Arresorvo contá

Sabe, dia destes, um afilhado meu, me perguntou: acredita em lobisomem? Não!

Não acredita mesmo?

Garantir não posso, porque os mistérios entre céu e terra são muitos. Melhor deixar a imaginação cuidar permitindo aos que acreditam viver entre curiosidade, dúvida e medo.

Quando menino, era atravessar a rua por trás de casa e alcançar vizinha que tinha mesa grande onde, sentados em bancos de madeira, reunia sua filharada e os filhos dos vizinhos, para histórias fantásticas. Quantas escutei ali, sempre à noite. Difícil depois, voltar a casa, cruzando a rua, sem imaginar que pensar em mula sem cabeça ou ver algum saci atrevidinho trançando crina de cavalo aliviando espaço para vampiro sugador. Em noite de lua cheia, o perigo era maior. Estes seres fantásticos gostam de clarão alargando o espaço.

Cumpria esta maratona em minutos – uma eternidade! Subidas as escadas que me permitiam entrar pelos fundos, tratava de empurrar para longe as lembranças daquelas fantasias jurando não mais pensar nelas nem voltar para nova contação, tanto medo.

De novo, o afilhado cuja primeira infância não pude acompanhar, volta à tona: Eu acredito. Tenho medo disso, Deus me livre!

Gostoso saber que em pleno século XXI, com a tecnologia comandando tudo, haja quem acredite nestas histórias. Passei a divertir-me permitindo que a conversa se prolongasse. Prossegui com minha distante experiência destes mitos, mais tarde perdidos da minha memória, mas alimentei o papo em razão do espírito nacionalista que representam, na fantasia imaginativa que provocam.

Pensei se não deveria ensinar-lhe mais sobre Folclore brasileiro e Cultura Popular para despertar a importância das raças formadoras do povo brasileiro. Preservar o que parece estar-se diluindo em meio à pobreza cultural em que nos mergulhamos, no desprezo dado ao que é nosso, em tempos de globalização, parece-me essencial.

Quanto me lembro da contadora de histórias! Trabalhava como jamais vi, com seus filhos, contados de três em três, formando seis pares. À época, todos já crescidos, se punham em pé, mal se abria a madrugada, no primeiro canto do galo para trabalho árduo, numa olaria da família, nos fundos do terreiro, sempre ao som de cantilenas e louvores, como se ignorassem o esforço físico e moral a que se obrigavam.

Pareço nesta conversa com o afilhado, redescobrir o valor daquela gente simples, naquele terreno enorme em que se instalava a olaria, dividida em ranchos recheados de tijolos crus e cozidos agrupados como cristal em cristaleira. Ninguém reclamava de nada. Aquela luta diária parecia temperada de alegria e de esperança. Neles, – só agora reconheço isso – palpitava a verdadeira consciência cultural hoje desenraizada.

Nada contra a urbanização, a industrialização do país e o desenvolvimentismo. O que incomoda  um coração que envelhece não é saudade. É não ter sabido valer-se da observação necessária para guardar melhor toda a verdade daqueles cenários rurais adormecidos, ressurgindo, agora, em sonhos quase diários.

Este sertanismo nostálgico, que os anos não trazem mais, autêntico, caipira, repetindo ensinamentos interessantes, hoje, esquecidos ou, pior, desconhecidos. Quem sabe, por exemplo, de benzedeiras, das guardiãs de crendices, as mais diversas, de superstições, de assombrações bem desenhadas nas cabecinhas infantis, especialmente? Quem insiste em preservar, na terra, os pés, o arrastado da fala tão característica, as histórias caboclas que nos contavam?