Campeã brasileira e mundial em arco e flecha, Brunna Scoton tem apenas 20 anos

“Sobre o Mundial a minha ficha ainda não caiu. No Brasileiro, minha medalha até está separada das outras e olho para ela e penso: ‘Nossa, consegui'”, revela. (Foto: Amanda Vieira / JP)

Com apenas 20 anos de idade, a jovem arqueira Brunna Camargo Scoton é campeã brasileira e mundial, além de bater 11 recordes brasileiros da Associação Field Brasil Arco e Flecha, que faz parte da IFAA (International Field Archery Association). Apesar de seu foco nos treinos, que não tem folga nem aos domingos, ela também mantém uma rotina nos estudos. Além de continuar no esporte, Brunna pretende cursar Comunicação Social em Midiologia, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mas não descarta a possibilidade de conseguir uma bolsa para estudar e treinar nos Estados Unidos, pois considera que terá mais oportunidades de investir em sua carreira. Filha de Karinna Camargo Scotton, sobrinha de Danielle Camargo Scotton e neta de Maria Aparecida Camargo Scotton, a jovem pode ser o que ela quiser. Alguém tem dúvida? Confira a entrevista da jovem arqueira ao Persona:

Como foi o seu começo no arco e flecha?

Fui incentivada pelo meu amigo o Gilberto Furlan, que já praticava arco e flecha. Depois conheci o Rogério (Facin, o treinador), acompanhei os treinos e comecei a gostar do arco e flecha.

Quais as principais dificuldades que você encontrou neste esporte?

Comecei a praticar entre 17 e 18 anos. Uma das dificuldades foi conseguir focar a minha concentração, além de ter força para puxar o arco, pois que queria fazer tudo isso ao mesmo tempo.

Qualquer som pode ser uma distração?

Sim, qualquer som que não seja comum ao ambiente pode atrapalhar. Em relação ao barulho da arquibancada, por exemplo, não atrapalha tanto, mas se o público conversar muito alto, os próprios organizadores pedem para falarmais baixo ou se afastarem.

Você já praticou outros esportes antes de entrar no mundo do arco e flecha?

Participei de quase todos, já que eram sempre oferecidos na escola, porém os que eu mais gostava eram o futsal, futebol e basquete. Me lembro que em 2017, a Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) abriu um treino aberto para o rugby, para selecionar jogadoras para as Encarnadas (time de Piracicaba). Fui, gostei e fiquei até a metade do ano, depois tive que parar porquê não estava conseguindo acompanhar os treinos com os estudos, mas foi muito legal, principalmente as pessoas que conheci lá.

Por que você parou de praticar rugby?

Querendo ou não, o rugby é um esporte de contato, então tive de decidir entre ir no treino e voltar com um roxo e uma dor a mais e não conseguir competir no arco e flecha ou ir no treino e ter um baixo desempenho, já que comecei os dois quase que ao mesmo tempo. Comecei no rugby em fevereiro e o arco e flecha em março do mesmo ano. Optei continuar com o arco e flecha.

Como é a sua rotina?

Eu divido meu tempo no cursinho (CLQ Poliedro) e mantenho minha rotina de treinos. Às quartas-feiras, por exemplo, treino até ás 22h. No domingo, que é o único dia que poderia dormir até um pouco mais tarde, mas gasto pelo menos três horas treinando. Sacrifico o meu domingo, mas é por uma coisa que gosto e vale a pena.

No ano passado você começou a competir no Brasileiro. Como foram as primeiras etapas? Como foi a adaptação?

Na minha primeira a pontuação foi 135 ou 166, agora não me lembro bem. Foi baixa, já que estava fazendo tudo errado. O bom é que no arco e flecha você sempre tem algo para melhorar, você nunca está 100%. As vezes é o dia, alguma coisa que você pode estar fazendo errado. Você pode estar fazendo a posição certa nos treinos, mas no dia você não está animado, não acordou bem, queria ter ficado mais tempo na cama, não está em um bom dia. Nisso você pode puxar errado o arco ou fazer algo que não estava fazendo no treino e sua pontuação baixar.

Como foi a emoção de ganhar o Brasileiro e o Mundial?

Sobre o Mundial a minha ficha ainda não caiu. No Brasileiro, minha medalha até está separada das outras e olho para ela e penso: “Nossa, consegui”.

Como você analisa o incentivo do arco e flecha como esporte no Brasil?

No Brasil o único atleta que está competindo e tendo um bom retorno, com visibilidade, é o Marcos D’Almeida. Tem bastante gente que poderia ter mais visibilidade, porém não estão. O Marcos recebe patrocínio e atualmente está em Tóquio, no Japão, treinando para as Olimpíadas de 2020.

Na última entrevista, você disse que pretende disputar as Olimpíadas em 2024. Você pretende assistir as Olimpíadas, principalmente no arco e flecha para ver como é a competição e ver quem são as principais potências e depois disso começar um planejamento?

