Brincar e desenvolver de forma saudável

Com o que você brincava quando era criança? Como seus filhos, sobrinhos, netos e vizinhos brincam hoje?

Em tempos de smartphone, tablets, videogames e uma infinidade de opções de jogos eletrônicos, a brincadeira de rua – aquela em que a criançada se esbaldava nas escaladas em árvore, amarelinha, taco, e tantas outras que faziam a gente perder até o horário das refeições -, tem ficado cada dia mais de lado. E para quem pensa que brincar ao ar livre serve apenas para sujar a roupa e ralar o joelho está muito enganado. É na brincadeira ao ar livre, no soltar a pipa, no correr, no andar de bicicleta, na criação de jogos é que ocorrem os desenvolvimentos físico, psíquico e social do ser humano.
De acordo com a neuropsicóloga Patrícia Henrique Monteiro, as novas tecnologias marcam uma mudança de época e isso está mudando o jeito da criança brincar. “Estamos na era digital. Esse momento histórico nos coloca em contato com uma multiplicidade de informações globais, a todo o momento, em qualquer lugar, nos quatro cantos do mundo. Mas será que os benefícios e riscos são iguais para todas as fases da vida?”
De acordo com ela o uso precoce e excessivo das tecnologias digitais podem afetar a saúde física, psíquica, comportamental, interpessoal e cultural das crianças. “Além disso provocam alteração do sono, da audição e da visão; obesidade, problemas motores, na postura e articulações; predisposição a ansiedade, agressividade e depressão; diminuição da capacidade de lidar com espera e frustração; dificuldade de concentração e aprendizagem; enfraquecimento do vínculo afetivo, da empatia e do desenvolvimento socioemocional; aumenta o risco para dependência tecnológica na vida adulta”, enfatiza.
Mas o que fazer se essas tecnologias são os principais recursos para acalmar as crianças – nativos digitais? É preciso entender que paternidade e maternidade dá trabalho. Hoje, os pais, precisam redescobrir como é gostoso usar a imaginação, como é prazeroso resgatar a criatividade e desenvolver brinquedos e brincadeiras ao ar livre. Os pais que curtem estarem em relação real, interagindo face a face com seus filhos também vivem o prazer de perceber e admirar as novas aquisições de habilidades e descobertas. Além disso, as crianças precisam da mediação dos adultos para aprender de forma eficiente.
“Brincadeiras como pular amarelinha, é uma atividade extremante complexa e as regras desse jogo estimulam várias habilidades neurocognitivas necessárias ao desenvolvimento adequado, por exemplo, a capacidade de pular com apenas um pé desenvolve na criança bases neurais para a criatividade, raciocínio lógico, autorregulação, equilíbrio. É proibido pisar nas linhas e isso ajuda no controle corporal. Parar e recomeçar desenvolve o ritmo corporal, os saltos fortalecem os músculos; as casas traz a noção de espaço; arremessar a pedrinha desenvolve a capacidade de coordenação viso espacial; buscar e segurar a pedrinha nas mãos promove coordenação motora fina; estratégia, prioridade, sequência vão se desenvolvendo ao jogar a pedrinha. Minha vez, sua vez, desenvolve habilidades socioemocionais, relações interpessoais; ganhar ou perder ajuda na formação da personalidade, tolerância a frustração, competitividade saudável entre outros fatores”, explica Patríca.
Soltar ou empinar pipas, também é uma brincadeira cultural que desenvolve habilidades como: motoras, socialização, respeitar as regras grupais, direção dos ventos, matemática intuitiva, relacionamento interpessoal, desenvolvimento socioemocional. E assim como tantas outras brincadeiras ao ar livre como subir em árvore, pular corda, cantiga de roda são extremamente benéficas para o desenvolvimento saudável
Contar histórias, o ouvir uma história contada pelos pais, exige que a criança crie suas próprias imagens, fantasie, faça conexões e atribua sentidos a história contada e isso abre espaço para a criança usar sua imaginação, criatividade e desenvolver seu pensamento.
“Enfim, o uso abusivo das telas pelas crianças provoca alienação de si e dos outros, enquanto as brincadeiras ao ar livre colocam a criança em contato com o próprio corpo, com as emoções e sentimentos que emergem nas relações com os outros”, garante a neuropsicóloga.
Vale lembrar que nem tudo é ruim, que não precisa jogar fora os tablets ou iPads, desde que seguidas as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria: “A Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital”, entre tantas as de que bebês com até dois anos não tenham acesso às telas, principalmente durante as refeições ou antes de dormir devem ser seguidas. A partir dos dois anos há aplicativos e programas de televisão educativos e pedagógicos que podem auxiliar no desenvolvimento saudável e estimular habilidades como a linguagem, reações rápidas e coordenação, tudo isso sem exageros. “Aos papais e as mamães um último alerta: muito cuidado com o uso excessivo das telas na frente das crianças!”, enfatiza Patrícia.

