As cores em expansão na obra de Tassinari

O século 21 começou para a pintora paulista Renata Tassinari com uma série de trabalhos em que a artista usava a moldura de acrílico de suas obras como elemento da composição, o que aproximava essas peças dos ‘objetos ativos’ do mineiro Willys de Castro (1928-1988), produzidos entre 1959 e 1962. Essa afinidade com a arte do neoconcreto brasileiro só cresceu nos últimos anos, a ponto de se reconhecer nos trabalhos que Renata apelidou de ‘beiras’ uma nova reflexão sobre a tridimensionalidade do suporte a partir mesmo da relação “positivo-negativo” que caracterizou o objeto ativo de Willys. As ‘beiras’ constituem a principal novidade da exposição que a artista abre no dia 1º de março, na galeria Lurixs Arte Contemporânea do Rio.

São dez as ‘beiras’ e cinco os desenhos na mostra, que dá sequência às pesquisas iniciadas numa exposição anterior da pintora na mesma Lurixs, A Pintura na Caixa (2011), com curadoria de Paulo Venâncio Filho. Nela, a artista recorria a molduras acrílicas e madeiras, explorando a troca entre cor e material, de modo que seu cromatismo antinaturalista se aproximava de outros expoentes do neoconcretismo brasileiro, em especial de Aluísio Carvão (1920-2001) com seu ‘cubocor’ (1960) – um cubo todo vermelho em que cor e forma são mais que sinônimos, constituindo um só corpo.

As ‘beiras’ representam a evolução natural da fragmentação da forma na pintura de Renata Tassinari, levando ao paroxismo o “espaço negativo” dos objetos ativos de Willys, que conduz à compulsão gestáltica de aniquilar o “vazio” entre o objeto e a parede a que está preso. São como fitas métricas de madeira que assumem a forma de molduras incompletas para uma pintura que não está em outro lugar além do próprio suporte da ‘beira’.

Já os desenhos da exposição derivam de uma pesquisa mondrianesca em que vários quadrados são deslocados sobre a superfície sem que nada indique uma ordem hierárquica na estrutura articulada dessa composição. A autonomia da cor é respeitada em função do traço, que estabelece os limites da expansão cromática, na direção das pesquisas de Albers. Na confluência entre a ordem de Mondrian e o campo de cor de Matisse, Renata conduz esses desenhos para o território da pintura, enquanto as ‘beiras’ são conduzidas para o da escultura.

Nas ‘beiras’, chapas acrílicas pintadas por trás, elas refletem a luz e alteram de modo significativo a verdadeira natureza da cor. Nos desenhos, ao contrário, a cor não é camuflada na transparência da chapa, mas surgem sólidas como num bloco cromático de Brice Marden, transmitindo ao espectador uma confortável sensação de equilíbrio.

A exemplo de Marden, a paleta policromática de Renata Tassinari tem o mérito de conciliar sentimentos contraditórios que nascem justamente desse conflito entre a ordem racional do desenho e a sensualidade da pintura.

Para uma pintora que surgiu no cenário artístico em plena onda neoexpressionista dos anos 1980 – e começou figurativa -, passar pelo abstracionismo geométrico e buscar algo além do que foi conquistado pelos concretos representou um desafio também arquitetônico: o de criar uma nova dimensão espacial com a cor.

A esse respeito, também os pintores da hard-edge norte-americana, nos anos 1950, na tentativa de se opor ao voluntarioso gestual dos expressionistas abstratos, tentaram adotar uma paleta mais impessoal com áreas de cores intensas como as das obras de Renata Tassinari. A diferença fundamental é que, a exemplo da cubana Carmen Herrera, hoje com 102 anos, essa impessoalidade, paradoxalmente, revela uma sensibilidade cromática muito pessoal.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.