Barulho

Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz”. (autor desconhecido).

O dicionário oferece-nos uma série de sinônimos de barulho: estrépito, estrondo, fragor, ruído, algazarra, burburinho, falatório.

Há barulhos agradáveis e outros muito desagradáveis. Esses, embora haja a lei do silêncio que os proíbem perto de hospitais, escolas e a partir das 22hs até as 7, é uma das leis mais desrespeitadas entre nós.

Por falar nessa proibição, é interessante saber que a rainha Elisabeth Iª, filha de Henrique VIII, rei inglês, conhecida como rainha virgem por nunca ter se casado e nem deixado herdeiros, curiosamente promulgou uma lei proibido os maridos ingleses de surrarem suas esposas após as 22 horas para não perturbarem os vizinhos com os gritos inevitáveis.

Há toda sorte de barulhos, os assustadores como o troar dos canhões, ou o assobio das bombas caindo dos aviões de guerra. Trovoadas, mesmo que longínquas e estrondo de raios próximos, em plena tempestade e acompanhados de pavorosos vendavais são capazes de amedrontarem até os mais corajosos.

Choro de crianças manhosas, música em alto volume, o toc,toc,toc do salto de sapato de quem não tem desconfiômetro, principalmente acima ou abaixo de nosso apartamento ou subindo escada ao lado de nosso quarto; latidos intermináveis e a todo momento de cães, são ruídos capazes de nos tirar do sério.

O que dizer do tic-tac do relógio em plena noite, ou a torneira pingando sem parar?

Houve barulhos que ficaram na história. Durante a Revolução Francesa, foi espalhada uma notícia falsa para indispor a rainha com a plebe: “Que barulho é esse?” teria perguntado Maria Antonieta ao seu cocheiro. “É do povo que reclama a falta de pão, majestade”. “Se não têm pão que comam brioches!”

Nem todo ruído é desagradável. Guardo ainda em minha mente a lembrança da primeira grande mata, na qual tive a oportunidade de me embrenhar com alguns amigos. No percurso deparei-me com um conjunto de belezas sem par: troncos, galhos, flores, folhas, raízes, musgos e algas. Era um suceder de jovens e velhas árvores, muitas emaranhadas de cipós ou cobertas de parasitas.

Ao retornar, começava o entardecer e o silêncio antes grande e só cortado por nossas conversas, começou a ser quebrado por uma sinfonia de cricris, zic-zic, chios, sibilos, num crescendo como se fosse uma sinfonia, fazendo sentir-me envolto num entusiasmante amplexo da fauna e da flora.

Como é agradável apreciar o barulho da chuva a cair, quer torrencialmente como a que apenas tamborila nos telhados, dando-nos a sensação de prazer indescritível.

Estamos envoltos por ruídos, estrépitos, algazarras, falatórios e não muitas vezes, pelo silêncio. Este, na maioria das vezes, foi elogiado por grandes personagens: “Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio e, eis que a verdade se me revela”(Albert Einstein);.

Abraham Lincoln, por sua vez alertou-nos: “Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar transforma o homem em covarde”.

Precisamos evitar primeiro nós mesmos, depois nossos filhos, não ficar parecidos com uma carroça vazia, não apenas porque ela apenas faz muito barulho, mas é inconcebível, com tanta facilidade para se adquirir cultura e aprender a ponto de abarrotar a carroça, desperdiçar as oportunidades que temos.