As questionáveis reformas do governador

O governador João Dória resolveu reformar ambientes do Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista, incluindo a Sala dos Pratos e a Sala dos Despachos. Estruturas e objetos de madeira de lei histórica, tais como pisos, móveis e adornos, inclusive brasões do estado, foram pintados de preto fosco. Especialistas apontaram a desfiguração dos espaços originais pensados pelo arquiteto italiano Marcello Piacentinni, com a desvalorização da madeira nobre e da história das estruturas. Para quem não viu, vale a pena procurar as reportagens da reforma com as fotos na internet para observar o estado anterior e o posterior. A repercussão nas redes sociais foi amplamente negativa.

Estima-se que foram gastos cerca de R$ 2 milhões nas reformas e ações de redecoração. A promotoria do meio ambiente de São Paulo instaurou inquérito civil para investigação, solicitando informações acerca do conhecimento das modificações pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Questiona-se se o governador poderia realizar obras e reformas em bens com valor histórico e artístico sem consulta prévia dos órgãos de preservação do patrimônio público. Assim, ao que tudo indica, o governador de São Paulo parece desconsiderar a diferença entre patrimônio público e privado, tratando o Palácio dos Bandeirantes como se fosse sua própria residência particular, e como se ali não estivesse apenas de passagem, pelo período de quatro anos de mandato que lhe foi confiado pelos eleitores paulistas.

Outra obra mal sucedida é a que se refere ao muro de vidro da Raia Olímpica da Universidade de São Paulo (USP), que também foi executada na gestão de Dória enquanto prefeito de São Paulo. A inauguração ocorreu há um ano, antes que deixasse a prefeitura para concorrer para a eleição de governador. Porém, qualquer pessoa que transite pela Marginal do Pinheiros pode verificar que, apesar da inauguração de forma antecipada e extemporânea, atualmente a obra encontra-se inacabada e defeituosa, como muitos vidros completamente quebrados. Os painéis começaram a se quebrar depois de duas semanas da inauguração, somando até agora 44 painéis de vidros quebrados.

No início foi questionado se a razão da quebra dos vidros era vandalismo. Entretanto, laudos do Instituto de Criminalística não apontaram quaisquer indícios de vandalismo nas placas danificadas. A causa do problema, na realidade, é atribuída a trepidações das vias de tráfego mais movimentadas da capital. Além dos danos nos painéis, o mato alto cobre a estrutura. Mas a prefeitura de São Paulo, hoje gerida pelo então vice-prefeito de Dória, alega que a obra não é responsabilidade do município, tentando transferi-la para a Universidade de São Paulo ou para o próprio governador. Surpreendentemente, o escritório de design da mesma decoradora de luxo responsável pelo projeto do muro da USP com as falhas técnicas mencionadas foi contratado novamente para a reforma e a pintura das madeiras históricas do Palácio dos Bandeirantes.

Para quem se vendeu como “bom gestor”, as duas reformas referidas, tanto no  planejamento quanto na execução, ficaram, infelizmente, muito aquém do esperado.