Aos 95, Legardeth Consolmagno ainda dirige e exerce a medicina

O oftalmologista trabalha três vezes por semana e renovou sua habilitação sem o uso de óculos.

Nascido em Rio das Pedras, em 19 janeiro de 1924, e Cidadão Piracicabano, o médico oftalmologista Legardeth Consolmagno diz que seu nome foi escolhido pelo pai, o comerciante, ourives e relojoeiro, Olympio Consolmagno, que se inspirou em um personagem de um romance. Além de Legardeth, Olympio e Christina Caravita Consolmagno tiveram mais três filhos, João, que faleceu aos 50 anos de idade,  Dylnei e Delnini, que morreram com mais de 80 anos. Casado há 69 anos com Dalva Consolmagno, 88, o doutor Legardeth ainda exerce a medicina, atendendo em seu consultório, três vezes por semana. O casal é pai da médica Cristina, da administradora de empresas Gina, do oftalmologista Carlos, da advogada Estela e da dentista Ligia, além dos oito netos e três bisnetos. Legardeth trabalhou com o também médico e jornalista Fortunato Losso Netto, um dos fundadores do JP. O segredo de toda essa vitalidade ele contou na entrevista concedida à seção Persona.

Como é a rotina atual de trabalho do senhor?

Atualmente trabalho três vezes por semana. Vou na parte da manhã ao consultório, às terças e sextas-feiras, e à tarde às segundas-feiras. Trabalho com meu filho em um prédio em conjunto com outros médicos.

 

Qual é a origem do nome do Legardeth?

Meu pai dizia que havia lido esse nome, Legardeth, em um romance que vinha em capítulos numa revista chamada Eu Sei Tudo, aliás, era uma excelente revista, que cheguei a ver alguns números. Eu cheguei a pesquisar, mas não encontrei o nome. Quando fui fazer o pré-médico em Curitiba, o professor de português, Mansur Guerius, uma excelente criatura, muito estudioso e curioso com as coisas – tanto que aproveitava as férias para frequentar tribos do Paraná e fazer a gramática da língua dos índios -, quando ele viu meu nome perguntou qual era a origem. Eu disse a ele que não havia encontrado o nome do personagem na revista que meu pai havia dito. Ele disse que iria descobrir a origem e ficamos amigos. O tempo passou e um dia, quando eu já estava formado, por coincidência, encontrei com ele na rua, falei que iria embora, que estava me despedindo. Ele disse que não havia esquecido de procurar a origem do meu nome, porém não havia encontrado. Mas me disse que o nome constaria num dicionário de nomes próprios que ele estava escrevendo. Falou-me que seria um livro póstumo, se encontrar quem queira editá-lo. E assim ficou. Há questão de uns meses, eu li no Jornal Estadão que um neto do professor Mansur está providenciando a edição deste dicionário. Preciso um dia, localizar o neto dele, para ver se consigo um exemplar. Mas o professor havia me dito que meu nome iria constar no livro como o de um aluno dele, de São Paulo, com descrição sumária.

 

O senhor conhece outras pessoas com esse nome?

Existe aqui um Legardeth, na Vila Rezende, que deve ter, talvez, a metade da minha idade. Tem um no Rio Grande do Sul, porque eu fui parteiro dele, que era primeiro neto e primeiro filho. O parto foi complicado e eles ficaram muito gratos e deram meu nome a ele. Te um outro que eu tratei do pai, a mãe engravidou depois do tratamento e ele deu o nome ao menino de Legardeth em minha homenagem.

 

Foi no Paraná que o senhor conheceu sua esposa?

Minha esposa é de Santa Catarina. Em 10 de setembro deste ano completaremos 70 anos de casados. Conheci a Dalva em Curitiba, numa passagem dela por lá. Nos casamos ela tinha só 18 anos. Tivemos cinco filhos!

 

Em que ano se formou e como foi o exercício inicial da medicina?

Me formei em 1952, pela Universidade Federal do Paraná. Durante os cinco primeiros anos de formado, eu trabalhei no interior do Paraná, em Campo Mourão, fazendo medicina geral. O prefeito daquela cidade era um médico e não estava dando conta de atender a todos.

O distrito estava com muitos problemas e o prefeito insistiu muito para que eu fosse para lá. E fui. Levei a mulher, papagaio, dois cachorros. Ficamos em Mamborê, um distrito que hoje é cidade. Fiquei seis meses e me mudei para Campo Mourão, que era 50 quilômetros de Mamborê, onde eu ia todo sábado e domingo, para atender como médico geral.

 

Até partos o senhor chegou a fazer?

Fiz até dos meus dois filhos, do Carlos e da Gina, que nasceram lá. A mais nova veio nascer aqui em Piracicaba, mas os outros nasceram no Sul. Eu fiz mais de 1.000 partos! Parto é a coisa mais comum do mundo.

