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Peito de ferro... Coração de ouro...
Fortunato Losso Netto
14/04/2017 06h00
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29 de abril de 1961 - Quem disser que não tem vaidade, e realmente estiver pronunciando uma verdade  esse já pode ir preparando nicho para santificação... Confesso, de minha parte, que esse feio pecado me preocupa, quando percebo suas manifestações, nos minimos flagrantes da vida cotidiana. Um dia destes, mal reparei pelas ruas da cidade, fui sendo perseguido pelos mais atrevidos (e amaveis) epitetos: ‘preguiçoso!‘, ‘vagabundo!‘ etc. Os raros leitores deste canto de jornal assim reclamavam a ausencia da despretensiosa cronica, numa insistencia francamente ... agradavel. Quem em situação identica, não sentiria um sopro de vaidade, a lhe acariciar a pele?
 
Realmente, depois de muitos meses de diuturna labuta, decidi, por imperativo de saude, sair para outro ambiente, na procura de necessario repouso, a refazer o corpo e a mente, das exigencias profissionais. E, para mim, quando entro em ferias, volto o pensamento em Minas Gerais: a terra e a gente, a paisagem e o povo, tudo encante nas Alterosas. Mergulha-se no que há de mais autentico na alma brasileira, no que ela possui de mais grandioso na sua simplicidade, de mais humano, na sua filosofia de vida. No contacto mais atento com o povo mineiro, sente-se o coração mais perto da Patria  entendida esta como aquela conjunto de terra e tradições centenarias de todo um conglomerado humano, que vive e sofre, que sonha e realiza, numa comunhão de ideais que liga os destinos de todos num pensamento universal. E naquelas ondulações que se perdem de vista, daquele gigante ‘de peito de ferro e coração de ouro‘, mora um povo que sintetiza todas as caracteristicas de espontanea benquerença e de hospitalidade, que os escritores estrangeiros descrevem nos habitantes do interior do Brasil, conquistando-lhes a admiração e simpatia.
 
O forasteiro que aporta a uma cidade do interior de Minas desde logo é colocado à vontade, pelo afavel acolhimento, pela indole docil do seu povo, pela quase ingenua humildade de seu temperamento. A profunda religiosidade se evidencia pela magnitude de seus templos, de porte e importancia muito acima do que geralmente se poderia esperar da comunidade. Como o surto industrial ainda não atingiu vastas zonas do Estado, permanecendo como predominantes as atividades agricolas e pastoris, podem-se surpreender, ainda agora, os flagrantes autenticos do Brasil-Imperio, que as fachadas vetustas dos predios de grandes beirais ajudam a recordar. Ainda os carros-de-boi, de vez em quando, cruzam as cidades, num curioso contraste com os ‘rabos-de-peixe‘ dos veranistas.
 
Acompanhamos, nesta Semana Santa, as cerimonias liturgicas em Caxambu: de surpresa ouvimos, encantados, uma excelente orquestra, com razoavel integração de cordas e metais, executando musica sacra de alto nivel. E lá estava, tambem, um surpreendente conjunto coral, dando conta de dificeis partituras, esplendidamente ensaiado, muito harmonico e afinado, engrandecendo e espiritualizando muito as solenidades religiosas.
 
Assim é Minas: um povo bom e educado, profundamente respeitoso e humilde, amigo das coisas simples e da vida espiritual, sem as correrias atropeladas dos paulistas, em busca do vil metal . Um bom livro é saboreado até as profundas digressões das entrelinhas, até onde a vã filosofia pode alcançar, em ressonancias infinitas. A montanha, elevando o homem para mais junto do ceu, parece que leva o minerio para mais junto de Deus e mais longe das mesquinhas competições terrenas ... Desejaria escrever aqui uma ‘Ode aos Mineiros‘. Mas, paulista do terra-a-terra, só me saiu esta mofina cronica, com o único merito de traduzir a sincera admiração e respeito à boa gente das Alterosas. 

Fortunato Losso Netto

Foi médico, jornalista, diretor e proprietário do Jornal de Piracicaba


 
 
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