Carmelina de Toledo Piza: “A vida é sempre renascer, renovar”

(Foto: Claudinho Coradini/JP) (Foto: Claudinho Coradini/JP)

Era uma vez uma menina chamada Carmelina de Toledo Piza, nascida em Tietê. Ela era filha do casal Honorina Fortini e Júlio de Toledo Piza. Quando Carmelina tinha seis anos de idade, a família mudou-se para Piracicaba. A menina cresceu ouvindo histórias, causos, lendo muito e se interessando por qualquer coisa ligada à literatura.

Formou-se em magistério e letras, literatura, psicopedagogia, fez pós graduação em arteterapia e mitologia e mestrado em educação comunitária. A menina cresceu, virou mulher, amou, foi amada, adoeceu, se curou, chorou, sorriu, ficou de pé, caiu e levantou-se. Aproveitou a intimidade com a escrita e produziu livros, usou o seu dom e contou suas histórias e contos de fadas. Conquistou uma cadeira na Academia Piracicabana de Letras. Mas engana-se quem pensa que isso seja um uma pausa para descanso. Carmelina ainda tem muitas histórias para contar e escrever. Parte delas, ela contou para o Persona, em seu ateliê-casa, na chuvosa tarde da última quinta-feira.

Por que o universo infantil, tanto para a literatura como para a contação de histórias?

Acredito que eu fui escolhida pela literatura infantil. Eu sempre fui uma grande leitora, sempre gostei de ler e escrever, não fui uma excelente aluna, mas gostava da escola, gostava de participar de tudo. E quando eu terminei o magistério, letras, eu fui trabalhar e minha opção sempre foi a criança. Eu gostava de criança maior, já com nove anos, dez noa, que a gente podia movimentar, ler poesias, dramatizar, contar histórias. Então eu acredito que a literatura infantil me escolheu. Eu adoro literatura para adulto, tenho os meus livros, mas a infantil me encantou. Me encantou tanto que chegou em 1992 eu optei por ser contadora de histórias, deixei a sala de aula e fui trabalhar com crianças contando histórias, levando principalmente os contos de fadas que é o encantamento para crianças de até seis anos de idade.

Esse universo da literatura e da contação de histórias fez parte da sua infância?

Fez parte porque eu morei na rua da Glória aqui em Piracicaba e, no meio do quarteirão morava a mãe do nhô Serra e ali se encontravam aos sábados à noite e domingo de manhã e eles eram cururueiros, nhô Serra, Pedro Chiqueto, Parafuso, eles cantavam cururu até dez horas da noite, no sábado e no domingo logo pela manhã. E nós as crianças da rua, estávamos na rua, era uma rua ainda sem asfalto, de terra batida, e a agente rodava pneu, pulava corda, mas sempre ouvindo o cururu, ouvindo aquela cantoria toda. Outra força grande era o meu pai, ele sempre gostou de contar histórias. A gente chegava ele falava tem uma história que eu ouvi, que eu li. Então esse universo faz parte da nossa vida.

O que a pessoa deve ter para ser um bom contador de histórias? É necessário ter o dom para contador?

Aqueles que têm, já nascem prontos para ser contador e tem aqueles que são lapidados. Nas minhas dinâmicas de ensino, eu trabalho algumas coisas necessárias, que é a voz, a importância que é a voz, o olhar, o narrador tem a força no olhar porque há momento na história que você silencia, a história é como a música, há momentos em que ela vai, sobe,, desce e vai caminhando , a história é a mesma coisa, então há momentos quem que você silencia e esse momento que há o silêncio, você olha para a plateia e dá um tempo para que ela pensar naquilo que você acabou de dizer.

Então é importante de mais esse olhar do narrador, o corpo do narrador. Eu posso estar aqui mas as minhas mãos estão em movimento. Se eu fosse contar uma história meu olhar acompanharia minha mão e a gente vai acompanhando junto, falando e mostrando o castelo do príncipe. Outra coisa muito importante é o imaginário. Não adiante você querer contar a história, se você não imagina, não tem dentro de você essa força que os contos de fada têm, se você não acredita naquilo que você está falando. Quando eu pego um tecido para contar e eu levanto e digo que é uma borboleta, eu estou vendo a borboleta voar. Queilo tecido gira e vem no meu corpo e eu sou a fada, eu sou a bruxa. Você tem de ter o seu imaginário muito forte, se não você não passa para o imaginário da criança, do ouvinte.

É fácil convencer uma criança sobre aquilo que você está contando?

Depende muito. Quando eu comecei, há 27 anos, as crianças, até os 10, 11, 12 anos acreditavam. Hoje nossa criança, infelizmente (para mim), ela está deixando de acreditar nesse imaginário, nessa vida, nesse encantamento que a história traz, essa beleza que faz bem para gente. Eu tenho esse livo que é a Caju, uma História de Amor (de sua autoria), e a Caju é uma boneca e eu digo que essa boneca fala comigo, o tempo todo. Ela passeia comigo, vai no meu carro. A criança até os sete, oito anos, fica feliz, tranquila, aceita bem essa personagem – que é uma boneca de pano – e que conversa comigo. Mas os maiores falam é uma boneca de pano e ela fala com você E eu digo fala, porque quando a gente nasce é bem pequenino, a gente chora, ri, faz xixi, faz coco, mama, mas a gente cresce. A gente começa a engatinhar e às vezes a gente quer fica de pé, cai sentado, e ai a gente quer correr, bate o joelho, bate o cotovelo, machuca o nariz, e agente quer subir em árvore. Essa criança que ri, que chora, que quer subir em árvore e que brinca, mora dentro de cada um de nós. Então a Caju é a minha criança interior, por isso eu converso com ela todos os dias. Aí a criança que ouviu essa história, sai de lá tranquila, aceitando porque não tem como eu dizer não a Caju não fala, ela é uma boneca , vamos levar esse encantamento, vamos dizer a essa criança que ela também tem uma outra criança dentro dela, que é uma criança que ri e que chora, que ela pode brincar, que ela pode dizer, pode levar para passear. Hoje é mais complicado nossa criança hoje está muito com a tecnologia, é o celular, é o tablete, é o computador e eu atendo como arteterapeuta, eu vejo a necessidade dessas coisas que eu tenho. Teve uma criança que nunca tinha visto uma cadeira de balanço, então ela chega e a primeira coisa que ela faz é sentar na cadeira de balanço.