 

O que fez o senhor escolher a oftalmologia?

Primeiro porque eu já tinha antecedência familiar, meu pai tinha casa de ótica. Eu já gostava da especialidade, mas precisa de subsídio para montar um consultório. Naquele tempo, além de ser caro, não havia financiamento, essas coisas parceladas. Não tinha residência médica para trabalhar ganhando desde o início. Tinha que ter um meio de subsistência e o dinheiro para montar um consultório. Então, fui ganhar o dinheiro primeiro. Fiz um pé-de-meia e aí, vim para São Paulo.

 

Em que ano o senhor mudou-se para São Paulo?

Depois de cinco anos de formado, eu vim fazer a especialização na Santa Casa de São Paulo. Já estava com três filhos, quando voltei para São Paulo em 1956. Fiquei dois anos na cidade de São Paulo, com minha mulher e os três filhos. As crianças não se davam bem na Capital, ficavam doentes. Tive que arrumar uma casa aqui em Piracicaba, já que minha família morava aqui, e eu ficava em São Paulo. Passava a semana toda lá e, aos sábados, eu vinha para casa e, segunda-feira de manhã, ia embora. Assim foi durante dois anos.

Foi na Santa Casa de São Paulo que o senhor aprendeu sobre oftalmologia?

Aprendi sobre oftalmologia no Instituto da Santa Casa de São Paulo, com o doutor Durval Prado. Esse período de dois anos foi sem remuneração alguma. Até brinco com o pessoal que, eu ficava das sete e meia da manhã até meio-dia e meia ou mais tarde, e depois de seis meses me deram um prêmio: tinha um almoço no bandejão. Não precisava pagar!

 

Era uma época muito mais difícil para exercer a medicina?

Quando eu cheguei em Piracicaba, a cidade era carente em oftalmologia. Não tive dificuldade em fazer clínica. Lá no Paraná, quando trabalhei em Campo Mourão, também era carente. Atualmente, não é assim, a concorrência é grande. Cheguei em Piracicaba, em 1958, eram três médicos em oftalmologia. Comecei a trabalhar em janeiro de 1959. Eu fui o oftalmologista número 50. Hoje, tem 1.000 médicos! Havia uma demanda reprimida, o pessoal precisava de médico.

 

O senhor trabalhou com o doutor Fortunato Losso Netto?

Sim! Ele foi diretor clínico (de 1958 a 1961 e de 1961 a 1963) da Santa Casa de Piracicaba. O doutor Losso Netto era médico radiologista, um dos fundadores desse serviço em Piracicaba. Nós tínhamos um convívio constante, fomos amigos, embora ele fosse mais velho que eu. Foram mais de 20 anos de convívio! Era uma pessoa muito respeitável e participávamos, naquele tempo, da Associação Paulista de Medicina, além de ter os mesmos gostos culturais, realizando concertos musicais na cidade.

 

Com 95 anos de idade, o senhor viu muitos avanços na oftalmologia. O que mais te marcou?

Não só na oftalmologia, mas na medicina. Fui um privilegiado. Quando comecei a exercer a medicina, muito coisa era nova. Vi nascer o medicamento sulfa (colírio) que acabou com o tracoma (doença infecciosa e altamente contagiosa, que pode causar cegueira), doença que a humanidade inteira tinha. Tuberculose: não tinha tratamento. Aí veio a penicilina. Aquelas doenças que matavam, como febre tifoide, vi nascer medicamentos para tudo isso. Sou privilegiado! Antibiótico começou pequenino e hoje, qual médico que pode trabalhar ou viver sem. Hoje, é uma gama de três, quatro gerações de medicamentos.

 

E como o senhor viu o surgimento do transplante de córneas?

Tudo isso era lenda no começo. Mas depois veio a evolução. No começo também o grande problema do transplante era a rejeição e, em primeiro lugar, era conseguir o material humano. As doações eram restritas e depois veio a conscientização do pessoal. Os bancos de olhos fizeram um trabalho muito bonito, conseguindo conscientizar aos poucos. Ainda não está perfeitamente conscientizado, mas os bancos de olhos ajudam muito. Isso é uma evolução da medicina no aspecto social.

 

A quem o senhor retribui o seu destaque enquanto oftalmologista?

Como eu tive um bom mestre, eu me destaquei, me dediquei. Já tinha um pai e um irmão óticos, que trabalhavam  juntos na Ótica Consolmagno. Meu pai fundou a ótica e depois ficou para o meu irmão. Então, me dediquei à refração (exame realizado para identificar a acuidade visual e o grau de óculos do paciente). Meu grande mestre na oftalmologia, na Santa Casa de São Paulo, foi doutor Durval Prado, que era especialista em refração. Me especializei e me dediquei muito a isso. Já meu filho, gosta de lente de contato, é um contatólogo bom, com várias especializações.

