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As cicatrizes do guerreiro
Fortunato Losso Netto
14/09/2016 11h30
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13 de junho de 1980 - Converso com os piracicabanos, através deste jornal, há quase meio século. Sempre com a obsessão de servir, uma opção definitiva de minha existência ao bem da terra natal.

O jornalista, quando consegue atravessar seus conterrâneos, em cidade pequena como esta, em que quase todos se conhecem, acaba imprimindo sua própria alma nas lutas que empreende.

Assim me sinto, quando perambulo por esta amada cidade.

Nada tenho a esconder, pois meus mais recônditos pensamentos extravasam nas dezenas, senão centenas de quilômetros que escrevi, neste jornadear insano de escriba do interior.

Praticamente, creio não haver luta em prol da cidade em que não tenha me envolvido. Mas, apesar da extensão, no tempo e no espaço, dessa imensa batalha, da intensidade, às vezes frenética, dos combates, da acidez do clima atravessando, de uma coisa posso me vangloriar: jamais tive amigo ou inimigo pela frente, porque o tom da refrega sempre sintonizou com o diapasão da verdade, o ritmo da luta, sempre se harmonizou com o metrônomo da Justiça.

Tratando-se do interesse da comunidade, jamais enxerguei a minha frente o amigo mais querido que poderia ser contrariado, ou o inimigo mais ferrenho, que receberia o justo prêmio que merecesse.

De 1939 a 1979, a cada 4 de agosto, redigi 40 registros do aniversário deste matutino — Deus seja louvado! — sempre reafirmando o programa e os propósitos do Jornal de Piracicaba, com a invariável constante de que, ao tratar dos superiores interesses da coletividade piracicabana, nenhuma razão outra haveria de sobrepor-se para desviar os rumos desta folha.

Assim tem sido feito, a que sacrifícios, mas inflexivelmente.

Daí a credibilidade de que se orgulha de ter o JP nesta cidade.

Muitos pais de família, talvez acompanhando netos na titubeante leitura de nossas colunas, se lembram de quando, nesta folha, por sua vez, também se iniciavam nos segredos do alfabeto.

Decorreram, assim, 80 anos de seriedade e sacrifício, mais de metade transpostos sob estes olhos cansados, mas ainda vigilantes, cheios de idealismo e de fé nos destinos desta nação.

Nesta longa jornada tive, é claro, que pugnar pela justiça, pela moralidade pública, pelos princípios éticos e morais, em defesa dos oprimidos, pela liberdade de expressão, pela preservação da família, pelo engrandecimento moral e material da minha terra e de nossa gente.

Nestes últimos meses, tive que sustentar vigorosamente campanhas contra a dissolução dos costumes, da própria moralidade pública da Administração Municipal, descida a níveis jamais alcançados neste município, que nos forçou, em defesa da verdade, a publicar as tristes ‘Páginas Negras da História de Piracicaba’.

A Justiça local, pela Promotoria Criminal, entendeu que infringi incisos da Lei da Imprensa, tese acolhida pelo juiz de direito Luiz Beethoven Ferreira, que me condenou a 3 meses e 10 dias de detenção e a final, à publicação, na íntegra, da sentença condenatória. Recorrerei à superior instância e aguardarei a última palavra da Justiça.

Não sou um desconhecido em Piracicaba: aqui nasci, aqui lutei por quase meio século, iniciando-me no jornalismo ainda estudante normalista, doando-me por inteiro aos meus conterrâneos, como médico e como jornalista.

Mesmo antes da decisão final publicarei a sentença condenatória, sem pejo e com humildade, confortado por serena confiança, como o lutador que sai do campo de batalha exibindo alegremente as cicatrizes conquistadas numa luta, pelo perene ideal de minha vida — servir com amor e lealdade a minha terra e a minha gente.


Fortunato Losso Netto

Foi médico, jornalista, diretor e proprietário do Jornal de Piracicaba


 
 
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