As Três Marias

Da janela grande de vidro blindex da minha cozinha, vejo as Três Marias. Vejo outras estrelas, Alfa-Centauro, Betelgeuse, Canopus, Aldebarã, Electra, Gianfar, Vega e Intrometidas que se intrometem na minha cozinha espacial. Acha que vi todas estas? Oras, apenas gosto dos nomes delas.

Da janela da minha cozinha, posso ver as estrelas noturnas acenando para mim. A lua cheia atravessa o vidro e se reflete no balcão de granito da pia. Trata-se de uma projeção muito interessante. Tão distante está o satélite da Terra e vem parar aqui, onde cozinho.

Por um instante, penso nas tantas refeições que preparei nesta amada cozinha, neste mesmo balcão de granito, quantas vezes usei o alho e a cebola para refogar os mais diferentes pratos. Quanta comida boa, quanto alimento temperei, sempre apoiada por esta pedra maravilhosa que à noite recebe o raio de luar.

São momentos de puro êxtase. Pensando nisso tudo, tomei um copo d´água, e era o mais caro dos champanhes; passei creme de ricota numa torrada e era um caviar raríssimo; pensei em alguma coisa e foi a ideia mais luminosa e inteligente do planeta. Fiquei quieta, ouvindo as estrelas falando comigo a linguagem dos Anjos. Eu o vi. O meu Anjo. Ele estava muito, muito distante. E eu chorei.

Mantive com ele um diálogo de amor. Ele me falou de todas as profecias, todos os prognósticos e previsões, as visões apocalípticas de um mundo que vai se transformar.  Um planeta entrando nas suas dores de parto, contorcendo-se para dar à luz uma Nova Terra.

Numa missa de 31 de dezembro, frei Saul disse na homilia: “Gente, não muda nada, apenas o ponteiro do relógio e o dia na folhinha. Amanhã é amanhã, depois de amanhã… e assim sucessivamente”. Sábias palavras. Olho para o meu relógio, um que ganhei do meu lindo, um Natal antes de ele falecer.

Mudou o ano ou mudei eu? O que mudou perante a mínima poesia no sumidouro da vida? Onde estamos nós? Acompanhando a estrela Vega, possivelmente, perseguida pelo Sol da nossa galáxia, enquanto a luz caminha ao redor de nós.

Ah!… Deixa as Três Marias lá no alto, visíveis pelo blindex da minha cozinha. Três pontinhos tão distantes e belos, brilhando dentro deste pobre peito.

Nada serei sem este gentil encanto de ouvir estrelas. Ou de julgar que algo acontecerá no momento seguinte, não importa o que seja, há de ser arrebatador. Não entendo a vida sem arrebatamentos, sem o assombro do inexplicável e do imprevisível.

Somente concebo a vida desta forma ardorosa, feita de poesia e sonho, visão de um relvado repousante logo ali, depois que estivermos bem cansados e tristes. Que a tristeza fique pouco tempo conosco. Seja a alegria a convidada de honra em todos os momentos.

Mas nós sabemos que não é assim. Não há apenas flores pelo caminho, tampouco horas seguidas do mais prazeroso riso. Não raro, paramos para assistir às cerimônias sombrias que a vida nos prepara.

Temos de sair delas com um gestual sério e introspectivo, porque assim nos comportamos. Mas depois de passada a dor do luto, vital é olhar à frente e recuperar a marcha que ficou lá atrás. Buscar um sentido para nossa existência. As Três Marias o conhecem bem.