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‘Requiem‘ da mãe sem esperança
Fortunato Losso Netto
01/06/2017 05h00
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05 de novembro de 1960 - ... Gostaria que o senhor fizesse uma cronica: se quiser, pode citar meu nome e onde moro, para saberem que ainda existem pessoas de coragem que procuram lutar pelo bem estar dos seus e dos pobres, e não conseguem ... não tenho escola , sinto amargamente de não ser uma jornalista, uma lutadora em prol dos desfavorecidos ...‘
 
Um dia desses recebi uma carta dolorosa, de cujo conteudo tirei estes topicos acima. Senti todo o calor da indignação de uma alma ferida pela adversidade, transfundindo o seu protesto pela injustiça que pesa sobre sue pobre vida. A missiva inteira é um brado de revolta, é uma nova versão do ‘Eu acuso!‘, mas em tom menor, porque trata das pequenas tragedias que circunvagam pelas paredes humildes de um lar modesto, tragedias que, somadas aos milhares, fazem o retrato em sangue e fumo, deste Brasil sofredor.
 
Nada existe que se compare aos desesperos de uma mãe, ao ver fugirem as esperanças de um futuro promissor para sua vida ­ para a vida de seus filhos. A saude de esvaindo visivelmente, no assoberbamento das tarefas sobre-humanas que a quase indigencia impõe; a promiscuidade com os vizinhos impiedosos, que rouba os poucos minutos de repouso merecido, com a baderna e o deboche; o descontrole nervoso que conduz ao aniquilamento da paz no lar, pela insistencia das penurias e privações que se eternizam; o trabalho necessario do filho, ainda dentro da mais tenra infancia, roubando-lhe toda possibilidade de educação, que asseguraria dias melhores para o seu porvir.
 
‘O que me está dando forças para suportar este inferno é o meu menino, que, com 15 anos e meio, está no SENAI e não posso, não tenho o direito de cortar a carreira do menino, ele tem boa vontade de ser ajustador e por intermedio do prof. Quiarini ele irá em janeiro para a industria Dedini na Vila Rezende...‘ ‘Se o governador da nação quisesse penetrar nos lares pobres não teria tempo de pensar em construir palacios transparentes para que do lado de fora o faminto o veja confortadamente instalado; para que tanto luxo enquanto chefes de familia lutam dia e noite para seu sustento e da sua familia, quanta economia não faz, para comprar uma casinha e quando a compra?...
 
A insania dos governos transpõe a visão arguta dos homens de responsabilidade cultural de Nação e penetra até as mais humildes camadas da população; na intuição, que a desgraça cotidiana lhes faculta, os parias deste país compreendem que vêm sendo furtados nas suas mais legitimas aspirações, nos seus mais sentidos desejos de vida decente e cristã. É o fermento da descrença e do desengano que se espalha por todo o país, com uma força germinativa incoercivel, que poderá abalar os proprios alicerces do regime.
 
Lendo a carta dessa mãe desesperada, não posso furtar-me à meditação desse Brasil grande que tem sido negado à nossa geração. Algemados no circulo vicioso nas necessidades mais humilhantes ­ o desconforto mais primario dos sem teto, a necessidade mais premente dos sem pão, a carencia mais urgente dos sem carinho, a privação mais desesperadora, dos sem esperança ­ formam esses milhões de brasileiros uma triste legião de revoltados prontos para atender a qualquer apelo, venha da corrupção ou da prostituição, venha da violencia ou do crime, venha da China ou da Russia. Caldo de cultura dos mais virulentos, acabará por envenenar todo o organismo do país, se uma aura de compreensão e amor não soprar pelos horizontes da nação, levando a palavra de esperança para novos dias de justiça para os humildes, que são a grande massa que carrega a grande Patria para os seus destinos de Dor ou de Gloria.

Fortunato Losso Netto

Foi médico, jornalista, diretor e proprietário do Jornal de Piracicaba


 
 
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