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Retrato do Brasil
Fortunato Losso Netto
02/09/2016 10h24
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30 de agosto de 1960 - Daqui a dois dias inicia-se o 7º Recenseamento Geral da República, que este ano deve abranger os aspectos demográfico, agrícola, industrial, comercial e serviços diversos. Realizados decenalmente nos ‘anos 0’, de acordo com convênios internacionais, os recenseamentos têm a finalidade de fazer um levantamento geral estatístico da realidade do país, nossas possibilidades e necessidades, para o equacionamento científico das soluções dos problemas nacionais.

A sua importância é de uma transcendência indisfarçável, desde que, dos dados colhidos pelo grande levantamento de informações, dependerá, nos próximos anos, a exata colocação da problemática administrativa, permitindo ao país colher os mais altos rendimentos dos governos, no âmbito federal, estadual e municipal.

Não só isso: também as empresas privadas terão o roteiro seguro para nortear seu planejamento, não só quanto às possibilidades de produção ou consumo, como também as flutuações e deficiências dos serviços, em todos os ramos da economia, e em todas as regiões do país.

Uma das mais impressionantes emoções que senti em minha vida de repórter, foi quando da visita que fiz ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no Rio de Janeiro, pelas mãos desse brilhante intelectual que se chama Sebastião de Aguiar Ayres.

O material, provindo de todo o Brasil, a ser computado, do censo de 1950, estava arrumado em grandes pilhas de pacotes rubricados, que formavam verdadeiras avenidas, dentro de enorme salão de vistoso edifício da Praia Vermelha.

Um mundo de informações preciosas ali estava para oferecer ao Brasil e ao mundo, a realidade nacional, com todos os seus índices, com todas as suas peculiaridades, servindo de mapeamento perfeito, para a organização científica da ação administrativa pública e particular.

Por isso mesmo dada a grande importância deste 7º Recenseamento Geral da República, é de estarrecer o desinteresse, a criminosa omissão, mesmo, do governo, deixando de tomar providências inadiáveis, apesar dos reiterados e agora desesperados apelos do IBGE, para que tudo ficasse pronto ao tempo e à hora, a fim de que a 1º de setembro, os quase 3.000 municípios brasileiros tivessem o material indispensável e o pessoal habilitado, a promover o gigantesco inquérito, de que resultaria o retrato do Brasil em números estatísticos.

A denúncia de graves irregularidades na preparação do censo, que chegou ao conhecimento do governador Carvalho Pinto, partiu dos próprios técnicos do IBGE, que pressionados pela responsabilidade que pesa sobre os seus ombros, se recusam a aceitá-la sem esta necessária ressalva, explicando, de antemão, que o 7º Recenseamento, pelo menos em São Paulo, poderá ficar seriamente comprometido, pelas falhas do governo federal, que não providenciou em tempo hábil, o mínimo necessário à sua integral execução.

Assim, falta de pessoal, falta de verba, falta de boletins e informativos, ameaçam transformar, aquilo que deveria ser o fiel retrato do Brasil, em uma triste caricatura, com dados falsos ou omissos, que invalidam inteiramente a gigantesca e patriótica empreitada. Enquanto isso denuncia um matutino carioca - as máquinas gráficas do IBGE estão rodando a toda a velocidade, no afã de imprimir milhões de cartazes de propaganda de certo candidato situacionista...

Esse é o quadro que caracteriza a irresponsabilidade do governo atual: é o relato do Brasil 1960, onde as improvisações e a anarquia nos serviços públicos chegam a abalar um movimento da importância de um Recenseamento Geral da República, que poderá nos apresentar ao mundo sob a forma de uma triste e irrisória caricatura.


Fortunato Losso Netto

Foi médico, jornalista, diretor e proprietário do Jornal de Piracicaba


 
 
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