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Lula sob a toga
Gaudêncio Torquato
17/05/2017 06h59
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O depoimento mais esperado do ano não teve um clímax. Luiz Inácio, o ex-presidente, não conseguiu a façanha expressiva que adota em palanque e o juiz Sérgio Moro não agiu como Mike Tyson dando uma dentada na orelha de Holyfield naquela famosa luta de 1996. Quem perdeu com a batalha de Itararé em Curitiba? Luiz Inácio conseguiu ser tão convincente que deixou o juiz Sérgio Moro no canto do ringue? Não. Mas a torcida petista acha que seu ídolo fez barba, cabelo e bigode.

Tentemos analisar o que se viu. Um juiz com a bola na mão e o apito na boca. Sereno. Suas perguntas estavam calcadas principalmente nas delações de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS e amigo de Lula e Renato Duque, ex-diretor de produção da Petrobras e indicado para o cargo pelo PT. O ex-presidente saiu-se bem. Porém, sem os rompantes palanqueiros. Luiz Inácio insistiu: o tríplex nunca foi dele. Marisa, a falecida esposa, é quem tinha interesse naquele imóvel. Lula conhece a regra do martelo: bata, bata, bata no mesmo prego e ele acabará fixando-se na parede ou, se quiserem, na cachola das massas.

O maior líder populista do país também não foi nocauteado. Nem mesmo foi ao canto do ringue. Titubeou, no início, mas foi ganhando confiança, até usando como bengala o bigode que servia de apoio para os dedos nervosos. Usou a negativa 82 vezes: “não sei, não soube, não sabia”. Tentou, sem sucesso, puxar Moro para a intimidade das famílias, ao sugerir que o filho não diz ao pai as notas baixas que tirou na Escola; A estocada veio logo: Moro garantiu que ele, sim, sabe das notas de seus filhos, inclusive as baixas. A insistência do juiz com algumas perguntas duras e diretas deixaram Lula irritado, ansioso, nervoso, inconsistente, emotivo.

Moro não deixou que o ex-presidente fizesse ali um ensaio de propaganda eleitoral. Pelas bolas divididas e pelo tempo usado pelas partes e até pela polarização entre a ala que apoia a Lava Jato e o grupo que escuda Lula, pode-se considerar o jogo empatado. Cada lado dirá que ganhou. Ao final do processo, viu-se um Lula ainda muito vivo, porém, alquebrado.

Um momento de destaque foi a resposta de Lula sobre o encontro com Renato Duque em um hangar em Congonhas. Afinal, por que um ex-presidente quis se encontrar com um ex-diretor da Petrobras? Para saber se ele tinha depósitos em contas no exterior? Não era amigo dele, Duque. E por que usar João Vaccari, tesoureiro do PT, como intermediário desse encontro? Não se ouviu resposta convincente. Mas o destaque mais negativo se deu ao atribuir a dona Marisa (que “odiava praia”) o interesse por um triplex com mil defeitos. A falecida esposa, segundo Lula, pensava em adquirir o apartamento como investimento.

E quais serão os próximos passos? O caso seguirá seu curso naturalmente e o juiz Sérgio Moro deve aceitar a denúncia, abrir a fase de nova coleta de provas, ouvir mais testemunhas e proferir uma decisão, provavelmente até final de junho. 

Lula será condenado? Vale lembrar que o veto à sua eventual candidatura à presidência da República estará circunscrito a uma condenação em 2ª instância. O Tribunal Regional da 4ª Região tem dado endosso às condenações proferidas pela 1ª instância do juiz Sérgio Moro. Se essa tendência se confirmar, Moro condenaria Lula e veria sua decisão corroborada pela instância acima. Do ponto de vista político, isso não significaria a morte política de Luiz Inácio porque ele ainda possui razoável estoque de carisma.

Luiz Inácio já começou a lapidar seu perfil com a argamassa da vitimização. Essa é a vestimenta que vai usar seja como candidato seja como líder das oposições no pleito de 2018. Na condição de comandante das oposições, plantaria a semente de resgate do PT, podendo eleger uma bancada poderosa. Já candidato, perderia a condição de favorito. Principalmente levando-se em consideração a retomada do crescimento do país. 


Gaudêncio Torquato

É jornalista, professor da USP e consultor político.


 
 
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