Brasil em festa como nunca antes se viu

Por Marcelo Batuíra Losso Pedroso

Não, a seleção brasileira de futebol não foi campeã do mundo. Não, não conquistamos o hexacampeonato mundial. Se a semelhança deste domingo for muita, saibam que é mera coincidência. Sim, ouvimos fogos de artifício, pessoas gritavam nas ruas, os carros com suas buzinas a ecoar pelas ruas. Mas não foi por conta do futebol.

Estamos assistindo a um momento histórico. Há muitos anos que tenho votado em candidatos à Presidência da República por exclusão, por ser a opção menos pior. Mas eis que surge alguém que faria até mesmo Jânio Quadros aplaudir. Muitos de nós, Piracicabanos, deixe-se claro que não a maioria, votaram em seu candidato da preferência no primeiro turno da eleição e em outro no segundo turno.

Muito embora já soubéssemos, no íntimo, que este candidato não iria ser vencedor, pois o posto de Presidente da República estava sendo disputado, por um lado, por alguém fora do circuito dos grandes partidos tradicionais, fora dos escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro público que assolou o país nos últimos anos; por outro lado, um candidato de um partido mais que tradicional, mas eivado de escândalos de corrupção e cujas raízes se fincavam (há muito tempo) muito firmes no poder.

Muitos brasileiros, pela primeira vez, foram às ruas pela política, colocaram a boca no trombone para defender um candidato, até então desconhecido. E, pasmem, um candidato que não é de esquerda, que não defende o socialismo! Isso parece ser um milagre. Isso numa sociedade em que a mídia é claramente dominada por “jornalistas esquerdopatas”. E digo isso, senhores leitores, com conhecimento de causa.

Digo isso, porque há muitos anos enfrento lobos em peles de cordeiro que se infiltram nas redações dos jornais, nas rádios, na televisão, para divulgar sua visão socialista e igualitária do mundo. Poucos no jornalismo se salvam. É uma realidade que deve ser compartilhada com o leitor. Pois, infelizmente, não temos controle de tudo que se passa no dia a dia de nossas redações. Fazemos parte da Associação Paulista de Jornais e os comentários que lá ouço são da mesma natureza.

No calor das manifestações do primeiro turno desta eleição, por conta de um dos movimentos “#Ele não” (que em Piracicaba foi pífio e inexpressivo), a própria coordenação da Faculdade de Jornalismo da Unimep manifestou-se em clara assertiva dizendo que “os jornais de Piracicaba” (todos, frise-se) não sabem fazer jornalismo, justamente porque não seguem a cartilha ideológica da esquerda.

Nessa eleição presidencial, vi, como nunca havia visto antes, a Folha de São Paulo, grande jornal do país, tomar rumos tendenciosos (e diga-se, vergonhosos), em franco desespero porque a realidade política do país estava para ser (finalmente) mudada. Justamente um jornal que sempre se disse “isento” e, para usar sua expressão de marketing “de rabo preso com o leitor!” O que devemos nos perguntar a qual leitor serve a Folha de São Paulo? Com certeza serve à minoria que votou, convicta, no Partido dos Trabalhadores.

Somente agora podemos nos manifestar, livres das amarras impostas pela legislação eleitoral aos veículos de imprensa. Muito embora um veículo de imprensa possa manifestar seu apoio a um ou a outro candidato, lhe é vetado tratar os candidatos sem a devida isonomia, a qual sempre nos esforçamos em fazer. Sempre defendemos a liberdade de expressão, ainda que das opiniões que discordamos e, até mesmo, das opiniões mais ignóbeis.

O resultado desta eleição presidencial deu-nos uma grande lição: o brasileiro está com sede de mudanças. Aquela Constituição de 1988, que antigamente foi apelidada de “constelação de direitos”, não reflete a realidade do dia a dia e precisa ser mudada ou até mesmo, refeita. E há também uma clara percepção de que a ideologia de esquerda fracassou. Os partidos de esquerda e seus defensores sempre contaram com um trunfo fenomenal: a militância religiosa (e fanática) de seus adeptos.

Aqueles, como nós, que defendem o liberalismo amplo e sem amarras, nunca teve a mesma sorte, são pessoas acanhadas em suas idéias, com medo de expressá-las por conta do deboche alheio. Por muitas eleições passadas fomos “obrigados” a fazer as escolhas eleitorais “menos piores”, sempre divididos entre o candidato do Partido dos Trabalhadores (e sua ideologia socialista) e, por outro lado, a social-democracia. Eram escolhas terríveis.

Nessa eleição, pela primeira vez, houve um candidato que apresentava os ideais puros liberais, representando um partido novo (NOVO no nome, inclusive); porém, ainda sem expressão de voto popular. As pesquisas indicavam que ele tinha entre 2 a 4 % das intenções de voto. Mas era um começo. Muito embora saibamos que a confiabilidade destas pesquisas estava à prova.

No segundo turno, também pela primeira vez, emerge um candidato com ideias similares. Um candidato mais arrojado, verborrágico, o qual usa os ensinamentos do teórico americano comunicação de massa, Marshall McLuhan: para ser ouvido, é preciso destacar-se na massa, o que se explica o uso de linguagem provocativa. E, diga-se, bem provocativa, com belas frases de efeito e contundentes.

Muitas dessas frases (ou idéias) acabaram por chamar a atenção dos eleitores e, mais que isso, ecoaram em muitos como compatíveis, similares. Sim, muitos eleitores tinham medo até mesmo de expôr suas reais opiniões; mas agora, livres da mordaça ideológica e patrulhesca, podiam fazer coro ao candidato e até defender publicamente suas idéias mais radicais.

Entre elas, está o fim das quotas raciais, a liberdade de porte de armas, a redução da idade penal, a pena de morte, o fim das “saidinhas” dos presos, o maior rigor de atuação policial junto à bandidagem, a redução dos impostos (como o ICMS), uma nova e mais ampla reforma trabalhista (com adequação dos direitos à realidade brasileira e à falta de empregabilidade de nosso mercado), a privatização de empresas públicas gigantes e corrompidas, a criminalização (e adequada punição) de movimentos como o MST. Enfim, muitos tabus que a nossa esquerda e a nossa social-democracia jamais deixava pronunciar.

É muito natural que o Brasil esteja em festa. Os privilégios acumulados e arraigados na esfera pública estão por um fio. Agora podemos olhar para frente com um pouco mais de otimismo, pensar que esse país (talvez) ainda tenha solução.