhor para esse povo.

Quem apoia suas ações na África?

O trabalho que estamos fazendo é recente, então no momento eu tive apoio do Rotary nesse projetos feitos em parceria com a Fundação Rotária. Também conto com o apoio dos rotarianos e da comunidade. Moro em Piracicaba e todas as campanhas que fazemos contamos com o apoio de famílias, da comunidade e dos clubes rotarianos, que nos apoiam em quase todos os projetos que desenvolvemos.

Tem sido fácil conseguir apoio de entidades e pessoas em prol da África?

Depende do apoio, as pessoas chegam até mim querendo enviar produtos, por exemplo, material escolar, roupas, produtos de higiene, mas essas doações são difíceis para levar. Algumas coisas até conseguimos, um ou outro medicamento e material escolar, até porque nós temos o limite de bagagem, então, fica complicado. O que precisamos mesmo é de apoio financeiro de empresas para a construção de mais poços de água, para conseguir levar alimento, oportunidades para essas pessoas, mais médicos, mais dentistas. Isso seria o ideal, mas não é tão simples, não é fácil. Eu diria que é um trabalho pequeno de paciência, de persistência. Você tem que acreditar naquilo e trabalhar em cima daquilo. Algumas pessoas se solidarizam e ajudam, mas não é tão fácil. Hoje, as pessoas estão muito voltadas pra si, preocupadas com elas próprias e com essa correria maluca da vida e da necessidade de darem conta de todos os afazerem, que acabam esquecendo, ou deixando o lado humano para último plano e esquecem de praticar a solidariedade.

Existe o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras. Essa instituição não atua nessas regiões africanas?

A equipe de Médicos sem Fronteiras é uma ONG (Organização Não Governamental). Na verdade, eles atuam somente em áreas de conflitos e catástrofes. Dessa forma, nessas regiões e aldeias próximas a Moçambique e Nampula, eles nunca vão.

Recentemente eles estiveram em Beira, por contada catástrofe do ciclone, mas foi só naquele momento, naqueles dias. Nessas outras aldeias eles não atuam porque não é área de conflito.

O que mais lhe chama a atenção na África do Sul?

A África do Sul é dona de uma beleza natural incrível. As praias são maravilhosas. Porém, o que me chamou a atenção foi essa questão da desigualdade, dos europeus ingleses que chegaram lá, tomaram as terras dos africanos e escravizaram a mão de obra. Eles construíram suas empresas e suas casas em uma terra que não são deles, e os africanos continuam sendo serviçais. Isso foi o que mais me chamou a atenção. Os guias turísticos relatam essas barbárie de uma maneira natural, e você ouve e fica chocado. Fiquei entristecida. Como podemos ouvir dizer que esses invasores tomaram as vinícolas, se apropriaram das terras e escravizaram os verdadeiras donos de tudo aquilo? Hoje eles estão ricos e a população africana continua pobre e sem nada.

Em sua opinião, por que a fome e a miséria ainda prevalecem na África?

Essa pergunta é difícil de dizer, mas vou colocar minha opinião pessoal. Ao meu ver a África é um país esquecido pelo resto do mundo. A impressão que tenho – conhecendo e estando lá – é de que a África está condenada a viver na pobreza e que aquele povo não tem o direito de ter uma educação boa, uma vida confortável, de ter o básico para viver com dignidade.

Moçambique é o terceiro país mais pobre do mundo e o menos desenvolvido. Para ter uma ideia, a cada mil crianças que nascem, 80 morrem antes de completar um ano de vida. No Brasil, a cada mil, 21 morrem, e no Canadá, cinco. Lá, tem muito muçulmano, árabe e francês que continuam escravizando os negros. Na maioria das empresas pequenas, eles não têm os direitos, nem carteira assinada, o salário é abusivo, sem direito a férias. A África tem uma região que é muito rica em minério e por conta disso, existem muitos conflitos e os negros acabam morrendo. E eles morrem e pronto, acabou, sem nenhum direito aos familiares.

O mundo não tem respeito pela África. Os países africanos colonizados pela França são obrigados a pagarem 85% de suas reservas nacionais. São 15 países que pagam um salvo conduto anual à França. Eles colocam 60% de suas reservas em um banco Francês e só podem usar 15%.

Como você vê a mobilização de outros países em prol da África?

Não vejo, perto do que ela precisa e do que os países poderiam fazer. Insignificante.

O que falta para os africanos saírem da miséria?

Falta o mundo olhar com mais amor, respeito. O mundo deve um pedido de desculpas à África.

Beto Silva

(Foto: Claudinho Coradini/JP)