Bata Andrade. Nos prados de Deus.

David Chagas

Tanta coisa me aproximou deste amigo. Seu caráter. O apreço e devoção à Nossa Senhora. A inabalável fé no Espírito de Amor. A família. Os cavalos, a desmedida paixão por cavalos. Montar, cavalgar, trotar ou vê-los desfilar mirando sua elegância. De meu pai, me veio esta herança. Quanto falamos sobre isto! Também ele, por seu pai, herança bendita deste senhor que, resistente, sobrevive ao filho, suportando a dor.

Deus sabe a quem leva. Com isso, renova seu exército, fortalece, no exemplo dos escolhidos, a fé, e se compraz já que não pode fazer na terra, local de fraterna convivência, como sonhou no começo de tudo.

Bata, com seu vozeirão, sua alegria contagiante e seu modo cordial de ser, vai formar no batalhão celeste. Aqui, tudo se desajeitou à sua partida. Ao lado da esposa, das filhas, dos netos. Bata era visivelmente feliz. Com ele, ainda tinha dr. Zezinho, seu pai, do alto de seus tantos anos.

Seu irmão, em texto que me escreve conta do desconforto da separação e da dor escondida. A mim, também. Incomoda-me a extensão da tristeza que toma conta de mim e abarca a tantos. Bata, todos sabíamos, era amado por muitos do jeito como Deus ensina e quer, mas as redes sociais não cessam de celebrar suas qualidades em manifestações de reconhecimento e respeito, permitindo entender que era muito mais do que supúnhamos para tantos e todos.

Para aliviar a dor da despedida, em recente conversa, Bata confessou estar cansado do tratamento imposto, cruel, apesar de semear esperança, checando a cada instante o limite do sofrimento.
Não merecia. Alguém merece? Há, no entanto, os que jamais deveriam conhecer experiência como esta, tão corretos e bons foram ao longo de seus dias. Caso do Bata que, nos fazia, com seu modo de ser, entender que Deus insiste com os amados para ver quanto suportam na imitação do Filho.

Só não disse, nas últimas conversas, que aprontava malas para despedida tão doída. Menos ainda que tratava de reconhecer no azul, seu novo prado verdejante.

Cassiano D’Andréa, limeirense querido, que um dia esteve comigo em sala de aula, deu-me a notícia. A manhã raiada desvestiu-se ao cobrar-lhe o último suspiro.

As lembranças acumuladas me obrigaram a sair traçando caminhos pelas campinas iluminadas de sol ainda novo. Passadas horas, solidário, escondeu-se na tristeza acinzentada do dia.
Bata, meu velho, com esporas, não tocarei ao dorso o teu cavalo. Nem o meu. Montado, trá-lo-ei para meu pasto, o teu cavalo, e o farei galopar em meio a outros tantos, não sabes quantos! num rodeio de despedida. Andadura suave, entre o passo e o galope, cabeça refreada, faremos a roda.

Na hora do ângelus, instante mesmo em que você, já ao lado de Deus, por certo, sair galopando entre nuvens preso ao primeiro raio de lua, nos recolheremos para olhar. Hora de olhar, tão somente olhar, com ternura e saudade.

Quando for meu tempo de partir, hei de chamar para junto do meu o teu cavalo. Enquanto espero, assustado com o tempo que, com voracidade, galopa, aprendo a reconhecer, confiante, os prados de Deus.