A senhora citou a questão da tecnologia, e há uma queixa recorrente de pais e educadores a presença da tecnologia hoje na vida das crianças. Com a sua experiência com crianças e até de resgate da contação de história, do imaginário infantil, esse fenômeno pode contribuir para que a criança perca a inocência e pule uma etapa da vida?

Acreditamos que sim. Há uma pesquisa de que as crianças estão perdendo o encantamento. Hoje você vai contar uma história para crianças de sete anos e você fala ‘ a história que eu vou contar é a história de um príncipe’, ‘príncipe não existe’. Você vai trabalhar o folclore, que é a nossa identidade, o saci, a mula sem cabeça, o curupira. ‘Saci não existe, você é mentirosa’ e nisso a gente vai trabalhando com essa criança. Nós temos de ter sonho e imaginário forte, seremos o quê? Um robô no futuro? Por que o que acontece com essa criança que está no tablete, celular, ela perdeu o olhar o outro. E o que eu disse pra você? O mais importante do narrador é o olhar, às vezes mais importante do que a própria voz e a criança fica numa tela o tempo todo. Ela perdeu o toque, o abraço, ninguém tem mais tempo para abraçar tá todo mundo louco para ligar o celular.

Falamos sobre a contação e tem também a literatura, qual foi seu primeiro livro? De onde vem a inspiração para escrever as histórias?

O primeiro foi a dissertação de mestrado, o primeiro de tudo. Foi uma satisfação muito grande a Anisal aceitar um projeto que era caseiro. O projeto que eu fiz para o mestrado era a contação de história dentro da minha casa, então não é acadêmico, como que eia embasar isso cientificamente? E a Unisal aceitou, os professores leram o projeto e aceitaram. Quando eu termino a dissertação de mestrado um dos professores disse merece um livro. E ai eu escrevi ‘Entrou por uma porta saiu pela outra, quem quiser que conte outra’ que é a dissertação de mestrado que eu mexo tudo, deixo menos acadêmico e mais literatura, então foi o primeiro. O segundo foi ‘Caju, uma história de amor’. A min ha inspiração, essa é muito interessante as minhas escritas, todas elas têm uma história. Eu tinha mais de 50 anos e tive um relacionamento e uma paixão e essa paixão um doa termina. No dia do meu aniversário , eu fiz a festa em um lugar distante, numa chácara, esperando que a pessoa fosse, mas ela não foi. E quando eu chego na minha casa , que eu olho na garagem, tinha um saquinho com laços vermelho e fios dourados com um bilhete: ‘ de um amigo que ama muito você, tudo acabou, neoqav (nunca esqueça que eu amo muito você)’, ai eu tomei consciência qde que o relacionamento tinha terminado, então eu vou para co computador e escrevo a história, eu chorava, tomava banho, comia alguma coisa e voltava para o computador e escrevia e varei a noite. Geralmente as histórias que eu tenho terminei um mestrado, terminei um grande amor, tive cirurgia, inspiração vem de perdas, ela vem você escreve.

Agora a senhora é membro da Academia Piracicabana de Letras, o que isso significa para a senhora?

Para mim foi uma surpresa muito grande e agradável. Eu sempre trabalhei com literatura, sempre teve a academia, mas numa foi uma coisa que passasse pela minha cabeça ser membro da academia. Mandei o currículo, dos 18 enviados foram escolhidos sete, e depois vai para uma votação e desses, quatro foram escolhidos. Minha cadeira é a número 29. Eu fiquei muito feliz quando recebi a notícia por e-mail, acho que mesmo com os outros membros, a academia precisava de um sangue novo, movimento e a gente está movimentando. Para mim foi um reconhecimento do meu trabalho.

Ao escrever esta matéria eu iniciei com o tradicional “Era uma vez…”, agora eu quero deixar para a senhora acrescentar o final, qual seria?

Não vou terminar com o “foram felizes para sempre” (risos). Eu acredito que esse final de história é um recomeço, a partir de muita coisa que eu passei, muitas dores, muitas decepções, de muitas perdas e agora eu vejo que com essa posse de membro da Academia Piracicabana de Letras, que eu valorizo muito, é um renascer, é um renovar. Minha história não acaba com o ‘ foram felizes para sempre, ela termina com uma subida num morro. Tem um texto que eu fiz que eu digo que todas as manhãs um homem descia com o seu cachorro e passava por mim e dizia ‘bom menina’, e logo atrás dele vinha uma velha mulher e me dizia ‘bom dia menina’, eles iam embora, o cachorro já era velho e, quando eles voltava, o cachorro vinha no colo do homem e a mulher carregava uma cesta, ‘boa noite menina’. Um dia eu perguntei a essa velha mulher, onde vocês vão? E ela me disse eu sou catadora de sonhos, cato sonhos que deslizam pelas frestas da porta, pelas frestas das janelas, levo lá no alto, bem lá no alto e transformo todos eles em histórias. Eu acredito que eu sou uma catadora de sonhos e daqui pra frente, tudo que passar por mim, eu vou transformar em histórias.

Beto Silva