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Magdalena Tagliaferro
Fortunato Losso Netto
16/04/2017 06h00
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18 de agosto de 1950 - Constitue tarefa amena escrever sobre um recital de Magdalena Tagliaferro, pois as impressões colhidas são perfeitamente nitidas, tal a surpreendente personalidade da artista.
 
Magdalena Tagliaferro, embora brasileira, pois nasceu um Petropolis, teve uma formação francesa. Orientada por seu genitor, precocemente deixou entrever a perola que se escondia em sua alma infantil. Desde os cinco anos sua intuição musical era excepcional e aos treze anos era premiada no Conservatorio de Paris! Depois de arduos estudos, com os maiores mestres europeus, foi admitida a lecionar uma classe de alta virtuosidade no principal instituto da cidade-luz. Era a afirmação plena de que o genio apontado aos cinco anos havia atingido a sua inteira maturidade, reconhecida pela mais requintada civilização do mundo.
 
A organização do programa da noitada de ontem na ‘Cultura‘ revela o gosto apuradissimo da artista: somente gemas do mais alto quilate foram oferecidas á plateia piracicabana. E engastadas na mais pura interpretação de uma artista consumada. Virtuose que não tem defeito, Magda Tagliaferro é soberana em sua arte magnifica, empolga pela simplicidade, arrebata pela nobreza de suas transcrições.
 
Ouvimos Bach dentro das linhas arquiteturais perfeitamente equilibradas, onde a grandeza de concepção encontrou eco na majestade de execução.
 
Bem poucos artistas podem enfrentar com a serena tranquilidade com que o faz Tagliaferro a ‘Aurora‘ de Beethoven. Essa pagina, bastante visada nos concertos, tem emoções irreveladas, tem escaninhos de sensibilidade que somente os eleitos podem penetrar. Não é somente o patetismo e a revolta de Beethoven que vêm à mostra, tambem a sua alma doce e compassiva, tambem o profundo sentido humano de sua obra reçumbra da inesquecivel sonata, plena de sonoridade e de vida, cheia de mensagem otimista e de esperança para o genio de Bonn.
 
A ardencia dos tropicos, a fragrancia das matas americanas, o tumultuar da terra brasileira, todo o exotismo de Vila Lobos serviu de pretexto para uma soberba demonstração tecnica em ‘Festa no Sertão‘. Magdalena Tagliaferro é a grande divulgadora da musica brasileira no exterior, como os mestres franceses, especialmente os modernos, têm em seus recitais um lugar á parte, de brilho invulgar. Debussy aparece na deslumbrante riqueza de sua ‘Suite para piano‘, uma joia de construção musical, em que dois genios se deram as mãos na criação de uma obra de arte: o autor e a interprete.
 
Na verdade, Magdalena Tagliaferro tem muito de criadora nas suas interpretações. Sua sensibilidade, servida por uma virtuosidade admiravel, adeja sobre as paginas dos grandes mestres, adivinhando intenções, fantasiando emoções, criando novas formas de beleza.
 
 O grande romantico foi reservado para a ultima parte do programa. Ha quem deseje explicar a fascinação das plateias brasileiras por Chopin com a propria formação sociologica do nosso povo. Tres raças tristes, num cadinho magnifico de transfusão de sentimentos, teriam que compreender os apelos da alma chopiniana, a cada passo fustigado pela saudade. Ouvimos o ‘Noturno em fá sustenido maior‘, por Brailowski  o grande interprete de Chopin, e Magda Tagliaferro não cedeu um milimetro no honroso cotejo. Segura, sensivel, soberana nos matizes, fiel a si propria, à obra e à vida de Chopin, tal como o compreendemos e o amamos.
 
Não precisamos particularizar as outras paginas do genial polonês: tudo com o mesmo fio de pureza, a mesma elegancia e a mesma transparencia.
 
O publico, muito entusiasta, obteve dois excelentes ‘extras‘. Pena é que estivesse um tanto inquieto  ruidos de papel, sacudidelas nas poltronas, um tossir contagiante. Seria o calor?

Fortunato Losso Netto

Foi médico, jornalista, diretor e proprietário do Jornal de Piracicaba


 
 
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