Na questão de analisar ainda não pretendo, irei ver mais como uma fã do esporte em si, para admirar. Sei que no feminino as que mais se destacam são as coreanas, a principal não me recordo o nome, mas parece que ela toma energético só para levar um 10 e sei que ainda não estou no mesmo nível. Se vencê-la um dia, seria um dia histórico para mim. Quero ir para Paris, mas como deixarei para pensar melhor no ano que vem. Neste final do ano estarei no Mundial e no brasileiro, além do vestibular. Então no ano que vem, no WA começarei mesmo com esse plano

Você pensa em sair do Brasil um dia através do arco e flecha?

Sim, nos Estados Unidos, porquê lá o arco e flecha, principalmente a minha categoria (barebol) tem bastante visibilidade, tanto que tem uma liga. A questão da visibilidade é bem maior. Quando eles precisam de patrocinadores, eles acham facilmente. Lá também tem o arco hoyt, que é um dos melhores que existem, você só precisa editar o arco a sua maneira.

Você pretende procurar uma bolsa nos Estados Unidos para fazer uma faculdade lá e praticar o arco e flecha ao mesmo tempo?

Já pensei nisso, mas sei onde ir ou quem procurar. Já vi uma agência distribuindo panfletos, porém era apenas para futsal. Talvez eu tenha que me bancar para conseguir algo lá. Querendo ou não, acho que o arco e flecha, por mais que tenha visibilidade, ele fica no nicho só de quem gosta mesmo.

Pensando em 2020, você pretende continuar nos campeonatos em que disputa ou aumentar o número de competições?

Espero finalmente conseguir entrar para a WA(World Archery Fundation ou Federação Mundial de Tiro com Arco, em português) e entrar na faculdade. Ainda me falta dinheiro.

Como está sua questão em relação aos patrocínios? Como você enxerga essa situação?

Não tenho nenhum. Na minha visão, no Brasil não é comum patrocinar os atletas no arco e flecha.

Você já sofreu preconceito por ser mulher no arco e flecha?

Comigo não, porém já escutei algo relacionado. É uma história de um cara que treinava com um arco feito inteiramente de madeira (com 31,75 kg), e dizia que seu arco eram para homens machos, para homens fortes, não são para mulherzinhas.Por mais que a predominância no Brasil seja dos homens, é um esporte unissex, mas começou com as mulheres.

O que você gostava de fazer na sua infância?

Eu era uma “moleca”, adorava jogar futebol, sempre ligada aos esportes. Não tinha aquele grande sonho de ser uma atleta, amas ficou na rotina. Era a única menina jogando e para mim era: “Vamos conseguir fazer alguma coisa”. Ainda bem que eles me deixavam jogar, porquê poderiam ter dito não. Na escola terça-feira era futebol e na quinta-feira era ginástica rítmica na escola. Até fiz ginástica, porém tinha que decorar os passos, tinha que ter flexibilidade (algo que não sou), mas preferia o futebol.

Onde que você estudou?

O ensino Infantil (maternal até o pré-2) fiz no Bem-Te-Vi, do Pré-3 até o nono ano (Ensino Fndamental I e II) no Dom Bosco Assunção, e o Ensino Médio no Anglo Portal. Depois fiz um ano de cursinho no CLQ em 2017 e desde o ano passado faço cursinho no CLQ Poliedro.

Qual curso você quer fazer?

Comunicação Social em Midiologia, na Unicamp (Universidade de Campinas). O bom é que é em uma cidade próxima e esse curso juntou duas coisas que eu gosto: música e fotografia. Pensei em fazer só fotografia, mas só isso é um hobbie meu, então assim conseguiria colocar o meu trabalho e um hobbie do qual eu gosto, que engloba jornalismo publicidade e propaganda, cinema e fotografia. Para mim seria uma realização pegar alguém famoso e fazer um clipe de música.

O que você gosta de fazer em seu tempo livre?

Sou caseira, porém se for sair para comer, eu não dispenso o convite (risos). Se me chamarem pra balada, eu dispenso. Meu lugar favorito é o Matadouro, faz tempo que não vou em razão dos treinos, porém a moça até sabe o meu nome de tantas vezes que fui. Eu chego e ela já me pergunta se irei montar o lanche. Como um dos meus amigos é um dos donos, sempre pergunto por ele.

Também gosto bastante de ir no teatro com a minha avó, que na verdade é ela que me empurra, já que não gosta de ir sozinha, então sempre a acompanho. Prefiro séries do que filmes, já que o filme acaba em duas ou três horas e você fica se perguntado se terá e quando será a continuação. Então a série você já tem uma noção de quanto terá e quando será lançado os próximos capítulos.

Quais são as suas séries favoritas? Você costuma assistir todas as temporadas no mesmo dia?

Depende da série. Tem algumas que assisto até o final, mas outras que sei que é melhor assistir a um episódio por vez para entender a história direito. Minhas séries são bem de adolescente, como Flash, Super Girl, Arrow, Legends of Tomorrow, Blindspot, Lúcifer, outros. Sei que essas séries também são para o público adulto, mas se tiver que escolher entre uma série Dark e uma da Disney, escolherei a da Disney. Gosto deste tipo de série para relaxar a mente.

Mauro Adamoli
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