Após dez anos, ex-comandante se despede da cidade

Como comandante de dois Postos dos Bombeiros Garcia ajudou na modernização nos serviços de atendimento da corporação. (foto: Amanda Vieira/JP)

Enquanto a maioria das pessoas tenta se proteger ou fugir de uma tragédia, os bombeiros enfrentam o perigo para exercerem a função de salvar a vida de um desconhecido, mesmo quando muitas vezes sua própria segurança fica em risco iminente. Não é a toa o Corpo de Bombeiros é considerado como uma das instituições mais confiáveis do País, segundo o ICS (Índice de Confiança Social), divulgada pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). Alexandre Garcia Vieira fez curso de engenharia mecânica, foi soldado da Polícia Militar, depois prestou o concurso para Academia de Policia Militar do Barro Branco. Chegou a atuar no patrulhamento como tenente, mas em 2009 iniciou sua trajetória como bombeiro, após ser aprovado em um concurso interno. Sua primeira função foi em Piracicaba, onde trabalhou por quase dez anos e, atualmente, era comandante de dois postos da corporação na cidade.

Recentemente, foi promovido a capitão e passou a atuar em São Paulo, onde pretende fazer a capacitação para serviços de gestão e suporte as atividades operacionais. Casado com Rosimeire Vasconcelos Vieira há 20 anos e pai de Augusto e Isabela é para os braços da família que gosta de ficar e recuperar as energias depois de um dia de trabalho. Entre um plantão e outro o capitão falou com o Persona. Confira a entrevista:

Como foi a sua criação, qual a recordação que tem de seus pais?

Morei com meus pais em um bairro da Capital Paulista, sempre com boas bases familiares e com o acompanhamento dos meus pais, que apoiaram minhas decisões, direcionando meu caminho para o trabalho, religião e para as boas escolhas na vida.

Qual foi a sua formação? Quais colégios e faculdade frequentou?

Cursei Engenharia Mecânica, mas realizei alguns estágios, pois prestei concurso para a carreira na Polícia Militar, ingressando na corporação como soldado, onde atuei no policiamento ostensivo por quatro anos até ingressar na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, onde me formei em 2007, sendo classificado para trabalhar novamente no policiamento, na zona leste de São Paulo. Após um ano na função de comandante de força patrulha, prestei concurso interno na corporação e iniciei minha história no Corpo de Bombeiros em 2009.

Em qual momento de sua vida decidiu ser bombeiro?

Quando frequentava o curso de engenharia, ainda trabalhava no policiamento de área como soldado e precisei frequentar alguns estágios de observação. Alguns dos meus estágios foram realizados dentro do Centro de Moto-mecanização do Corpo de Bombeiros. Naquele momento, pude ter contato com as viaturas e operar alguns caminhões, mesmo que em teste de manutenção e foi aí que decidi direcionar minha carreira para as atividades do Corpo de Bombeiro, praticamente por admiração aos veículos e aos equipamentos da corporação.

O semhor já começou sua carreira como bombeiro ou exerceu um tempo como PM?

Comecei como soldado da Polícia Militar, trabalhando no policiamento ostensivo e após ter participado dos estágios no Centro de Manutenção do Corpo de Bombeiros, prestei concurso para ingressar na Academia de Polícia Militar do Barro Branco e, posteriormente, prestei concurso interno para trabalhar no Corpo de Bombeiros. Foram necessários aproximadamente nove anos para eu conseguir chegar aonde almejava.

O que representa ser bombeiro para o senhor?

Após 10 anos de serviço no Corpo de Bombeiros, ser bombeiro é praticamente tudo que sei viver nessa vida. Adoro a profissão, vejo no meu efetivo uma determinação que me motiva a exigir cada vez mais, pois sei que eles têm condições de atender as expectativas. Estar no serviço operacional é muito gratificante e renova as energias sempre que temos condições de atuar em auxílio ao próximo.

Por que a maioria das pessoas e principalmente as crianças gostam tanto dos bombeiros?

Acredito que todas as atividades exercidas pela Polícia Militar têm algum ponto em que as pessoas desenvolvem certa admiração e respeito, assim com os helicópteros, o efetivo da cavalaria da PM, os cães de busca e de apreensão de entorpecentes. Cada atividade exercida pela Polícia Militar tem seu ponto de admiração. O Corpo de Bombeiros tem uma característica marcante de ser lembrado nos momentos de acidentes e de catástrofes, em momentos que a maioria das pessoas estaria buscando se proteger ou fugir de uma tragédia. Acredito que essa imagem de “enfrentar o perigo” traz a proximidade com as crianças.

Há quanto tempo exerce sua função como bombeiro? Quais funções já teve e quais cidades já trabalhou?