BRINCAR É ESSENCIAL
Para Juliana Zago Bazzo, pedagoga e coordenadora de educação infantil do COC Piracicaba, a falta do brincar e da interação entre pais, responsáveis e crianças é muito grave. “No mundo atual, onde os eletrônicos estão em todo lugar, a criança, mais do que nunca, tem sido deixada de lado. A falta de atenção para com elas deixa marcas irreparáveis em sua formação. Os pais e cuidadores não interagem mais com elas, pois é mais fácil e menos trabalhoso deixá-las o tempo todo com um tablet nas mãos a disponibilizar seu tempo para brincadeiras”, ressalta ao enfatizar que “é brincando que se aprende! É muito importante privilegiar os momentos de brincadeira livre e desestruturada”, garante.
O brincar é fator essencial e importante para o desenvolvimento físico, emocional, mental e social das crianças. Ao brincarem, elas não só explora o ambiente a sua volta como também desenvolvem a sua própria identidade. A brincadeira é, para as crianças, um dos principais meios de se expressar, de lidarem com os seus sentimentos (positivos ou negativos), de aprenderem a superar seus medos e de possibilitar a investigação e a aprendizagem sobre as pessoas e o mundo.
“Por meio do jogo, a criança compreende o mundo ao seu redor, aprende regras, testa habilidades físicas, aprende a ganhar e perder. A brincadeira desenvolve também o aprendizado da linguagem (cantar e brincar com instrumentos musicais simples representam estímulos fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, auditivo, sensorial, da fala), a habilidade motora (correr, pular e jogar bola são ótimos estímulos para o desenvolvimento motor), noção de seriação e de lógica (os blocos de construção, encaixáveis e quebra-cabeças ajudam no reconhecimento de diferentes formas e tamanhos, permitindo o desenvolvimento desta noção). Pintar, desenhar e brincar com bonecos permitem o estímulo da criatividade, da imaginação e da expressão de sentimentos”, ressalta a pedagoga.

ELAS PRIORIZAM
Davi Alves Aquino Santos, de 6, não perde a oportunidade de vivenciar brincadeiras ao ar livre e que são incentivadas pelos pais, de acordo com a mãe Fabiana Aquino Santos, 39. “Desde pequeno o levamos a parques, contato com a natureza, piquenique, correr, andar, enfim, aproveitar o tempo com atividades assim. Sempre consideramos essa prática importante tanto para o desenvolvimento físico dele quanto para o desenvolvimento intelectual, evitando o uso da tecnologia. Incentivamos sempre o contato com outras pessoas/crianças, brincadeiras com plantas, animais, jogos de tabuleiro, leitura, brincadeiras que envolvam o fazer, descobrir, inventar”, ressalta Fabiana.
Júlia Akemi da Costa, de 6, também adora brincar ao ar livre. De acordo com a mãe, Thaís Fujinaga da Costa, 39, a escolha da família foi mudar para um condomínio com intuito de deixá-la mais livre e brincar ‘na rua’ com as amiguinhas. “Acredito que assim ela cresça de forma mais saudável e feliz, além de ter histórias para contar. Ela também pratica jiu jitsu, pois considero que o esporte também é muito importante para a criança”, ressalta Thaís ao dizer que Júlia também utiliza o tablet, mas que o uso é controlado, para que a criança cresça sabendo da sua importância, mas sempre com limites.
Gustavo Sanchez Ricarte, 6, recebe dos pais o incentivo ao contato à natureza, a explorar os espaços, andar descalço na terra. “Somos a favor do contato com outras crianças, da interação nas brincadeiras, da criação de brincadeiras, da divisão de ideias. Tudo faz parte do desenvolvimento no crescimento, do aprendizado na escola”,salienta a mãe Silvia Sanchez Ricarte, 45. Claro que na geração dos eletrônicos, Gustavo também não fica de fora, mas segundo a mãe ele ainda prefere gastar energia na área verde que tem em frente a sua casa. “Hora que ele pega o tablet já está quase na hora de dormir”.
Beatriz Coelho, 6, aproveita a companhia do irmão para brincar ao ar livre, em parquinhos que têm no bairro. “Eles adoram conhecer os parquinhos e acho extremamente saudável esse convívio com outras crianças, essa socialização”, ressalta a mãe Flávia Doy Coelho, 37. Segundo ela, Bia também possui equipamentos eletrônicos, mas o uso é controlado e com dias e horários estabelecidos

ALTERNATIVAS
Piracicaba conta com uma unidade do Sesc que há anos oferece projetos que reforçam a importância do brincar, do resgate às brincadeiras tradicionais, das oficinas. Os programas foram pensados a partir das demandas sociais e assim, se transformam e se renovam, conforme a necessidade de discutir questões da contemporaneidade. Sempre pautado na valorização do ato de brincar e na sua importância enquanto expressão genuína da criança para entender o mundo, e se fazer entender nele e por ele. Suas ações se tornam um território de experiências e trocas muito potente para a discussão de diferentes temas e para interação entre pais e filhos, fortalecida por atividades lúdicas e culturais.
Entre os projetos desenvolvidos estão o Curumim, direcionado para crianças de 7 a 12 anos, que por meio de encontros semanais são realizadas brincadeiras, passeios, atividades culturais e esportivas, com intuito de contribuir para o desenvolvimento da autonomia, afetividade, cooperação, senso crítico, cidadania e o respeito pelo próximo. O programa é inteiramente gratuito.
A unidade também oferece o Parque Lúdico em referência ao Rio Piracicaba, seus peixes, pontes e mirantes. O brinquedo simboliza a relação do ser humano com as forças da natureza. Favorece e estimula a criança a exercitar-se, além de desenvolver a coordenação motora, força e equilíbrio.
O Espaço de Brincar é destinado a crianças de 0 a 6 anos e seus acompanhantes, visa à valorização do brincar como elemento fundamental da cultura da infância, por meio de ações lúdicas com elementos e brinquedos que estimulam o brincar coletivo, a criatividade e a convivência entre gerações. Espaço de Brincar em 2018 atendeu cerca de 10.2000 pessoas. Para as maiores de 7 a 12 anos tem o Espaço Lúdico. A unidade oferece também o Esporte Criança, com intuito de oferecer desenvolvimento integral de crianças por meio do brincar e da exploração dos principais elementos ginásticos, como saltos, rolamentos, manipulação de objetos, ritmo e expressão corporal. Estimula a criatividade e, de forma lúdica e divertida, proporciona a vivência das habilidades motoras básicas.