Bethânia, Zeca Pagodinho e o samba: um grande encontro

Dois artistas do mais alto escalão da Música Popular Brasileira num encontro jamais visto e impregnado de afetos. Dois intérpretes no auge da forma, diante de um repertório bem bolado, de hits e preciosidades pouco conhecidas. Quem achava que Maria Bethânia e Zeca Pagodinho não dariam liga juntos no palco se enganou redondamente.

O show “De Santo Amaro a Xerém”, que passou pelo Rio no sábado, 21, e chega a Belo Horizonte, São Paulo e Brasília em maio, alia o rigor artístico de Bethânia e a autenticidade e a graça de Zeca. Estar a seu lado deixa Bethânia mais solta; a presença dela faz com que Zeca exija mais de si como cantor.

“Bethânia me faz fazer coisas que nunca fiz. Essa mulher me mata!”, o cantor brincou. Um mês antes, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele dizia: “Como é que vou entrar no palco com Maria Bethânia? Acho que vou entrar de costas, com vergonha”.

Entre muitos momentos do espetáculo que mostram o sucesso do entrosamento, dois se destacam: Zeca cantando “Chão de Estrelas” (Silvio Caldas/Orestes Barbosa) e depois comemorando com ela a oitava alcançada; Bethânia recitando “Derradeira Estação”, letra de Chico Buarque, e inserindo nela “Marielle vive”, o grito de revolta pelo assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), mês passado – tipo de intervenção que ela não costuma fazer em seus shows.

A dupla, que já se conhece há décadas e estreitou laços ao cantar juntos num DVD de Zeca de dois anos atrás, se uniu na série de shows para “se divertir”. O público presente no Km de Vantagens Hall pôde atestar que este objetivo foi alcançado.

Outro, o de resgatar um repertório que traduz o gosto musical dos dois, moldado a partir da juventude de ambos – para além dos clássicos das carreiras (de Bethânia, “Ronda”, “Negue”, “Reconvexo”, “O que é o que é”; de Zeca, “Verdade”, “Não sou mais disso”, “Vai vadiar”, “Coração em desalinho”, “Samba pras moças”, “Ogum”) – também se cumpriu.

Bethânia pinçou “Pano Legal” (Billy Blanco), de 1956, gravada por Dolores Duran, sobre certo “samba diferente”, com “bebida servida em taça e champanhe em vez de cachaça”. Emendou com “Café Soçaite”, de Miguel Gustavo (1955), cantada por Jorge Veiga e de mesma temática.

Ela também escolheu sambas-enredo da escola de seu coração, a Mangueira. Além de lançar uma nova de Adriana Calcanhotto, “A Surdo 1”, feita em 2016 após a vitória da Verde e Rosa ao celebrar a cantora baiana.

Zeca foi de Portela. Antes, emocionou-se e emocionou a plateia ao interpretar Naquela mesa e lembrar do pai, falecido. Fez rir ao cantar a quase autoral Maneiras, aquela que diz “se eu quiser fumar, eu fumo/ se eu quiser beber, eu bebo”, que gravou há 30 anos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.