Trabalho na cidade de Piracicaba desde a formação no curso para bombeiros. Iniciei minhas atividades no ano de 2009, assumindo o comando dos Postos de Bombeiros de Piracicaba. Desde então, fui o responsável pelo efetivo de bombeiros que atendem as emergências em nossa cidade, tendo papel importante na capacitação, treinamento, fiscalização dos procedimentos operacionais, manutenção das viaturas em operação, bem como sou responsável pelo elo político entre a Prefeitura de Piracicaba e o comando do Corpo de Bombeiros na região.

Infelizmente, o trote faz parte da rotina dos bombeiros e policiais. Quais as consequências disso para a corporação?

O trote ocasiona um grande atraso nos atendimentos de ocorrências reais, uma vez que nossas equipes podem ser acionadas para diversas ocorrências, não somente acidentes de trânsito ou incêndios. Caso uma equipe seja acionada para o atendimento de um trote, outra ocorrência real pode estar sendo prejudicada em seu tempo resposta, impondo a essa vítima, um sofrimento pela demora do atendimento desnecessário, por mau uso do sistema de emergências. Esse mau uso, custa caro a todos nós, que podemos em determinado momento, precisar dos recursos públicos e não ter a disposição por conta de um trote.

Quais são as funções dos bombeiros? Atuam em quais situações?

Os bombeiros atuam primordialmente em emergências, sendo que nosso efetivo está capacitado para atuar em diversas áreas, seja no resgate de acidentados, mergulho, incêndio, salvamentos, realizar vistorias, ocorrência de insetos agressivos e remoção de animais silvestres ou agressivos.

Durante sua função como bombeiro, quais foram as situações mais difíceis que encontrou?

O atendimento das vítimas da queda da estrutura, na construção do anel viário de Piracicaba, com a posterior necessidade de localização e retirada dos corpos de cinco trabalhadores que ficaram submersos foi a ocorrência mais dura em que eu já trabalhei, por conta do tempo de duração, que foi de 15 dias de serviços, bem como a situação de desespero que se encontravam os familiares que acompanharam todos os dias de trabalho.

Situações envolvendo crianças são mais difíceis?

Sim, teve um caso de afogamento de uma criança, o pai trouxe o menino para pescar ´às margens do rio Piracicaba e, infelizmente, a criança caiu nas águas do rio e se afogou. O corpo do garoto foi localizado poucos minutos após o acidente, porém não houve condições de reverter a parada cardíaca e o garoto veio a óbito.

Qual é a sua identidade com Piracicaba?

Fui muito bem acolhido pela sociedade, possuo bons amigos, os quais carrego em meu coração os melhores sentimentos. Piracicaba representa um porto seguro onde eu pude me desenvolver profissionalmente e pessoalmente.

Está preparado para a sua nova função como capitão? Onde vai trabalhar e quais serão suas novas funções?

Estava aguardando ansioso pela promoção e rezo a Deus que oriente meus caminhos profissionais nessa nova etapa. É um novo ciclo que se inicia e acredito que com iniciativa, proatividade, estudos e dedicação poderei fazer muito mais na unidade onde estarei locado.

Como avalia sua participação nos postos de Piracicaba?

Nos postos de Piracicaba tive a oportunidade de viver épocas de muita modernização nos serviços de atendimento do corpo de bombeiros, quer seja na modernização de viaturas e equipamentos, quer seja na atualização de técnicas e procedimentos operacionais. Sempre tive apoio dos comandantes que passaram pela unidade, o que me proporcionou trabalhar com muita dedicação e liberdade, na busca por melhoria operacional.

Qual sua relação com a sua equipe de trabalho? Qual a mensagem que deixa para eles?

Sempre fui muito rigoroso no que se refere aos cuidados com viaturas e equipamentos, no uso de equipamentos de segurança e no respeito a parâmetros mínimos para que nosso efetivo não se tornasse uma vítima em atendimento, porém, busquei respeitar os limites e capacidades de cada um, frente a necessidade que se tinha a cada momento. Busquei identificar e conhecer o que cada um poderia fazer de melhor e aprendi a respeitar o que ele tinha de limitação. Espero não ter errado demasiadamente frente às minhas obrigações e admiro muito o que temos nos dias de hoje, em atendimento operacional, em viaturas e equipamentos, em conhecimentos de ações operacionais, bem como o relacionamento que temos, como instituição pública com os outros órgãos da iniciativa pública e privada.

Desejo que continuem seus ideais dentro da instituição, que guardem a história do Corpo de Bombeiros no município de Piracicaba e olhem para tudo que já foi construído até aqui, buscando a melhoria constante da nossa instituição, zelando pelos valores que nos fazem ser admirados na sociedade.

Quais os conselhos que o senhor deixa para os jovens que têm o sonho em ser bombeiro?

Que visitem nossos quarteis, busquem maiores informações com nossos homens, identifiquem dentro da nossa corporação, qual atividade ele mais se identifica e persevere nos estudos e na sua formação para ter sempre aberta as oportunidades com as que eu tive, de crescer na carreira e de realizar todos os cursos e serviços que sempre sonhei realizar.

Cristiani Azanha
crisazanha@jpjornal.com.br