Apenas lembranças

“A vida seria impossível se lembrasse. Tudo está em escolher o que se deve esquecer” (Maurice Martin Du Gard)

Falar calar. Uma réstia de sol no canto da mesa, um ursinho de pelúcia, a panela de pressão chiando, uma cicatriz de operação no peito e uma artrose no joelho esquerdo. Um livro de cabeceira, o cachorro deitado no tapete, uma toalha na cadeira. Fotografias espalhadas, o radinho tocando, o telefone mudo. Uma janela sobre o quintal do vizinho os telhados, a ausência de horizontes. O armário entulhado de roupas, que não mais são usadas, os sapatos velhos, o roupão de banho, a gaveta sempre intocada, a pasta de dente, o creme de barbear, a gilete. A torneira pingando, a caneca amassada, a criança chorando. Um copo d’água gelada, o cheiro do abacaxi maduro, a abóbora. O centavo abandonado no canto, o chinelo esquecido, o cinzeiro sem uso. As gravuras na parede, a TV desligada, a folha rabiscada. O telefone que toca, a porta que bate. O recorte de jornal. A lista telefônica, o rol do supermercado, a folhinha atrás da porta. O carro na garagem, a samambaia malcuidada, o hidrômetro com o vidro quebrado. Os buracos da rua, o garapeiro da esquina, os meninos jogando bola. O jogo de bocha. O rio quase seco, o odor desagradável, o ipê florido. A fila do banco, o vendedor de bilhetes de loteria, as pombas. As bancas de verduras, o açougue, o pastel delicioso. O guardador de carros, a extorsão, o mendigo, a rosa desfolhada. O relógio adiantado a palpitação, a banca de jornal. O engarrafamento, o guarda de trânsito. O amigo nunca mais visto. O cartão de crédito, à melancolia inexplicável, o chaveiro. A gargalhada, o caminhar apressado, o sorvete. A História de Sofia.A Banca de Jornais e Revistas A Era dos Extremos, Mauá Um Estadista do Império. Cem Anos de Solidão. A cerveja espumante, os canapés, o abridor de latas. Os bailes dos sábados. A caminhada na beira do rio Piracicaba. O papel de embrulho a cebola picada, o pano de prato. Os juros altos, o sorriso da criança, a tristeza do velho. Um lugar à mesa, o copo de cristal a faca sem corte. O remédio matinal. O café da manhã. O CD tocando baixinho, o papagaio gritando, o silêncio momentâneo. A resposta adiada, o apoio não recebido, a desilusão. O carinho da mulher, o abraço do amigo, a inveja. O jogo de buraco, o chá fulmegante, as torradinhas. A campanha política, a esperança que ilude, o ideal cada vez mais inatingível. O amigo rico, o amigo pobre, o desafeto. O artigo para o jornal, a falta de tempo a necessidade de um assunto sempre renovado. O passado, o incerto futuro, o aplauso, as recriminações. A vida em ziguezague o rascunho não passado a limpo, a prece incontida. Os anseios dos filhos, a torcida da mãe, o abraço do neto. As fotos no criado mudo, os pratos dentro da pia esperando serem lavados. Os restaurantes da Rua Do Porto. O Engenho Central. O Salto. O Véu da Noiva. A falta de tempo, a falta de tempo, o tempo desperdiçado. O cansaço. O barulho do vizinho. O Bem-te-Vi. O canto do Sábia. O cachorro latindo O carro na garagem. A empregada chegando A desilusão. A novela em seu último dia. A insônia inesperada. O telefone tocando ofertando um plano melhor.O exame do que fez durante o dia. A dose de uísque como Prosac.