 

E o senhor não usa óculos periodicamente?

Aí é outra história! Eu sou míope. Fiz o primeiro ano do grupo escolar em Rio das Pedras, em 1932, quando saímos de lá e viemos para Piracicaba.  Meu pai me matriculou na Escola Normal, hoje Sud Mennucci. Eu não pude ser matriculado no segundo ano, porque não havia me alfabetizado. Eu faria 7 anos em janeiro e naquele tempo tinha que ter a idade completa. Tive que esperar. Entrei para fazer novamente o primeiro ano. Uma professora percebeu minha dificuldade e falou para meu pai ver se eu não enxergava. Meu pai ficou desesperado. Naquele tempo, para consultar um oftalmologista precisa ir para Campinas ou para São Paulo. Fomos para São Paulo e o doutor Pereira Gomes descobriu que eu era míope e comecei a usar óculos. Aí me alfabetizei! Usei óculos até os 74 anos. Operei a catarata e uso lente introocular.

 

Esse oftalmologista serviu de inspiração profissional?

Admirei o Pereira Gomes, fiquei fã pela vida toda. Tanto que quando me formei, e quis fazer especialização, escrevi uma carta para ele, porque ele era o chefe da enfermaria e oftalmologia na Santa Casa. Perguntei se ele poderia me receber como orientador ou indicar alguém. Foi muito gentil e me respondeu imediatamente! Disse que eu poderia ir, mas não trabalharia com ele, porque estava deixando a clínica, e me indicou para trabalhar com o doutor Durval Prado, que iria assumir a chefia.

 

Aos 95 anos de idade, o senhor teve deixar de fazer algumas coisas, por exemplo, dirigir?

Eu revalidei com 95 anos minha carta! Hoje, minha carta de motorista é sem óculos. Uso óculos, eventualmente, quando eu vou ler muito ou fazer minhas pinturas. Uso óculos de sol para proteger, depois de ter tirado o cristalino, quando fui operado. Em relação à alimentação, como de tudo, como muito bem! Como pouco, sempre comi pouco. Tomo minha pinguinha, meu vinho, minha cerveja. Faço exercício, duas vezes por semana, há 10 anos na mesma academia. Minha esposa vai junto, ela faz fisioterapia e eu faço exercício.

 

Qual é o segredo para chegar aos 95 anos com essa disposição toda?

Para começar, precisa ter paz de espírito, para viver 70 anos com uma pessoa. Tivemos cinco filhos, todos eles formados. O que me falta na vida? Não tenho motivo para não ser tranquilo. Não esquento a cabeça. O problema que eu posso resolver hoje, resolvo, se não posso, fica para amanhã e se não puder, fica para depois que o tempo se encarrega. O tempo é um remédio. Muita coisa que a gente não consegue resolver, é porque não chegou no tempo ainda e tem que esperar.

 

Como o senhor lida com as novidades em tecnologia?

Isso é mais difícil… Mudou tanto que hoje não sei mais operar nem tenho condições de operar, porque não sei manipular o instrumental novo. Todo o meu instrumental de oftalmologia eu dei para o meu filho. Nem para museu aquilo serve! Não serve para nada, virou relíquia. Eu digo aos meus colegas: não seja o primeiro a aceitar o novo, mas não seja o último para largar o velho.

 

Desde quando o senhor não realiza mais cirurgias?

Desde os 75 anos. Parei porque bastava eu ficar emocionado, e eu sou muito emotivo, quando algo durante a cirurgia não ia bem, o coração começava a se agitar. Ou então, durante a cirurgia, quando tudo ia bem, anteriormente, eu havia ficado duas noites  sem dormir, porque eu ficava preocupado, com algum paciente diferenciado. Hoje, realizo consultas, diagnósticos, receito óculos e converso. Tenho clientes que são heranças de avós, pais, que eram meus pacientes, que vão ao consultório por indicações e pelos sobrenomes já identifico.

 

Como o senhor imagina que será a medicina do futuro?

A medicina tem capacidade imensa, com todos os recursos e ainda terá muito mais. A medicina vai evoluir de tal forma que vai ser preventiva. Ainda não é. Vai uns 20 anos ou mais para ser preventiva. Mas o curativo será para um acidente ou outra coisa. As pesquisas com células tronco vão deixar de ser experimentais. A qualidade de vida será muito melhor. Quem está nascendo agora, estará com 100 anos ou mais de vida!

 

O senhor pretende se aposentar?

Acho que já estou aposentado, porque estou trabalhando pouco. Devagarzinho, estou parando, porque a gente sente falta do trabalho. Estou diminuindo minha rotina. Atendo três dias na semana e, talvez, passe para dois. Estou me programando, porque não sabia que eu iria chegar até aqui. Agora, é cuidar da minha esposa, porque ela merece. Ela foi meu braço direito.

 

(Eliana Teixeira)